"Ameaça aos kibbutz não é o balão palestiniano, é o pedaço de madeira a arder"

Entrevista a Shai Hermesh, dirigente do Congresso Judaico Mundial e ex-deputado israelita, que vive há 55 anos no kibbutz Kfar Aza e esteve em Portugal. Amigo dos falecidos Shimon Peres e Ariel Sharon, diz-se crente na paz com os palestinianos, mas lamenta que o espírito que se seguiu aos Acordos de Oslo tenha desaparecido.

Ser atacados por roquetes é algo a que os israelitas que vivem juntos à Faixa de Gaza estão de certa forma habituados. Mas agora há também os papagaios incendiários enviados pelos palestinianos e até balões. Como é que se lida com uma ameaça permanente destas, de perigo diário, quando se vive num kibbutz como o seu?

É uma pergunta difícil, porque estamos a falar do que eu chamo um limite que foi ultrapassado. Desde 2003 enfrentamos uma situação de ameaça constante - nós os kibbutzniks que vivemos junto de Gaza, a uma distância que pode ser de um quilómetro -, que primeiro começou por serem os kassam, foguetes muito primitivos, que com a passagem do tempo passaram a ser mais avançados e mais perigosos. E agora estão a ser usados novos sistemas, como os balões e os papagaios, que pegam fogo aos nossos campos, às nossas plantações, causando grandes incêndios que destroem propriedades. E é um instrumento tão primitivo que não há meios de o travar, não há informação ou espionagem que possa ser útil. Eles põem um pequeno pedaço de madeira a arder agarrado ao balão, largam o balão para que voe na direção de Israel e quando cai o pedaço de madeira causa um incêndio.

Ao contrário dos roquetes e dos mísseis, os papagaios e os balões incendiários não matam, mas conseguem pôr em causa o modo de vida dos kibbutzniks?

Põem em causa. Causam prejuízos de dezenas de milhares de dólares. Cultivos inteiros têm sido destruídos por essa arma primitiva mas eficaz. Quando se é atacado por algo sofisticado, consegue-se criar algo sofisticado para enfrentar o perigo, mas perante algo tão primitivo não há resposta. Olha-se para o céu, vê-se o balão e só nos resta tentar adivinhar onde vai cair o pedaço de madeira em chamas. E sabemos quando começa. Os ventos de oeste para leste começam às duas da tarde e acabam às sete da tarde.

Todo o ano?

Sobretudo durante a primavera e o verão. Estamos a falar de uma região que é semiárida, muito seca, com pouca chuva. Assim, é muito fácil causar um incêndio.

Quando o balão vindo de Gaza é avistado, os kibbutzniks, ou o próprio exército israelita, tentam destrui-lo, derrubá-lo?

Não, não vale a pena e não faz sentido. Mais quilómetro, menos quilómetro. Se se derruba o balão, causa-se o dano à mesma. O pedaço de madeira a arder cai e causa o fogo. É preciso perceber que a ameaça aos kibbutz não é o balão, a ameaça é o pedaço de madeira.

Como reagem então?

Da única forma possível. Temos vigilantes com binóculos que tentam identificar os balões e a sua trajetória o mais cedo possível para assim que o pedaço de madeira atingir o solo se chegue rápido ao local para se apagar o incêndio logo no início. Combatemos os incêndios, não os balões.

Os vigilantes são membros do kibbutz?

Não, não. São voluntários. Gente que vem de todo o país. E que se colocam ao longo da fronteira durante todo o dia a olhar com binóculos e que avisam por telemóvel os bombeiros de onde está o fogo. Mas não chega. Também o exército ajuda. Imagine! Os soldados, que deviam estar a proteger a fronteira, a identificar e destruir túneis, a impedir ataques terroristas, passaram a ter um novo trabalho, apagar fogos. Criámos grupos em cada kibbutz, equipados pelo governo com pequenos tratores com contentores de água, para serem os primeiros a chegar, porque somos os que em princípio estão mais próximos. Ou seja, contra os balões incendiários, começamos por ser nós os kibbutzniks, depois os bombeiros e os voluntários, agora os soldados. Tudo para minimizar os danos. Se nos atrasamos uns minutos a destruição pode ser horrível. Falemos das perdas de vidas. Desde 2003 que a nossa área é atacada por roquetes. Depois começou a haver disparos profissionais com morteiros de 120mm. Eu fui paraquedista e posso garantir que projéteis de 120mm podem fazer explodir muita coisa. E eles disparam contra civis, não contra militares. Porque o exército não tem ali bases. Ali vivem os kibbutzniks, que além de serem alvejados com os Kassam o são agora também com os morteiros de 120mm. E matam pessoas.

