"A Fulbright é instrumento de política externa americana mas também portuguesa"

Entrevista a Otília Macedo Reis, diretora executiva da Comissão Fulbright em Portugal, Laura Pires, organizadora de volume comemorativo, e Lénia Lopes, da associação de antigos alunos. Falam do internacionalismo de William Fulbright e da troca de experiências entre americanos e portugueses. Ao todo foram já 2500 as bolsas atribuídas. No dia 28, na embaixada americana em Lisboa, será o lançamento oficial do livro, a 10 de abril haverá outra sessão nas instalações da Comissão Fulbright.

Professora Laura Pires, ao organizar este volume comemorativo está também a querer dar um testemunho de que este programa Fulbright é essencial nas relações Portugal-EUA nos últimos 60 anos?

Laura Pires: Absolutamente. A nossa ideia ao pensar no volume foi justamente contribuir para tornar o programa mais conhecido e dar desse modo continuidade ao pensamento do fundador, que achava que se atingia a paz global pela educação. Essa é uma ideia que atualmente é muito necessária e pensámos que talvez o volume pudesse contribuir.

Fale-me desse fundador, William Fulbright, um senador do Arkansas, estado sulista de que até Bill Clinton ser eleito presidente quase ninguém na Europa ouvira falar. Como é que um homem destes se tornou tão internacionalista a ponto de criar este programa educativo?

L.P: Como considerava vantajoso conhecer outros países e internacionalizar a sua cultura veio estudar para Oxford como bolseiro. Fez depois uma viagem por toda a Europa e surgiu-lhe a ideia de que conhecer pessoas, países e culturas diferentes o enriquecia, e sobretudo achou que aquilo que pudesse contribuir para aumentar o nível educativo de outros países é que interessava, e não exercer poder ou abusar do poder militar. William Fulbright achava isso negativo. Era, por exemplo, totalmente contra a guerra no Vietname porque achava que os EUA deviam marcar a sua posição no mundo pelo nível de educação dos cidadãos, pela generosidade para com outros países com nível económico mais baixo, portanto, dando e contribuindo para elevar o nível cultural, que no fundo é uma das missões da comissão Fulbright.

No fundo a Fulbright é uma espécie de soft power dos EUA, mas ao mesmo tempo para um país como Portugal significa grandes oportunidades de académicos portugueses poderem estudar em universidades de excelência e também de estudantes portugueses poderem aprender com professores americanos que vêm cá, certo?

Otília Macedo Reis: São as duas vertentes. A Fulbright é um instrumento de política externa americana mas também portuguesa, porque o que se pretende é que haja um contacto entre os dois países a nível educacional, cultural, científico e que seja vantajoso para ambas as partes. A comissão Fulbright o que faz é encontrar formas de aumentar as oportunidades de intercâmbio entre Portugal e os EUA. Temos basicamente três funções na nossa missão: a primeira é facultar estas oportunidades de intercâmbio educacional, a segunda é facultar informação sobre os sistemas de ensino nos dois países e a terceira organizar eventos e conferências que potenciem a partilha de conhecimento entre Portugal e os EUA. O que se pretende é que o programa seja essa ferramenta para aumentar um contacto entre os portugueses e os americanos que, através do trabalho que desenvolvem em conjunto, contacto direto e pessoal, consigam diminuir o gap entre um país e outro.

Estamos a falar de números elevados ou é quase um nicho de qualidade?

O.M.R: O programa nunca comporta números muito elevados, é quase um programa-boutique dos programas de intercâmbio. Desde 1960, altura em que foi constituída a comissão aqui, a Fulbright já atribuiu cerca de 2500 bolsas a portugueses e a americanos e tem estado a fazer um percurso nos últimos anos, com um compromisso maior dos dois governos, para aumentar o número de bolsas e orçamento disponível. Acabámos 2018 com 70 bolsas atribuídas e ultrapassámos um milhão de dólares de financiamento.

70 bolsas nos dois sentidos?

O.M.R: Sim. Cobrimos basicamente desde os programas de curta duração de verão até ao doutoramento de um português que vai para os EUA. Damos oportunidades muito diversificadas, preocupamo-nos bastante com a diversidade na colocação dos bolseiros americanos em diversas cidades portuguesas e não apenas em Lisboa e Porto.

No seu caso, de antiga bolseira, como é que descobriu este programa e como é que aderiu a ele?

