Amazónia e nuclear dominam G7. Mas Trump "só" falou do seu resort de Miami

Presidente dos Estados Unidos disse, repetidamente, que o seu resort em Miami é o local ideal para a cimeira de 2020 do G7. Deste encontro saiu ajuda ao Brasil, a abertura para dialogar com o Irão e o acordo sobre a taxa digital

Um pacote de 18 milhões de euros de apoio ao combate a fogos da Amazónia e uma nova porta de diálogo na questão do programa nuclear iraniano dominaram as conclusões da cimeira do GR, em Biarritz, assim como o acordo sobre a taxa digital a aplicar aos gigantes tecnológicos. Contudo, Donald Trump que participou na conferência de imprensa final com Emmanuel Macron, voltou a destacar-se ao sugerir que a próxima reunião do G7 se realize num seu resort em Miami. Prometeu que não iria ganhar dinheiro com o encontro, enquanto mais do que uma vez falava nas qualidades da estância na Florida.

Trump, que faltou ao encontro dos líderes do G7 sobre as alterações climáticas mas disse "saber mais de ambiente do que maioria das pessoas", não se alargou muito sobre o conflito comercial com a China. Disse que esperava um acordo, "caso contrário as coisas podem ficar más para o povo chinês". Defendeu a sua estratégia, dizendo que é a sua "forma de fazer negócios" e dizendo que acredita que se chegará a uma solução, porque a China precisa de um acordo.

"Desculpe, mas é assim, que eu negoceio", explicou Trump, acrescentando que talvez outros presidentes norte-americanos antes dele devessem ter feito o mesmo. "O que eu estou a fazer, já outros deviam ter feito, muito antes. Obama, Clinton, os dois Bush. Ninguém fez nada para travar os planos da China", disse, referindo-se ao desequilíbrio na balança comercial entre os dois países.

Sobre um eventual regresso de Vladimir Putin e da Rússia, Trump disse que isso era muito bom e que o líder russo só foi excluído por ter sido melhor que Obama, apesar de um jornalista lhe ter lembrado que foi a anexação da Crimeia que levou ao afastamento da Rússia. Mas era do resort Doral Miami que Trump queria mesmo falar, sugerindo que ali se realize a cimeira de 2020. Falou demoradamente sobre como os "prédios magníficos" do resort e a proximidade com o aeroporto o tornam o local perfeito, para rejeitar que o faça com intenção de lucrar pessoalmente com a realização da conferência.

O G7 aprovou um pacote de ajuda na ordem dos 20 milhões de dólares (quase 18 milhões de euros) para o envio de aviões de combate aos fogos. Além do envio da frota de aviões, o grupo dos sete países mais ricos (G7), reunido na cidade francesa de Biarritz, concordou em disponibilizar um fundo de longo prazo para o reflorestamento da Amazónia, cujo projeto será apresentado à Assembleia Geral da ONU no final de setembro.

O gabinete do Presidente francês, Emmanuel Macron, explicou que este plano de reflorestamento precisa ainda do acordo do Governo brasileiro e deverá ser articulado com as organizações não-governamentais no terreno, bem como com a população local. A presidência francesa considera que a Amazónia é o "pulmão do planeta", mas considera que também em África o problema da florestação é de resolução urgente, esclarecendo que está empenhada em mobilizar a comunidade internacional para estudar plano similares para o combate os incêndios nas suas florestas tropicais.

Contudo, Bolsonaro disse ter dúvidas sobre a vontade dos países do G7 de ajudarem a combater os incêndios na Amazónia e sugeriu que o chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, esconde outros interesses."Será que alguém ajuda alguém, a menos que seja pobre, sem retorno? Isto é, sem esperar por algo em troca", questionou Bolsonaro, junto à entrada do Palácio da Alvorada, a sua residência oficial.

Emmanuel Macron disse que os EUA apoiam estas iniciativas, embora admitisse que o Presidente Donald Trump não esteve presente na sessão de trabalho da cimeira do G7 dedicada às questões ambientais.

