Ajudar refugiados já valeu multas a centenas de dinamarqueses

Pregadores que incitem ao ódio passarão a figurar numa lista negra. Dinamarca é o segundo país onde EI mais recruta

Lisbeth Zornig deu boleia até ao centro de Copenhaga a uma família síria que se dirigia a pé para a Suécia. Tendo em conta que na Dinamarca é proibido transportar ou dar refúgio a ilegais, a boa ação valeu-lhe uma multa de três mil euros e uma acusação por tráfico de pessoas. Até agora são já cerca de 300 os dinamarqueses que foram multados por ajudarem refugiados.

A história de Lisbeth e da família Rasheed, entre vários outros exemplos, é narrada no El País pela jornalista María R. Sahuquillo. "É uma lei injusta, que tanto se aplica a cidadãos solidários como a traficantes de seres humanos", queixa--se Lisbeth em declarações à enviada do diário espanhol.

A norma legal não é nova, mas começou a ser aplicada de forma muito mais zelosa a partir de setembro do ano passado e, tal como escreve Sahuquillo, "é apenas mais um exemplo do endurecimento da política dinamarquesa para a migração".

Foi em junho de 2015 que o país virou à direita com a eleição do conservador Lars Rasmussen para primeiro-ministro, cargo que já tinha ocupado entre 2009 e 2011. Desde então, no que aos refugiados diz respeito, várias medidas polémicas foram adotadas, nomeadamente a lei, aprovada em janeiro, que permite à polícia confiscar os bens que ultrapassem as 10 mil coroas (1340 euros).

Por outro lado, verificou-se também uma diminuição dos benefícios e aumentou-se, de um para três anos, o prazo de espera para os refugiados conseguirem a reunificação familiar e chamar para junto de si os familiares mais próximos. Tudo isto - somado aos anúncios que o governo fez publicar num jornal libanês tentando dissuadir os habitantes de um campo de refugiados de pedir asilo à Dinamarca - são, aos olhos de muitos cidadãos, ingredientes de uma estratégia pensada para tornar o país num destino menos apetitoso. "A Dinamarca já não quer ser um modelo. Agora o governo afirma que deve priorizar o interesse nacional e fazer do país um local mais seguro para os dinamarqueses", resume Michelle Pace, professora de ciências sociais na universidade de Roskilde, citada no artigo do El País.

Nesta semana ficou também a saber-se que a Dinamarca passará a punir os pregadores religiosos que apelem a atos criminosos e que incluirá numa lista negra aqueles que divulguem o ódio. Esta atitude surge depois da emissão de um documentário que mostrava imãs, em mesquitas dinamarquesas, a defender, por exemplo, o apedrejamento de mulheres adúlteras ou a punição corporal de crianças.

"Temos sociedades paralelas que, infelizmente, são muito prejudiciais, especialmente para os mais novos", afirmou o ministro da Igreja e dos Assuntos Religiosos, Bertel Haarder, chamando a atenção para o facto de, logo a seguir à Bélgica, a Dinamarca ser o país que viu mais jovens serem recrutados para o Estado Islâmico.

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