Lénia Lopes: Por mero acaso. Na altura estava na faculdade a acabar de me licenciar e tive contactos através da Ordem dos Advogados, porque instituí na Ordem um serviço a convite do bastonário da altura, e a propósito de algumas atividades. A embaixada americana esteve presente e alguém me falou neste programa. Dirigi-me à comissão, inscrevi-me, fui selecionada e acabei por fazer um programa mais curto mas que deu uma abertura de pensamento, de espírito, que foi fundamental porque estamos a reportar-nos ao ano de 1978, que foi quando eu fiz. Ainda estávamos numa situação política fragilizada e tudo isso foi uma descoberta extraordinária. Considero que, tal como dito, este intercâmbio cultural é não só cultural, mas de liberdade e abertura de espírito.

O que é que a marcou na experiência?

L.L: Fundamentalmente esta grande amplitude de discussão de temas, a liberdade de discussão de temas, as pessoas não estarem fechadas no seu próprio pensamento, poderem dizer aquilo que entendiam...

Foi onde?

L.L.: Na Áustria. Porque também havia um programa-seminário na Áustria com professores internacionais, americanos mas não só, e que deu exatamente essa possibilidade de uma discussão ampla e livre, que na altura era importantíssimo. Hoje já não valorizamos tanto esse espírito de liberdade porque já estamos numa sociedade, felizmente, livre.

Professora Laura Pires, essa liberdade de discussão que é muito americana também pode ser também suspeita de ser muito para marcar certos valores americanos. Isso está subjacente a essa filosofia, abertamente. A América quer promover uma série de valores liberais americanos, e não esconde que faz isso no Fulbright...

L.P: De forma nenhuma. Se ler os relatos nesta coletânea que vamos publicar, o aspeto mais nítido é justamente o ficar encantado com o contacto com a cultura americana, e espero que os relatos, de algum modo, venham a contribuir para acabar com dogmas e ideias preconceituosas que pode haver sobre a cultura dos EUA. O que mais marcou os autores dos relatos foi esse espírito diferente, foi também a forma como funcionam as universidades americanas, que têm um espírito de abertura e de aceitação ao que é diferente, e até mais do que aceitação, interesse pelo que é diferente, e isso é uma forma de aprendizagem.

Lembra-se da sua primeira experiência como Fulbright?

L.P: Marcou-me intensamente, não só do ponto de vista de carreira académica, que foi fundamental. Fiquei em Georgetown, onde há uma das melhores bibliotecas e o contraste com a dificuldade que era obter livros nas bibliotecas em Portugal na altura e ir à biblioteca dizer o que estava a investigar e no dia seguinte ter livros que tinham sido escolhidos pelo bibliotecário sobre o que estava a estudar para mim foi uma abertura de mundo. Muitos dos relatos dos livros referem esse aspeto, a facilidade com que se investiga, que é uma aprendizagem única e que se fica a dever ao programa. É um abrir de portas, de espírito, é um alargar das fronteiras culturais e é dar continuidade à herança do pensamento do fundador, que teve uma visão de que o mundo melhorava através da educação. E afinal é isso que a comissão Fulbright cá em Portugal e em todo o mundo procura fazer e com excelentes resultados.

Da experiência que conhece de outros alunos essa visão é partilhada em geral?

L.L: Sem dúvida. Indiquei depois muitas pessoas para concorrerem ao programa e todos os que concorreram e que tiveram bolsas têm a mesma opinião, vieram todos encantados. O meu filho tinha 5 anos nessa altura, quando eu fui, e hoje não é um Fulbright mas fez Harvard, e fez Harvard 20 e tal anos depois.

Acha que essa experiência americana do seu filho tem que ver com a experiência prévia da mãe no Fulbright?

L.L: Há influência e não há. Ele foi para Harvard pelo seu próprio caminho, mas desde pequeno que me ouviu dizer que é importantíssimo o contacto com outras culturas e povos, que a experiência com os EUA era fundamental pelo espírito de liberdade que pauta depois toda a nossa vida, e acho que ele concorda com isso, e não há dúvida de que todos aqueles que comigo privaram ficaram com esta ideia de que estamos aqui a transmitir esse espírito.

Fale-me da outra vertente, que é a dos académicos que vêm a Portugal, que são pessoas de grande nível. É uma grande vantagem para as universidades portuguesas?

O.M.R: Sem dúvida. Temos vários programas que permitem a vinda não só de professores mas também de estudantes e investigadores e alguns acabam por ficar um ano letivo inteiro em Portugal.

