AKP de Erdogan recupera maioria absoluta mas falha os dois terços

Pró-curdos do HDP perderam votos e deputados, mas tornaram-se na terceira maior força política do Parlamento graças à queda do MHP, de direita.

A Turquia voltou ontem a ser um país governado em maioria absoluta pelo AKP de Recep Tayyip Erdogan, agora presidente, mantendo uma tradição já com 13 anos e que tinha sido interrompida nas legislativas de junho. Esta vitória tem, no entanto, um sabor agridoce: não conseguiram conquistar os dois terços de lugares que permitiriam mudar a Constituição e reforçar os poderes do presidente, nem os três quintos necessários para convocar um referendo sobre uma revisão constitucional.

Com 97,26% dos votos contados, o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) conquistou 312 dos 550 deputados, o equivalente a 49,15% da preferência dos eleitores. A principal força da oposição continua a ser o laico Partido Republicano Popular (CHP), com 135 deputados. Enquanto que os pró-curdos do Partido Democrático Popular (HDP) tornaram-se no terceiro maior grupo parlamentar turco ao conquistar 60 lugares. A constituição do hemiciclo fica completa com o Partido de Ação Nacionalista (MHP), defensor de posições semelhantes ao AKP, com 43 assentos. A participação foi de 82,52%, um valor ligeiramente abaixo dos 83,92% registados em junho.

"Elhamdulillah (Graças a Deus)", escreveu no Twitter o primeiro-ministro e líder do AKP, Ahmet Davutoglu, depois de estar garantida a maioria absoluta do partido, impedindo assim o cenário saído das eleições de junho, que obrigou a meses de negociações falhadas para conseguir um governo de coligação. Pouco depois, o líder do governo saiu da sua casa em Konya, na Anatólia, e falou aos apoiantes. "Hoje é uma vitória para a nossa democracia e o nosso povo... Esperamos servir-vos bem nos próximos quatro anos e nos apresentarmos perante vós, mais uma vez, em 2019", declarou Davutoglu, referindo-se às próximas legislativas.

Nestes últimos meses, o AKP centrou o seu discurso na necessidade de defender a Turquia da "ameaça terrorista", colocando as forças jihadistas e curdas num plano similar. O objetivo, além de rcuperar a maioria absoluta, era excluir o HDP do diálogo político e impedir o seu regresso ao Parlamento.

"A Turquia não tem tempo a perder. Domingo é um ponto de rutura para o nosso país... Se o nosso povo der a oportunidade a um único partido então a estabilidade irá co ntinuar", disse, na q uinta-feira, Erdogan, que tem o desejo de transformar a Turquia num sistema presidencialista.

Um sonho que o AKP não vai conseguir realizar. Para fazer uma alteração constitucional direta precisava de ter conquistado 367 deputados, ou seja dois terços do Parlamento. Outro cenário teria sido obter 330 deputados, o equivalente a três quintos do hemiciclo, e convocar um referendo sobre sobre uma revisão constitucional.

Política sangrenta

As forças de segurança turcas usaram ontem gás lacrimogéneo contra um grupo de manifestantes em Diyarbakir, uma cidade de maioria curda no sudeste do país, que protestavam contra os resultados das eleições gerais antecipadas, relatou um jornalista da Reuters no local.

Dezenas de manifestantes, alguns atirando pedras, bloquearam uma rua perto do centro da cidade depois dos primeiros resultados mostrarem que o apoio ao HDP, o partido pró-curdo, rondava os 10%, o número mágico que permite a entrada no Parlamento turco. A segurança na zona sudeste do país foi reforçada durante todo o dia, chegando mesmo a haver veículos policiais blindados à porta de mesas de voto.

Comentando esta noite eleitoral, os líderes do HDP afirmaram o cenário que se apresentava era resultado de uma política deliberada de polarização levada a cabo nos últimos meses pelo presidente Erdogan. Figen Yuksekdag, um dos líderes, referiu ainda que o partido iria analisar a sua quebra no número de votos, em comparação com as eleições de junho, mas sublinhou que a obtenção dos 10% necessários para entrar no Parlamento já eram um sucesso.

"Apesar de termos perdido cerca de um milhão de votos, quero agradecer a todos os que ficaram ao nosso lado apesar desta política sangrenta [do governo]", declarou Selahattin Demirtass, o outro co-líder do HDP.

Quem não conseguiu esconder a sua desilusão, apesar de ter conquistado mais deputados, foi o CHP, o maior partido da oposição. Segundo o Hürriyet Daily News, Kemal Kiliçdarogglu, o líder da formação laica, cancelou a aparição pública que tinha marcada para a sede do partido, em Ancara. Em silêncio ficou também o MHP, este sim registando uma perda de deputados.

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