"A margem de Trump para não fazer a cimeira com Kim estreitou"

Diretor adjunto do Anuário Janus, Luís Tomé coordena o doutoramento em Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Lisboa. Especialista em Ásia-Pacífico, falou ao DN sobre a cimeira entre Kim Jong-un e Moon Jae-in. E garante que o futuro da península coreana vai ser debatido a quatro: as duas Coreias, os EUA e a China. Rússia e Japão ficam de fora.

A cimeira entre Kim Jong-un e Moon Jae-in foi o início de uma nova era ou apenas fogo-de-vista?

Esta cimeira faz parte de uma escalada de paz que vivemos desde o início do ano. 2017 foi particularmente conflituoso, numa escalada belicista. Foi o ano em que a Coreia do Norte realizou mais lançamentos de mísseis. Tivemos o presidente dos EUA a chamar "Rocket Man" ao líder da Coreia do Norte e este a chamar-lhe "presidente maléfico". E de repente, a partir de uma pequena passagem no discurso de final do ano de Kim Jong-un, a Coreia do Sul aproveitou, também em contexto de Jogos Olímpicos de Inverno, e temos assistido a uma progressiva, e surpreendente, escalada de paz. Esta cimeira entre dois presidentes confirma isso, porque não foi apenas a questão simbólica do encontro - e pela primeira vez o presidente da Coreia do Norte ter pisado a parte sul da zona desmilitarizada - mas temos uma agenda muito ampla. A questão humanitária com a possibilidade de reunificação de famílias, mas também a vontade de celebrar um verdadeiro tratado de paz ainda este ano. Um novo encontro entre os presidente ainda este ano, com Moon a ir à Coreia do Norte no outono. A questão do nuclear, com a passagem sobre a desnuclearização da península, que é um pouco ambígua e sujeita a várias interpretações. A criação de caminhos-de-ferro e de estradas para conectar as duas partes da península, umas zonas de paz, inclusivamente no Mar Amarelo. A agenda do que foi acordado num dia de encontros parece bastante promissora e insere-se no tal contexto de escalada da paz que terá um novo episódio fundamental na agora ainda mais provável cimeira entre Trump e Kim. Mas para quem acompanha isto há anos, é um déjà vu. Em 1991 quando as duas Coreias entram em conjunto na ONU havia inclusivamente expectativas de rapidamente haver a reunificação. E o que aconteceu a seguir foi uma deterioração das coisas e uma nova crise. Depois as coisas parecem de novo melhorar antes de outra situação de crise que tem um episódio fundamental em 2003 quando a Coreia do Norte sai do Tratado de Não Proliferação Nuclear. É o único país que abandona o tratado unilateralmente e em 2006 faz o primeiro de seis testes nucleares. Mas pelo meio houve episódios de desanuviamento. A constituição das conversações a seis e os acordos estabelecidos em 2007. Em 2000 houve a primeira visita do presidente sul-coreano a Pyongyang, em 2007 tivemos uma segunda visita. Mas depois tivemos de novo uma deterioração das coisas que se agrava com a substituição de Kim Jong-il por este Kim Jong-un.

Teme que depois do atual pico de paz haja nova deterioração?

Algum deste historial parece mostrar que a estratégia da Coreia do Norte é muito coerente, no sentido de atingir o objetivo de possuir mísseis capazes de alcançar, com ogivas nucleares, o território continental americano, para uma dissuasão máxima. E portanto tudo o que vai fazendo, inclusive alguns acordos, é no sentido de ganhar tempo e desanuviar um pouco a pressão internacional mas persistindo na linha desse objetivo.

Acredita numa desnuclearização da península que passe pela entrega das armas norte-coreanas?

Tenho muitas dúvidas, porque se trataria da primeira vez que um país com armas nucleares - e a Coreia do Norte terá dez a 20 - deixa de ter. Trata-se de um país que não tem nenhum outro argumento para estar sentado à mesa de negociações e ter reconhecimento internacional. Portanto, como é que nestas condições a Coreia do Norte, que tem sempre usado a chantagem dos mísseis e do nuclear para obter energia, alimentos, medicamentos, e acertar contas no estrangeiro, vai abdicar deste instrumento? Ainda por cima um símbolo de potência como é o armamento nuclear. Todos os acordos assinados neste sentido foram violados pela Coreia do Norte. É provável que volte a acontecer. No entanto também é verdade que Kim Jong-un, nesta fase, parece ter - e estamos a falar num regime muito opaco em que há muitas coisas que não conseguimos saber - o controlo total do aparelho estatal, militar e partidário da Coreia do Norte. Por isso se verdadeiramente estiver empenhado em promover boas relações com a Coreia do Sul e em estabelecer um regime de negociação diplomática e política com os EUA, mas também com a China, terá condições para impor a sua visão. Mas, como dizem a maior parte dos analistas e líderes mundiais, é preciso esperar para ver se esta é uma postura de paz mostrando uma face de Kim que desconhecíamos ou se faz parte de uma estratégia para ganhar tempo.

Pelo meio haverá o encontro com Trump. O que esperar de dois líderes imprevisíveis?