Nem sempre têm de dar aulas?

O.M.R: Podem vir fazer só investigação ou as duas coisas. Temos um programa muito interessante, que é de assistentes de língua inglesa que colocamos nas instituições de ensino superior portuguesas, que ficam durante um ano letivo para auxiliar no ensino do inglês e acabam por ter um papel importante na difusão da cultura americana naquelas escolas, muitas vezes em comunidades pequenas em que não há um americano em permanência. Temos neste momento um assistente em Felgueiras, no politécnico. É uma pessoa que só pelo facto de estar já tem um impacto grande. A importância para as instituições afere-se pelo facto de as próprias instituições se candidatarem para receber professores americanos e ao abrigo desse programa fomos capazes de instituir os Fulbright Awards em várias áreas de estudo, que permitem desenvolver essa área de estudos numa determinada instituição, até fora de Lisboa e Porto. Temos Fulbright Awards nos Açores, no Minho, no Algarve e que permitem a vinda com estabilidade durante três ou mais anos de professores americanos...

Quem paga o salário do professor?

O.M.R: Normalmente há uma partilha de custos. As instituições participam no valor da bolsa como no alojamento e nas condições logísticas da estada. Aquilo que aparentemente até poderia parecer difícil de conseguir, na realidade não é porque as instituições veem vantagem de ter em permanência um professor/investigador americano. Depois temos um programa muito interessante, dos Fulbright Specialists, que permite curtas estadas para resolver problemas pontuais, colaborar em projetos específicos, que são identificados quer pelas universidades que os convidam quer pela própria comissão, que nos últimos anos tem determinado que há áreas prioritárias em que vale a pena trazer especialistas.

Esteve cá uma especialista em fogos há dias...

O.M.R: Foi um dos casos. E antes disso tivemos uma especialista em migrações e refugiados. As áreas do mar, dos oceanos, da cibersegurança, da literacia digital são aquelas que a Fulbright identifica como prioritárias, em que faz sentido fomentar o intercâmbio.

Os professores americanos que vêm dar aulas escolhem Portugal porque vêm fazer investigação, mas depois criam laços com o país?

O.M.R: Sem dúvida. Laços não só profissionais, porque muitos deles acabam por voltar, levam estudantes de visita aos EUA, acabam por servir como orientadores de tese, etc., há uma relação que permanece no tempo. Alguns deles estão a fazer investigação ou a dar aulas em áreas de estudo que se prendem com a realidade portuguesa, mas outros não porque a qualidade da investigação e do ensino superior em Portugal está a um nível muito elevado, pelo que estamos a ver cada vez mais professores a vir para Portugal em áreas não tradicionais. Até jovens investigadores a fazer investigação nos EUA a colaborar com instituições daqui que os recebem. A investigação e o ensino em Portugal estão ao mesmo nível de muitas instituições nos EUA. Há uma diversificação das áreas de estudo nas quais recebemos americanos.

Por ser colega de americanos cá, certamente já contactou com alguns em que é a primeira vez que vêm a Portugal. O que é que descobrem de Portugal? Ficam surpreendidos com o país?

L.P: Como todos nós quando nos deslocamos para outras universidades, no início há um choque cultural. Quando chegamos aos EUA ficamos encantados com os aspetos positivos, mas também nos deparamos com aspetos negativos. Os americanos quando chegam vêm já com ideias feitas que gradualmente vão modificando. Da minha experiência, no fim do tempo estão encantados com Portugal, com a cultura e com os portugueses e vão ter no futuro nas suas diferentes universidades a função de diplomata, porque vão de certeza atrair novos visitantes.

Os que ficam algum tempo fazem o esforço para aprender o português?

L.P: Não tanto porque o inglês é uma língua mundial e não há praticamente ninguém na universidade que não possa dialogar com eles. Dão aulas em inglês. Aliás, atualmente nas universidades em Portugal temos de fazer os programas em inglês e em português e se houver um grande número de estudantes internacionais na turma que vamos ensinar somos forçados a dar aulas em inglês. Não sentem essa necessidade.

No seu caso, como coordenadora do programa, acha que eles aprendem português?