Acordo na taxa digital

Numa outra questão, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que ficou estabelecido um "muito bom acordo" com os Estados Unidos sobre taxa digital aplicada aos gigantes tecnológicos, objeto de discórdia entre Paris e Washington.

Os países do G7 entenderam-se em "chegar a um acordo em 2020 no âmbito da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico]" sobre o imposto internacional sobre as gigantes tecnológicas norte-americanas e que no dia em que esta entre vigor, França irá 'suprimir' a sua própria taxa", afirmou Macron.

Definitivamente adotado em 11 de julho em França, o imposto chamado GAFA (acrónimo que designa os gigantes tecnológicos Google, Amazon, Facebook e Apple) cria uma imposição sobre aquelas empresas, incidindo não sobre os lucros, que são consolidados em países de baixa fiscalidade, como a Irlanda, mas sobre o volume de negócios, enquanto se espera por uma harmonização das regras ao nível da OCDE.

Anteriormente, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tinha afirmado que estava "perto" de chegar a um acordo com a França sobre a taxa aplicada aos gigantes tecnológicos.

Emmanuel Macron anunciou também a realização em setembro de uma cimeira sobre a Ucrânia. Acrescentou que participam na cimeira os seus homólogos da Rússia, Vladimir Putin, da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e a chanceler alemã, Angela Merkel. "As condições estão reunidas para uma cimeira de sucesso", disse.

Abertura para negociar com Irão

O Presidente dos EUA, Donald Trump, disse que está aberto a reunir com o Irão, "quando houver condições, para resolver o problema nuclear, mas ameaçou com "força muito violenta" se Teerão não aceitar ser um "bom jogador".

No final da cimeira, Donald Trump disse que o Irão não soube aproveitar o acordo nuclear e aproveitou-se dos milhares de milhões de dólares que foram oferecidos, sem dar a recompensa de abandonar o seu plano nuclear. O presidente norte-americano disse que está aberto a negociar com Teerão e elogiou o esforço feito pela França para mediar as negociações, durante uma conferência de Imprensa conjunta com o Presidente francês, Emmanuel Macron, no final da cimeira do G7.

"O Presidente Macron fez o que achava correto. Talvez funcione. Talvez não funcione. Não sei", disse Donald Trump, referindo-se ao facto de Macron ter convidado o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano para comparecer em Biarritz.

Macron afirmou que espera que Trump e o Presidente iraniano se encontrem nas próximas semanas, acrescentando que os líderes do G7 concordaram que o Irão deve cumprir as suas obrigações nucleares, mantendo esperança em avanços diplomáticos.

Ao seu lado, o Presidente norte-americano repetiu a mensagem várias vezes enunciada de que "talvez ainda não seja o tempo para negociações", considerando que o Governo iraniano não está preparado para discutir o acordo.

"Haverá negociações quando houver condições para elas", afirmou Donald Trump, dizendo-se preparado para se sentar à mesa com o Presidente iraniano, Hassan Rohani, quando este considerar que tem condições para reunir.

O Presidente dos EUA insistiu em que o prazo do acordo estabelecido com o Irão (e que foi abandonado pelos norte-americanos, em 2018) está a terminar e que não aceitará uma extensão desse acordo, preferindo que seja negociado um novo entendimento.

"Eles são muito hábeis a negociar", explicou Trump, para dizer que os EUA não podem cair nos mesmos erros que o anterior Presidente Barack Obama caiu, aceitando as promessas iranianas sobre o plano nuclear, sem quaisquer garantias.

Já na conferência de imprensa que deu sozinho, minutos depois da conferência conjunta, Emmanuel Macron disse que tem envolvido a comunidade internacional na preparação de um novo acordo e que espera que as condições para um entendimento sejam conseguidas "muito em breve", realçando que não ninguém admitirá que o "Irão volte a produzir armas nucleares".