A peculiar Islândia voltou a fazer cair um primeiro-ministro

Durante a crise foi o primeiro país a julgar um político por negligência. E há seis anos um dos seus vulcões parou a Europa

A pequena ilha da Islândia, com pouco mais de 300 mil habitantes, deixou há muito de ser apenas a terra natal de Björk e dos Sigur Rós, a inspiração de livros como A Desumanização de Valter Hugo Mãe ou o país do vulcão Eyjafjallajökull, cuja erupção em 2010 parou o tráfego aéreo da Europa. A crise financeira de 2008 tornou-se um case study mundial e levou à demissão de um primeiro-ministro. Esta semana, o escândalo dos Papéis do Panamá voltou a fazer cair o chefe do governo, pressionado pela oposição e pela opinião pública.

"Sinto-me como se estivesse a ver um episódio do House of Cards", declarou esta quarta-feira à Reuters Erla Gisladottir, uma islandesa de 32 anos. O primeiro-ministro islandês, Sigmundur Gunnlaugsson, decidiu abandonar o cargo esta terça-feira depois de os Papéis do Panamá confirmarem que criou uma empresa offshore, a Wintris, com a mulher, em 2007, passando-lhe a sua parte das ações (50%) por apenas um dólar em 2009.

O secretismo por detrás da empresa não é, contudo, o único problema. É que a Wintris tinha investimentos nos três bancos islandeses que colapsaram na crise financeira de 2008, sendo um dos credores que exigem agora milhões de dólares no processo de falência. O governo de Gunnlaugsson, primeiro-ministro desde 2013, chegou a acordo com os credores no ano passado, num negócio que os críticos consideraram "generoso". No Facebook, Gunnlaugsson ainda se queixou: "A minha mulher tem dinheiro. Algumas pessoas acham isso negativo. Não me vou separar da minha mulher nem exigir que ela se desfaça da herança da sua família".

Como em crises anteriores, quem está a lucrar é o Partido Pirata, uma força antissistema, que numa sondagem revelada quarta-feira passou a ser o favorito dos islandeses em caso de eleições, que deverão realizar-se no outono, arrecadando 43% das preferências. Nas semanas anteriores não ia além de um resultado entre os 25 e os 35%.

Neste estudo de opinião feito pela Gallup e publicado pelo jornal Frettabladid e a estação Channel 2, a força minoritária da coligação governamental, o Partido da Independência, surge em segundo (21,6%), seguido do Movimento Verde de Esquerda (11,2%). O Partido Progressita, do agora ex-primeiro-ministro Sigmundur Gunnlaugsson mas que já anunciou que continuará a governar, não vai além dos 7,9%, atrás dos Sociais-Democratas (10,2%).

Grande manifestação

A 12 de março de 2015, a Islândia anunciou que tinha retirado a sua candidatura de adesão à União Europeia, dois anos depois de o governo de Gunnlaugsson ter chegado ao poder prometendo um ponto final no processo iniciado em 2009.

Esta decisão levou à realização, a 15 de março de 2015, da maior manifestação vista em Reiquejavique desde a crise financeira de 2008, com os islandeses a protestarem contra a forma como o Executivo tinha abandonado as negociações de adesão à UE.

Embaixador nos EUA

A reação da Islândia à crise financeira de 2008 é já considerada um case study mundial. Há oito anos, a ilha impôs o controlo de capitais depois da crise financeira provocada pelo colapso dos seus três maiores bancos, que tiveram de ser nacionalizados. A coroa islandesa desvalorizou 85% face ao euro e o país entrou em falência.

No caso do banco Icesave, o presidente da Islândia, Ólafur Grimsson, vetou o acordo de indemnização ao Reino Unido e à Holanda quanto às perdas da sucursal online do banco islandês e, em referendo, a população apoiou a sua decisão. "Entre a democracia e os interesses financeiros temos de escolher a democracia", disse o chefe de Estado da Islândia numa entrevista dada em 2010 ao Jornal de Negócios. Grimsson é um caso à parte da cena política islandesa - foi eleito pela primeira vez presidente em 1996 e ainda ocupa o cargo, tendo anunciado que se retirará no final do seu quinto mandato, a 1 de agosto.

Na altura, os islandeses recusaram-se a pagar a fatura dos bancos, saíram dos mercados, a riqueza do país caiu 10% em dois anos, o desemprego atingiu um valor recorde de 11,9%.

Outra consequência desta crise financeira foi a queda do governo e o primeiro-ministro a ser levado a julgamento por negligência na gestão do colapso do país - a primeira vez que um líder mundial se sentou no banco dos réus por causa da crise. Em 2012, um tribunal especial considerou Geir Haarde culpado de negligência. Esta sentença não implicou, porém, qualquer pena e as custas foram pagas pelo Estado.

Haarde declarou-se sempre inocente e classificou as acusações que pendiam sobre si como uma "vendetta política". "Ninguém previa que iria haver um colapso financeiro na Islândia", disse o antigo governante durante o julgamento. Em fevereiro do ano passado, assumiu o cargo de embaixador da Islândia nos EUA.

A 20 de outubro de 2012, o mundo assistiu a mais uma "islandice". Nesse domingo, os islandeses votaram num referendo sobre a elaboração da nova Constituição do país, considerada a primeira do mundo a poder ser redigida pelos próprios cidadãos. O resultado saldou-se em 67% dos islandeses a votarem a favor da nova Lei fundamental, feita por um painel de cidadãos. No entanto, este projeto ainda não foi até hoje promulgado pelo Parlamento.

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