Alckmin quebra silêncio para dizer que Bolsonaro faz o Brasil perder tempo

Ex-governador não poupa nem equipa económica e afirma que o governo precisa saber que Muro de Berlim já caiu

Protagonista da mais dura derrota do PSDB em eleições presidenciais, o ex-governador Geraldo Alckmin, de 66 anos, quebrou um silêncio de oito meses no sábado (1 de junho).

Em entrevista à Folha de São Paulo, classificou a disputa de 2018 como um plebiscito sobre o PT e o ex-presidente Lula, reconheceu que o tucanato não vivia o melhor momento e fez cobranças ao vencedor.

Para ele, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e sua equipa não têm um plano e fazem o "país perder tempo". "Ele precisa saber que o Muro de Berlim caiu há mais de 30 anos." Nem a equipa económica, a cargo de Paulo Guedes, escapa das críticas.

O tucano mandou recados para João Doria, atual governador paulista e novo expoente do PSDB: "Política é paciência cívica. Não nasci ontem". Alckmin ainda anunciou um "pit-stop" da política. "O futuro a Deus pertence."

Disse que a derrota às vezes ensina mais do que a vitória. O que aprendeu com 2018? 
Vencer e perder fazem parte da vida política. Quem não estiver preparado para isso, não deve participar. Havia acabado de sair do governo, reeleito em primeiro turno, vencendo em 644 dos 645 municípios, e depois fiquei em quarto lugar para presidente. Cada eleição é uma eleição. Mas, como dizia Mário Covas, quando perde só há uma justificativa: faltaram votos [risos].

A eleição foi atípica? 
Diria que, se tivesse tido um curso mais natural, o quadro seria diferente. Na realidade, vivemos uma crise política. E houve dois fatos importantes: o impeachment da Dilma [Rousseff] e aprisão do Lula. O PT se vitimizou. Depois veio a facada do Bolsonaro, [com quem] me solidarizei e reitero a solidariedade, mas teve impacto. No fim, foi um plebiscito sobre Lula e PT, e venceu o anti-PT. Como Bolsonaro estava na frente, o rio correu para o mar.

Por que o PSDB não conseguiu manter-se como polo oposto ao PT?
Sempre achei que teria um candidato mais à esquerda e um mais ao centro. O PSDB não vivia um bom momento, o Bolsonaro começou antes -e não tiro os méritos dele. Acabou avançando e o voto útil foi para ele. Quero dizer que não tenho nada contra o presidente, pessoalmente. Até simpatizo pelo jeito simples, mas discordo totalmente da agenda do governo, acho que está fazendo o Brasil perder tempo.

Como assim? 
Temos 13,2 milhões de desempregados, cadê a agenda de produtividade? O Brasil não cresce, ficou caro para quem vive aqui, e tem dificuldade de exportação. Onde está essa agenda? Cadê a reforma tributária, fiscal? Eles não têm uma agenda e a única proposta é voltar com a CPMF, que é um imposto ruim, em cascata, que onera as cadeias produtivas.
A questão da política externa... Uma ideologização, que não é da velha, é da antiga, da antiquíssima política. Precisa dizer para ele que o Muro de Berlim caiu faz quase 30 anos.

Há a reforma da Previdência.
Que o governo, indiretamente, atrapalha. Para mudar a Constituição precisa de maioria qualificada, deve-se buscar consenso. Se você cria confrontos -alguns injustos, inclusive...

Quais?
Tem muita gente boa na política. Conheci uma mulher admirável, a Ana Amélia [concorreu como vice dele no ano passado], que é do PP. [O ataque à política] É injusto, oportunista e acaba criando muitos problemas.

Bolsonaro ataca as instituições? 
Quero repetir que não tenho nada de pessoal contra ele, mas há um oportunismo de querer se aproveitar enfraquecendo as instituições. Temos é que melhorá-las. Não é estigmatizando que vai avançar. Veja, por exemplo, a educação. Enquanto se discute ideologização ninguém fala do Fundeb, que vai acabar no fim do ano. Como se financia a educação básica? Isso é que é o importante.

Há um debate sobre risco à democracia. 
A nossa democracia já deu provas de muita resistência. Nós é que precisamos dar uma ajudinha [risos]. A melhor forma de fortalecê-la é com reformas, e a reforma política é parte importante. Temos um dos piores sistemas político-partidários. Defendo o distrital misto, ele barateia a eleição. E, no futuro, o parlamentarismo.

Voltaram a falar na mudança para o parlamentarismo. 
Não é opção para agora. Não temos nem um sistema político-partidário digno desse nome. Mas, adiante, feita a reforma, é a opção. Para, como no sistema português, dar estabilidade ao que deve ser estável, o chefe de estado, e instabilidade ao que deve ser instável, o chefe de governo. A sorte é que o [Rodrigo] Maia [presidente da Câmara] defende as reformas.