Morreu gente no seu kibbutz?

No meu kibbutz ouve um morto por míssil há cinco anos. E isso explica como as pessoas que ali vivem se sentem. Primeiro há as crianças. Que vivem num terror permanente. Cada vez que há um disparo do outro lado os alarmes começam a dizer cor vermelha, cor vermelha. Já não é o uivo da sirene, uuuuuuuuuuuuu, porque causava choque nas pessoas. Não é uma situação fácil nem para as crianças nem para as mães.

Quando começa o alerta, no kibbutz todos vão de imediato para o abrigo?

Temos 15 segundos para encontrar um abrigo. Agora, ao fim de tantos anos, finalmente o governo começou a financiar a construção em cada casa de um quarto que sirva de abrigo, nove metros quadrados. Mais ainda. As creches e escolas da área, onde vivem mais de dez mil crianças, agora são edifícios com proteção. Isso significa paredes de 40 cm.

Isso é algo novo? Como se faz? Vai-se reconstruindo casa a casa, escola a escola?

Vai-se reconstruindo sim, para proteger a população. O governo já investiu dois mil milhões de dólares. Não há país nenhum em que um governo tenha de gastar tanto só em proteção. Às vezes há quem se queixe de tanto dinheiro ser gasto, mas aí é lembrar que o governo serve para proteger os cidadãos.

Isso na zona de Israel envolvente de Gaza?

Até sete quilómetros da fronteira, o que significa 45 kibbutz e as cidades próximas, uns 30 mil habitantes.

Quantos membros tem o seu kibbutz?

850. Agora pense numa família. É meia noite e um roquete é lançado. O sistema do exército identifica o roquete, começa o cor vermelha, cor vermelha. Pais e filhos estão a dormir, têm de acordar a correr e ir todos para o quarto abrigo. E isto é muito melhor do que antes, quando não havia abrigo em casa. Nessa altura só lhes restava rezar por Deus a ver se nada lhes acontecia. Os civis nos kibbutz passaram a ser um alvo desde 2003. Um dos resultados, muito conhecido na nossa área, é o stress pós-traumático nas crianças. Crianças que se assustam com um simples barulho de bater na porta. Elas tentam esconder esse choque, mas estão em sofrimento.

Que tipo de contacto os kibbutzniks mantém com os palestinianos de Gaza? Há hoje uma separação total, cada um vendo o outro como o inimigo?

Posso contar a minha experiência pessoal. Depois dos Acordos de Oslo, assinados em 1993, por Yitzhak Rabin e Shimon Peres com Yasser Arafat, desenvolvemos ligações com as pessoas de Gaza. Milhares de palestinianos começaram a trabalhar em Israel. Todos os dias cruzavam a fronteira e uns iam trabalhar até para Telavive, outros nas nossas quintas. Mas depois, em setembro de 2000, Arafat declarou a segunda intifada e começaram a lançar ataques contra os kibbutz. Acabaram sete anos de paz, mas nesses sete anos fui amigo de famílias em Gaza. A fronteira estava aberta. Convidei muitos palestinianos a passarem o sábado na piscina do kibbutz. Íamos à noite comer a restaurantes de peixe no litoral de Gaza. Nesses tempos aquela ideia de termos de ser inimigos para sempre não fazia sentido. E continuo a manter contacto. Houve palestinianos de Deir al-Bala que trabalharam para mim e continuamos a felicitar-nos sempre que nasce uma criança. Depois do bloqueio, claro, ninguém pode vir trabalhar, mas já recebi telefonemas de um antigo empregado a dizer que um vizinho começara a receber a pensão israelita e se eu podia ver se a dele estava em condições. Fui à segurança social e falei das contribuições que tínhamos feito. E, imagine, segundo a lei israelita, qualquer um que trabalhe em Israel, não interessa se é israelita ou palestiniano, tem direito à sua pensão se descontou. Não se trata de amigos ou inimigos. E sim consegui uns milhares de shekels, que hoje em Gaza é muito dinheiro, e fui até ao posto de fronteira e entreguei a um comerciante que lhe entregou aquilo a que tinha direito.

