Alejandro: até onde pode subir o filho mais novo de Raúl Castro?

Após ter surgido em destaque nos encontros entre o líder cubano e Obama houve quem falasse que poderia suceder ao pai. Ele já o negou

Há um ano, à margem da cimeira das Américas, no Panamá, o presidente dos EUA, Barack Obama, e o de Cuba, Raúl Castro, tinham o primeiro encontro histórico após o anúncio, quatro meses antes, do degelo nas relações entre os dois países, cortadas há mais de meio século. No grupo restrito de pessoas na sala estava Alejandro Castro Espín, o filho mais novo do líder cubano. E não foi a última vez que foi visto ao seu lado em momentos-chave. Nesta semana, não foi eleito para o núcleo duro do Partido Comunista de Cuba. Mas nem isso afasta os rumores de que estará a ser preparado para assumir mais responsabilidades - havendo até quem diga que poderia suceder a Raúl em 2018.

O presidente cubano chegou ao poder há quase dez anos, depois de o seu irmão, o histórico líder da revolução Fidel Castro, se ter afastado por motivos de saúde. Seria eleito pelos deputados da Assembleia Nacional em 2008 e reeleito em 2013. Atualmente com 84 anos, já repetiu em inúmeras ocasiões que pretende deixar o cargo em 2018. O herdeiro aparente é o primeiro vice-presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, seu braço direito. Mas o filho de 50 anos, um coronel do Ministério do Interior (na calha para se tornar general de uma estrela), parece surgir cada vez mais no papel que o próprio Raúl desempenhou durante quase meio século ao lado de Fidel.

A reunião de Raúl com Obama no Panamá não foi a única em que Alejandro esteve presente: em setembro estava lá em Nova Iorque, no encontro entre ambos à margem da Assembleia Geral da ONU, e quando o presidente dos EUA visitou Havana, no mês passado, foi a segunda pessoa que cumprimentou depois de Raúl no Palácio da Revolução. Mais, tinha estado ao lado do pai quando este visitou o Papa Francisco no Vaticano, em maio de 2015, para lhe agradecer pelo papel que teve na aproximação de Cuba aos EUA. E tinha sido ele a receber no aeroporto de Havana, com uma continência e de uniforme, os três "heróis" cubanos que tinham sido condenados como espiões nos EUA e que foram libertados numa troca de prisioneiros no dia do anúncio do degelo das relações.

Tudo isto levantou a questão: que papel teve Alejandro Castro Espín nos 18 meses de negociações secretas que levaram a esse anúncio, a 17 de dezembro de 2014? Segundo o Diario Las Américas (o mais antigo jornal em espanhol de Miami), os dois enviados de Obama - Ben Rhodes (vice-conselheiro de segurança nacional para a comunicação estratégica) e Ricardo Zúñiga (diplomata e diretor sénior para os Assuntos do Hemisfério Ocidental) - encontraram à sua frente na mesa de negociações um único homem que concentrava os poderes de ambos: Alejandro. O filho de Castro é o responsável pela contrainteligência policial e militar através da Comissão de Segurança Nacional, que aconselha o presidente cubano em matérias de segurança.

Vida pessoal

Alejandro Castro Espín é o filho mais novo de Raúl e da sua falecida mulher, Vilma Espín, que foi durante anos a responsável pela Federação das Mulheres Cubanas. O casal tem ainda três filhas. O único herdeiro masculino nasceu a 26 de julho de 1965, sendo licenciado em Engenharia e mestre em Relações Internacionais.

Alejandro perdeu parte da visão no olho esquerdo na década de 1980 durante um exercício militar em Angola - onde Cuba manteve forças entre 1975 e 1991 para ajudar a defender o governo marxista do MPLA na guerra civil contra a UNITA, que contava com o apoio de África do Sul e dos EUA. Esse problema valeu-lhe a alcunha, por parte da dissidência cubana, de El Tuerto (o zarolho). O herdeiro político de Raúl está divorciado da mãe dos seus dois filhos.

Em 2009, Alejandro escreveu o livro Império do Terror. Estados Unidos: O Preço do Poder, que na nova edição, lançada no ano passado, perdeu a primeira parte do título. Na apresentação na Feira do Livro de Havana, a obra foi descrita como "um texto essencial de utilidade incalculável, que parte de uma investigação muito completa e exaustiva, verdadeiramente detalhada, e com um ponto de vista analítico, que não é propagandístico, mas acaba por ser demolidor".

Durante uma viagem de apresentação do livro a Atenas, o filho de Raúl Castro recusou a ideia de que será o sucessor do pai numa entrevista à Mega TV. "Esse é o pensamento mais infundado que pode haver. Não há nada nesse sentido. Eu sou só um dos 11 milhões de cubanos que estão a pôr o seu grão de areia para que a revolução avance, para que se consolide a obra que começou há mais de 50 anos", afirmou Alejandro.

O facto de não ter sido eleito para o Bureau Político ou sequer para o Comité Central no VII Congresso do Partido Comunista de Cuba, no qual o pai foi reeleito primeiro secretário, parece ser uma prova disso mesmo. Num artigo publicado no jornal espanhol ABC (conservador e monárquico), assinado pelo correspondente em Miami Manuel Trillo, fala-se da hipótese de uma eventual ascensão na hierarquia política da ilha ser feita através da nomeação de Alejandro como ministro do Interior. O atual titular da pasta, Carlos Fernández Gondín, escreve o jornalista, "parece que teve um "problema de saúde" depois de um ataque informático".

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