Angela Merkel. De menina de Kohl à mamã contestada dos alemães

Angela Merkel anunciou na segunda-feira o início do fim de uma era em que dominou a política alemã e europeia. Abdica de concorrer à reeleição como líder da União Democrata-Cristã e o atual mandato como chanceler - que pretende cumprir até ao fim, em 2021 - é o último.

A governante alemã, no poder desde 2005, atravessava nos últimos meses uma crise de liderança criada com os resultados das últimas eleições, em setembro de 2017.

As negociações para a formação de uma coligação inédita a nível nacional fracassaram (com os Verdes e os Liberais) e os sociais-democratas, com a pior votação da história, acabaram por ceder - e com isso perderam o líder, Martin Schulz. Mas também a CDU-CSU, que já perdera 8,6% nas eleições (em boa medida para a extrema-direita da AfD), sofreu uma erosão pelo impasse de quase meio ano. Agravada ainda com o braço-de-ferro de Merkel com o ministro do Interior, Horst Seehofer, devido à política migratória e de asilo.

Aos 64 anos, a política formada em física e em química quântica terá refletido que não queria acabar como Helmut Koh - afastada por uma jovem Merkel em ascensão. A grande figura da reunificação alemã promoveu Merkel nas fileiras da CDU e da política em geral. Em resultado das primeiras eleições da Alemanha unida foi eleita deputada e daí foi para o governo como ministra da Mulher e da Juventude.

A menina afasta o mentor

Em 1994 foi promovida, ao dirigir o Ministério do Ambiente e da Segurança Nuclear. Kohl tratava-a de forma afetuosa e paternalista ("a minha menina"). Mas anos depois, já com o partido na oposição, e abalado por um escândalo de financiamento, não pactuou com Kohl. Em dezembro de 1999 escreveu um artigo no Frankfurter Allgemeine Zeitung no qual aniquilou a frágil liderança do "pai da Alemanha unida". Em abril de 2000, Angela Merkel foi eleita líder da CDU - a primeira mulher no cargo. "Eu trouxe a assassina para o pé de mim", disse Kohl mais tarde.

A social-democrata conservadora

Enquanto líder de um partido e de uma união (CDU-CSU) conservadora, Angela Merkel governou mais ao centro e, aqui e ali, apropriou-se de matérias da esquerda. Há quem rotule Merkel de primeira chanceler social-democrata de um partido conservador.

Se não teve problema em apropriar-se da alcunha de mutti (mamã) dos alemães, ou de fazer campanha a prometer estabilidade e a ausência de surpresas, alargou o espetro da governação, ao introduzir programas de apoio à rede pré-escolar. Ou ao fomentar o aumento da participação da força de trabalho feminina para mais de 70%, bem como a introdução de quotas de 30% de mulheres nos conselhos de administração, bem como uma lei para reduzir as disparidades salariais entre géneros. Ou ainda ao introduzir o salário mínimo, em 2015.

A rainha da Europa

Quando a crise financeira se abateu, tendo deixado os países do sul da Europa em graves dificuldades, não foi de Herman Van Rompuy ou de Durão Barroso que os europeus esperaram uma solução. A crise da dívida soberana da Grécia, em especial, levou todos os olhares a voltarem-se para Merkel. A sobrevivência da moeda única ou da permanência da Grécia e de outros países esteve em dúvida.

A chanceler e o inflexível ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, não cederam aos pedidos de reestruturação da dívida grega. A Atenas (como a Lisboa) exigiram dolorosos cortes orçamentais e aumentos de impostos na Grécia, em troca do apoio a pacotes de resgate financeiros, no valor de mais de 300 mil milhões de euros.

Foi então que ganhou fama de rainha da austeridade, tendo chegado a ser alvo de caricaturas com a farda nazi. Em França, os seus críticos apelidaram-lhe Madame Non.

A líder compassiva

Se muitos a consideraram insensível durante a crise da zona do euro, outros tantos a criticaram por ser ingénua ou mole na crise de refugiados e migrantes, em 2015.

Foi a sua decisão mais controversa e importante quando anunciou aceitar mais de um milhão de requerentes de asilo, apesar da feroz oposição de muitos nas suas fileiras."Wir schaffen das" ("Nós podemos fazer"), disse uma emocionada chanceler.

Mas parte da sociedade não aceitou de bom grado a decisão. Às movimentações sociais e políticas (Pegida, contra a influência islâmica na sociedade, e o crescimento da AfD, partido eurocético, nacionalista e antimigração), às pressões internas nos partidos CDU-CSU, Merkel viu-se obrigada a corrigir o rumo e a apoiar as medidas para apertar as regras de asilo e fechar as fronteiras externas da UE.

É disso prova o acordo que fez com Tayyip Erdogan, em 2016, para conter o fluxo migratório, em troca de milhares de milhões de euros.

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