O senhor falou da educação. Há um impasse hoje na área.
Há uma crise fiscal que precisa ser enfrentada. Agora, governar é escolher. Tem que ter uma agenda que realmente seja importante, não discutir questões perfunctórias. Veja a segurança: se há um consenso entre os especialistas é o de que quanto mais arma, mais crime. Arma tem que estar na mão da polícia, que é preparadíssima. Não na das pessoas.

Já havia ouvido falar no Olavo de Carvalho, patrono de uma ala do governo? 
Nunca. Nada. Aliás, é estranha essa eminência parda. Não mora no Brasil, não vive as questões do país, não foi eleito... Sobre pauta de comportamento, é preciso ouvir, dialogar. O contrário do que está sendo feito, que é "é do meu jeito e quem não quer é inimigo".

O senhor é um conservador.... 
[Interrompe] Não. Sou reformista. Aliás, fica essa coisa de que o PSDB não tem posição, vive no muro. Não é verdade. O PT ganhou a eleição e manteve a política econômica do FHC. Eles mudaram, nós não. Bolsonaro era contra a reforma da Previdência, hoje defende. Tem muito populismo, incoerência. O que nós não somos é extremistas.

Em quem votou no segundo turno? 
Num tal de Geraldo Alckmin.

No segundo turno. 
Votei nele. No 45 [indica, portanto, que anulou o voto].

E em São Paulo? 
No Doria.

Houve uma disputa acirrada entre ele e Márcio França, que foi seu vice. A fidelidade partidária falou mais alto? 
Sempre. Partido tem que ter divergência para ser grande e forte.

Esse discurso sobre o novo PSDB é do Doria, que se elegeu alinhado ao Bolsonaro.
Todos os novos quadros são bem-vindos. É natural, temos que estimular. Agora, precisamos cumprir o que o povo disse nas urnas. Quem ganha governa, quem perde fiscaliza. É tão patriótico ser governo como ser oposição. Ou não há democracia.

Em algum momento se arrependeu de ter levado Doria para o PSDB?
Quem não tiver paciência cívica não pode fazer política. Não nasci ontem. Então: paciência cívica. Mas, ao passar a presidência do PSDB ao Bruno Araújo [aliado de Doria], deixamos três legados: o código de ética, as mudanças estatutárias e o compliance. É de uma transparência absoluta.

Criticaram o código por não definir situações mais complicadas, como as de Aécio, Beto Richa e Marconi Perillo.  
Código de ética baliza as obrigações, as infrações e as punições. É claríssimo: se tiver improbidade, corrupção, transitado e julgado, é expulsão sumária. Não tendo, analisa caso a caso. Para ter ética é preciso ser justo. Se não teve ainda nenhuma condenação... É exibicionismo, não é ética.

Os seus bens estão bloqueados [por decisão da Justiça, em investigação sobre repasses não declarados da Odebrecht para a campanha de 2014]. 
Quem está na vida pública tem o dever de prestar contas. Às vezes, há, num primeiro momento, sentimento de injustiça, e para isso existe o Judiciário, para corrigir. Não vou criticar, confio nele. Agora, não tem cabimento entrar com ação de improbidade. Fui prefeito aos 24 anos. Hoje tenho 66, um apartamento de dois quartos e um sítio de cinco alqueires em Pindamonhangaba. Mais nada. Abri mão da aposentadoria especial. Vivo de R$ 5.000 do INSS [Instituto Nacional de Segurança Social]. Se há um cuidado que eu sempre tive é o ético. Agora, pode ter questionamento? Pode. É explicar.

O Paulo Vieira de Souza (conhecido como Paulo Preto) entra nesse contexto? 
Não conheço o Paulo Vieira de Souza. Ele entrou no final do meu governo na Dersa e não tinha atividade maior, era uma diretoria mínima. Quando voltei em 2011 ele já estava fora. Mas todos têm que prestar contas.

Após a derrota passou um tempo no sítio. 
Não descansei nem 24 horas, gosto de trabalhar. Voltei a duas paixões, a medicina e o magistério. Dou aula na Uninove, aliás, olha, ganhei dos alunos de medicina [sobe a barra da calça e mostra uma meia bordada]. Dou aulas em SP, Osasco, Guarulhos, São Bernardo, Mauá e Bauru, e na Unimes, em Santos.

E o programa na TV com o Ronnie Von? 
Sou voluntário lá, de 14 em 14 dias, só falando de saúde. E às quintas, Hospital das Clínicas. Faço curso e atendo. Estou fazendo curso de acupuntura. [pega uma agulha]. É um espetáculo. Isso aqui é um ponto chamado IG 4 [insere a agulha na mão]. Cada vez que estimula aqui, pelo meridiano, age no cérebro. É impressionante.

E a política? 
Na política eu vou dar um pit-stop. Gosto muito de estudar. O futuro... É stop, mas é pit. Vamos deixar. O futuro a Deus pertence.

* Jornalista da Folha de São Paulo

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