A separação com os palestinianos de Gaza aconteceu então logo em 2000, não em 2005 quando Israel decidiu retirar e o poder acabou nas mãos do Hamas?

Sim, a separação foi antes da retirada.

Dos colonos israelitas que tiveram de abandonar Gaza, alguns ficaram nos kibbutzs vizinhos ou foram para outras partes do país e para a Cisjordânia?

O nosso kibbutz não recebeu nenhum, mas outros na área sim. Por decisão de Ariel Sharon, então primeiro-ministro, Israel mandou retirar os sete mil que viviam em Gaza.

Uma decisão política difícil?

Muito difícil. Sharon pertencia à direita, à mesma ala política dos colonos. Ele foi um dos arquitetos desses colonatos muitos anos antes.

Como explica a decisão de Sharon, um general que antes sempre se mostrara implacável com os palestinianos? Foi uma adesão ao principio da solução dos dois Estados, como prevista em Oslo?

Sharon morava na região onde eu fui autarca. Quando ele rompeu com o partido de direita Likud e fundou o centrista Kadima telefonou-me a convidar a juntar-me a ele. Eu tinha sido militante trabalhista mas aderi ao Kadima e fui eleito deputado, membro do Knesset. Creio que Sharon, que tinha 75 anos na altura, chegou à conclusão não ser possível um Estado judaico democrático controlando milhões de pessoas sem direitos civis. Os críticos dele dirão que só mandou retirar de Gaza porque tinha medo de ser perseguido por crimes. Não acredito nisso. Fomos bons amigos, conhecíamo-nos bem, nunca tínhamos sido do mesmo partido, mas acreditei nele. Ele foi um defensor dos colonatos. Quando se negociava a paz com o Egito, entre Menahem Begin e Anuar Al-Sadat, ele tentou sabotar o processo promovendo colonatos no Sinai, mas com o tempo repensou a sua visão para Israel.

Ser um falcão, como aliás Rabin, tornou mais fácil a Sharon ordenar a retirada de Gaza? Ninguém o podia acusar de ser fraco perante os palestinianos?

Para a parte da direita israelita ainda é visto como alguém que tomou uma decisão criminosa. Mandar retirar colonos que alguns viviam em Gaza há três gerações. Mas o resto de Israel percebeu o que quis fazer. O colapso físico que o atingiu impediu de se ver o resultado da sua política.

Este conflito intermitente entre uma Gaza controlada pelo Hamas e Israel não tinha de acontecer obrigatoriamente, pois não?

Hoje isso é um tema para os historiadores. Se podia ter sido de outra forma. Mas posso dizer que ninguém acreditava que a Autoridade Palestiniana podia ser derrotada em 48 horas. Israel equipou-a totalmente. A OLP, e a Fatah, receberam Gaza e entregaram-na ao Hamas. As pessoas sofrem em Gaza. Mas se alguém fala é morto. E o Hamas já não é o principal problema. Se tentam negociar com Israel, vem a Jihad Islâmica e acusa-os de ceder.

Vê alguma solução a médio prazo, que acabe com o terror dos balões incendiários, mas também com Gaza como um território de pobreza e sofrimento?

Sou um grande crente na paz. E digo ao nosso governo que devia encorajar mais Mahmud Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana. Porque ele líder um movimento político e com um movimento político é possível um compromisso. Com um movimento religioso não é. Israel fornece bens para atenuar o sofrimento da população de Gaza e o Hamas usa o cimento para fazer túneis para atacar Israel, para atacar os kibbutz. O hélio é fornecido aos hospitais por Israel, mas eles usam esse hélio para nos atacar com os balões. Alguma ouviu falar de um país em guerra que fornece água ao inimigo, medicamentos ao inimigo? Eletricidade?

Vive há quantos anos no seu kibbutz?

Há 55 anos. Criei lá os meus filhos.

E nunca pensou mudar para um sítio mesmo em Israel menos perigoso, sem balões incendiários ou roquetes?

Quando os jornalistas me perguntam isso, digo sempre: é a minha casa. Começamos com galinhas e vacas, depois criámos uma empresa, que hoje é internacional. Passámos de umas poucas famílias para 200, somos uma comunidade.

Nasceu já em Israel, antes da independência em 1948. De onde veio a sua família?

Ela chegou em 1930, ele em 1935. Mãe veio da Letónia, pai da Ucrânia.

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