Abe e Obama defendem o poder da reconciliação em Pearl Harbor

Primeiro-ministro japonês realiza visita histórica a local onde se iniciou a II Guerra Mundial no Pacífico.

O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, apresentou esta terça-feira "sinceras e perpétuas condolências" pelos militares americanos mortos no ataque de 7 de dezembro de 1941 num dos momentos mais importantes da histórica visita ontem realizada a Pearl Harbor. Naquela que foi a primeira visita de um chefe do governo de Tóquio ao USS Arizona Memorial, Abe e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, colocaram primeiro duas coroas de flores junto da parede onde estão gravados os nomes dos 1177 tripulantes, num total de 1512, que perderam a vida quando aquele couraçado foi atingido por caças-bombardeiros japoneses, acabando por se incendiar e afundar-se.

Após a colocação das coroas de flores, ambos os governantes lançaram pétalas ao mar em torno do Memorial, seguindo-se um encontro com a imprensa em que Abe proferiu aquelas palavras, equiparando o seu sentimento ao do "presidente Obama, ao povo dos Estados Unidos e aos povos de todo o mundo".

Obama salientou que a visita de Abe ao local é exemplo claro de que as "feridas da guerra podem dar lugar à amizade" e à cooperação. Por seu turno, o governante de Tóquio afirmou que a aliança EUA-Japão aponta ao futuro e à esperança. Como antecipado, Abe não apresentou desculpas formais pelo ataque.

Foi a primeira vez que um primeiro-ministro nipónico se deslocou ao Memorial, inaugurado em maio de 1962 60 para honrar os mortos do USS Arizona.

A presença de Abe em Pearl Harbor sucede três semanas após a passagem do 75.º aniversário do ataque japonês que originou a entrada dos EUA na II Guerra Mundial. Por sua vez, em maio último, Obama deslocou-se a Hiroxima, tornando-se o primeiro presidente americano em exercício a visitar o local onde foi lançada uma das duas bombas atómicas que levaram o Japão a render-se em agosto de 1945.

Antes de visitar o USS Arizona Memorial, o primeiro-ministro Abe estivera noutros pontos do Havai, ilha habitada por uma comunidade multiétnica, com forte componente nipónica. Entre os locais visitados esteve um monumento à memória de nove adultos e jovens que perderam a vida, em 2001, quando um submarino dos EUA colidiu com o pesqueiro em que se encontravam.

Se Abe foi o primeiro governante japonês a visitar o Memorial às vítimas do ataque de 7 de dezembro de 1941 não foi o primeiro líder de um executivo nipónico a deslocar-se à ilha. Outros três o fizeram antes dele. Em setembro de 1951, o então primeiro-ministro Shigeru Yoshida, nas viagens para e dos EUA, onde se deslocou para assinar o tratado de paz entre os dois países, estivera em Pearl Harbor, encontrando-se, na segunda viagem, com o então comandante da frota americana do Pacífico, almirante Arthur Radford. Segundo recordou a BBC, citando as memórias do militar americano, o encontro com o chefe do governo de Tóquio decorreu, de início, de forma fria até que o cão do almirante se aproximou daquele, tendo o japonês afagado o animal. No final do encontro, com a duração de 20 minutos, os dois homens deixaram-se fotografar apertando as mãos e sorrindo abertamente.

Durante esta visita, a 12 de setembro, o primeiro-ministro nipónico participou numa receção com militares americanos e responsáveis políticos do Havai, tendo aqui proferido uma intervenção, admitindo "de forma franca a responsabilidade do Japão na guerra e comprometendo-se a reparar os terríveis danos" causados durante o conflito, escrevia dois dias depois um jornal havaino, citado pelo The Japan Times na passada segunda-feira.

Em outubro de 1956, foi a vez de Ichiro Hatoyama visitar o local do ataque, tendo recebido honras militares, recordava a agência Kyodo quando foi confirmada a deslocação de Abe. E, no ano seguinte, a 28 de junho, Nobusuke Kishi, avô do atual chefe do governo nipónico, esteve também no porto e visitou ainda o cemitério de Punchbowl, em Honolulu, onde estão sepultados militares americanos caídos no teatro de operações do Pacífico. Cemitério que o primeiro-ministro Abe também visitou durante o dia de hoje.

Em 1957, segundo um jornal local, Hawaii Star, o avô de Abe colocou uma coroa de flores junto do poste com a bandeira dos EUA. Ainda segundo o mesmo jornal, citado pela agência Kyodo, as duas visitas tiveram caráter oficial, tendo sido tocados os hinos de ambos os países e com direito a guarda de honra.

Quanto a visitas de dirigentes dos EUA a Hiroxima, anteriormente a Obama, em maio de 1984, o antigo presidente Jimmy Carter estivera em Hiroxima, mas deixara a Casa Branca há quatro anos. Em abril de 1964, Richard Nixon, quatro anos antes de ser eleito presidente, visitara o mesmo Memorial, tendo ali "colocado uma coroa de flores e permanecido em silêncio diante o monumento durante dois minutos", escrevia então a agência americana UPI, num despacho recuperado pela revista The Atlantic, em maio último, a propósito da visita de Obama.

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