O.M.R: Depende do programa e do que vêm cá fazer. Obviamente que não têm de falar português e até anunciamos isso como uma vantagem, porque quando estão a candidatar-se para virem para Portugal, se exigíssemos um nível de proficiência alto, isso seria um obstáculo. O Fulbright é um programa cultural para além da parte científica e académica, portanto queremos que tenham uma experiência cultural rica. Em programas como o dos assistentes de língua inglesa, uma das obrigações das instituições que os recebem é proporcionar-lhes aulas de português, contacto com atividades culturais locais para lhes permitir essa vertente de contacto cultural. Tivemos inclusive assistentes que ficaram cá a fazer mestrado... há uma imersão mais profunda na cultura portuguesa. É um programa verdadeiramente bilateral.

Há algum lóbi dos alunos Fulbright? Ajudam-se uns aos outros? Fazem lóbi uns pelos outros ou estão só a partilhar uma experiência?

L.L: Do que tenho conhecimento é só partilhar uma experiência.

Existe uma associação de alunos. É uma associação com peso?

L.L: É obrigatório. Quem foi Fulbright automaticamente passa a pertencer à associação.

Apesar destes números de 2500 bolsas ao fim de quase seis décadas, acha que este programa pode crescer mais ou há outros programas a competir?

L.P: Há outros programas, mas nós as três aqui estamos envolvidas com o Fulbright. Fui bolseira da FLAD também, mas aí não é um programa, é diferente por isso não posso comparar. Bolseira fui do programa Fulbright e acho que é muito importante o contacto com bolseiros visitantes porque nos ensinam a ter uma visão global do mundo, e entendo que nos nossos dias é fundamental haver uma visão global e corrigir ideias erradas sobre a cultura americana que podem estar ligadas a um aspeto de ânsia por poderio militar, mas que não são a verdadeira marca cultural americana, são algo temporário ou inerente ao pensamento de determinadas pessoas.

A América tem as melhores universidades do mundo, e mesmo as que a Fulbright apoia fora dos EUA também são de excelência?

L.P: Sim, é verdade. Isso é muito importante e é uma forma, tal como tentamos fazer esta coletânea, tornar todos os universitários conscientes da importância do intercâmbio universitário. Todos ganhamos quando vamos visitar uma universidade diferente. Aqui há relatos de alguém que esteve na Grécia, no Egito e, embora fossem países e universidades diferentes, foi uma experiência enriquecedora, e acho que o Fulbright tem um papel fundamental nessa divulgação.

Muita gente pensa que os EUA muitas vezes querem caçar cérebros. No programa Fulbright há uma obrigação de voltar a Portugal. O estudante não pode ficar nos EUA, tem de voltar...

L.P: Tem de voltar. Não é uma ponte para emigração, não é esse o objetivo e não é permitido. Deve voltar enriquecido e deve contribuir para aumentar e modificar a cultura do seu próprio país com o conhecimento que adquiriu.

O programa Fulbright depende de quem governa nos EUA? Tem uma constante ao longo dos anos ou pode haver presidentes e congressos menos ou mais generosos?

O.M.R: O programa é apolítico, embora obviamente o orçamento atribuído nos EUA dependa das aprovações do congresso, mas tem havido várias flutuações, no maior ou menor apoio ao programa, que em nada têm que ver com o facto de o país estar a ser governado por democratas ou republicanos. O senador Fulbright era democrata mas conseguiu reunir consenso em torno do programa independentemente de quem estivesse na presidência. As flutuações não estão diretamente ligadas a quem está na administração, são mais relacionadas com prioridades de política externa. O programa ainda hoje desempenha um papel importante no auxílio a países que estão a sair de crises políticas ou conflitos militares e tem havido flutuação de orçamento dirigido a diferentes partes do globo.

Essa flutuação não depende de quem governa mas de como é que a América está a olhar para o mundo naquele momento?

O.M.R: Obviamente. E de como Portugal está a olhar para a América. Obviamente somos parceiros a todos os níveis, o que também se reflete nas alturas em que a nossa relação é boa com os EUA, à importância que é dada ao intercâmbio internacional. Em 2015 foi assinado um novo acordo diplomático entre Portugal e EUA para reforçar o papel do Fulbright na relação entre os dois países. E de lá para cá tem sido possível envolver entidades como a Faculdade de Ciência e Tecnologia, o Instituto Camões, que canalizam aquilo que disponibilizam para o apoio ao intercâmbio para a atividade do programa Fulbright. É um programa que depende muito dos interlocutores mas que se tem mantido relevante ao longo de todas estas décadas, independentemente de quem está à frente de cada país.

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