Essa é a questão: a imprevisibilidade de um lado e do outro. Habituámo-nos a lidar com estadistas previsíveis, mas com Kim Jong- un, até pelo volte-face de 2017 para 2018, e Trump, que muda em virtude dos tweets que vai lançando, tudo pode acontecer. A margem de Trump para não fazer a cimeira estreitou. Havia dúvidas que ele acabasse mesmo por fazer a cimeira, mas nesta altura já não tem verdadeiramente margem para recuar. Temos é narrativas completamente contraditórias. Porque os dois reclamam vitória. Nos media norte-coreanos, totalmente manipulados, a cimeira com Moon é apresentada como a vitória do querido líder Kim Jong-un, que atingiu um patamar de força que obrigou os outros a cederem àquilo que ele pretende. Já Trump continua a afirmar que a solução para o problema está nas suas mãos e que a forma como pressionou até ao limite a Coreia do Norte foi a razão para o volte face de Kim. Podemos ter aqui, não digo um mal-entendido, mas expressões e posturas que podem levar a uma reação contraproducente da outra parte e a cimeira poderá não ter os frutos que poderíamos esperar. Mas o que era o grande receio, que era a cimeira realizar-se sem Trump tirar nada dali aumentando a pressão para a utilização da força para resolver o problema, neste momento parece pouco prováve. Nem que seja para reafirmar o que já foi projetado da cimeira com a Coreia do Sul, terá algum resultado. Para além da importância histórica de um encontro entre os presidentes de dois países que nem têm relações diplomáticas.

A cimeira Kim-Xi Jinping foi decisiva para o que está a acontecer agora?

Acho que não foi verdadeiramente decisiva. Decisivo foi o papel dos dois presidentes coreanos. É aliás importante porque são as duas Coreias, pela mão dos seus presidentes, que estão a liderar este processo de desanuviamento e perspetiva de paz. Os atores externos parecem um pouco secundarizados. A China é um parceiro importante, mas já não tem a influência que teve em Pyongyang. As relações foram bastante tensas nos últimos tempos. O homem que a China pretendia para herdeiro foi o meio-irmão assassinado por Kim Jong-un na Malásia. O grande homem do regime, formado na China, e que durante muitos anos alimentou as relações entre os dois lados, o tio de Kim Jong-un, também foi mandado matar pelo sobrinho. E a China deu um puxão de orelhas à Coreia do Norte aprovando sanções bastante pesadas no ano passado. Porque a Coreia do Norte se tornou um problema para a China. Porque gera instabilidade, o que a China não quer numa região sensível. E porque deu pretexto aos EUA para promoverem um sistema anti-mísseis balísticos que, a pretexto da ameaça norte-coreana, visa como grande rival a China. Por isso Pequim tem todo o interesse em arranjar uma solução política para evitar uma escalada e em manter uma palavra a dizer no processo e não ficar posta de parte. Da cimeira de sexta-feira há um aspeto que merece ser sublinhado: havia até há pouco a tentativa de manter vivo um processo de conversações a seis. E agora o que se percebeu é que as negociações vão seguir não apenas entre as duas Coreias mas com mais dois. Conversações a quatro: com China e EUA. O que significa retirar do processo Rússia e Japão. A Rússia fez um grande esforço para ser interlocutor e o Japão apesar de tudo também se vê excluído, mesmo sendo dos que mais têm vociferado contra a Coreia do Norte. Claramente temos as duas Coreias, a China e os EUA como únicos envolvidos neste processo.

Neste momento uma reunificação das Coreias é mais um sonho ou uma realidade?

1991 era um contexto mais favorável à reunificação. Não só pelo precedente da reunificação alemã, como pelo claro desanuviamento internacional, com quase todos a convergir para o mesmo lado - a URSS em desmoronamento e a aceitar a liderança clara dos EUA, como única superpotência hegemónica. Hoje o contexto é muito mais difícil. O problema da Coreia começou por ser a posição geográfica, na confluência de três potências rivais. Rússia, China e Japão. Nos últimos 70 anos ainda há a presença estratégica dos EUA na região a ter em conta. Ora fazer uma reunificação a contento destes quatro é tremendamente difícil. Porque a China não irá apoiar uma reunificação favorável aos EUA ou ao Japão. O Japão não quererá fazer uma reunificação favorável à China. Por outro lado todos sabemos que a China prefere manter a Coreia do Norte enquanto Estado com este regime particular porque é uma forma muito mais fácil de bloquear a influência americana do que arriscar uma reunificação coreana que, a curto ou médio prazo, possa levar toda a península a tornar-se num instrumento da política dos EUA. E temos ainda o agravamento do diferencial entre as duas Coreias. Hoje a diferença em termos de prosperidade, de conhecimento e de interações com o mundo, de inserção na economia e comércio mundial, nas redes sociais, é muitíssimo mais acentuada do que em 1991. E é muito maior do que era entre as duas Alemanhas. O ideal da reunificação permanece vivo nos dirigentes e nas populações dos dois lados mas nunca poderia ser tão súbita como a reunificação alemã porque os riscos seriam maiores. Se, de facto, for lançado o processo de reunificação, mesmo para concluir no longo praz, já nos podemos dar por satisfeitos, porque pelo menos retira a carga negativa, belicista e competitiva que temos tido na península nas últimas décadas.

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