A ex-campeã de kitesurf que dá voz aos presos políticos venezuelanos

Lilian Tintori é casada com Leopoldo López, condenado por incitação à violência nos protestos contra o presidente Nicolás Maduro

Na página de Instagram, Lilian Tintori surge numa fotografia de 14 de outubro ao lado do Papa Francisco, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Um dia depois, outra foto mostra-a em Paris a ser recebida pelo primeiro-ministro francês, Manuel Valls. Passada uma semana já estava em Washington, a posar com o secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro. Pelo meio, no último domingo, houve tempo para uma visita à prisão Ramo Verde, nos arredores de Caracas, onde desde 18 de fevereiro de 2014 está detido o marido, o líder opositor venezuelano, Leopoldo López, por cuja libertação apela em cada viagem que faz e junto de cada líder mundial que encontra.

Antes da detenção do líder do partido Vontade Popular, os venezuelanos conheciam Lilian como a antiga campeã nacional de kitesurf que tinha estado num reality show de sobrevivência e que depois trabalhara como animadora de rádio e apresentadora de programas de desporto na televisão. Foi numa discoteca que a jovem conheceu Leopoldo López, economista que já ia lançado na carreira política, como presidente da Câmara de Chacao. Lilian já recordou em várias entrevistas o dia em que ele se ajoelhou com um anel e lhe disse: "Tenho duas perguntas. A primeira é se queres casar comigo. A segunda é se te queres casar com a Venezuela."

O casamento da primeira pergunta foi em maio de 2007. Entretanto, o casal, ela com 37 anos e ele com 44, já teve dois filhos: Manuela, de 6 anos, e Leopoldo Santiago (conhecido como Leosan), de 2. Mas o impacto daquela segunda pergunta talvez só tenha ficado claro no dia 18 de fevereiro de 2014, quando o marido se entregou às autoridades venezuelanas, depois de ter sido acusado de incitar à violência nos protestos contra o governo do presidente Nicolás Maduro. Leopoldo López foi condenado em setembro a mais de 13 anos de prisão.

Ontem, citado pelo 'El Mundo', o procurador Franklin Nieves, que acusou Leopoldo López, confessou que as provas que levaram à sua condenação foram fabricadas. "Quem me conhece sabe a angústia que passei, a dor que me causava continuar com esta farsa", disse Nieves, que já saiu da Venezuela.

A fama de Lilian

As imagens da despedida emotiva de Leopoldo e da mulher, depois de um último discurso numa praça em Caracas e antes de ser algemado pelos agentes de segurança, correram mundo. E catapultaram Lilian para a fama e para o papel de porta-voz dos 75 presos políticos venezuelanos que a oposição diz haver. Há até quem defenda que deve ser candidata às eleições parlamentares de 6 de dezembro, que o próprio Maduro - herdeiro político do presidente Chávez - considera serem "as mais difíceis para o chavismo" e a revolução bolivariana iniciada em 1999.

"O Leopoldo é o político. Eu sou uma ativista dos direitos humanos, venezuelana, mãe e vítima, muito próxima das outras vítimas do meu país que viram os maridos serem mortos e os irmãos detidos. Sou apenas mais uma a levantar a minha voz e a lutar pelos direitos dos venezuelanos", disse à revista The Atlantic, num artigo publicado em abril. Os presos políticos e a coligação de oposição Mesa de Unidade Democrática são finalistas do Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, atribuído pelo Parlamento Europeu. Os outros finalistas são o blogger saudita Raif Badawi, condenado a dez anos de prisão e a mil chicotadas por insultar o islão, e o opositor russo Boris Nemtsov, assassinado em fevereiro. O vencedor será conhecido nesta semana.

O medo por Leopoldo

"Leopoldo, o meu marido, está a ser tratado de forma desumana e torturado, tiram-lhe o que escreve, não tem privacidade nas comunicações", denunciou Lilian na sua última passagem por Nova Iorque. Há meses tinha estado em Washington para um encontro com o secretário de Estado John Kerry.

"Temo pela vida de Leopoldo, temo que o envenenem, que o matem porque já lhe apontaram armas e tentaram tirá-lo da cela. Hoje temo pela sua vida, pela dos meus filhos e pela minha", acrescentou, dizendo que responsabiliza "diretamente" Maduro e o líder da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, caso aconteça algo à família. Nas visitas à prisão militar de Ramo Verde, onde está o marido, diz que é revistada, maltratada e torturada para que desista de voltar à prisão.

Entre as viagens, os encontros e as entrevistas para manter viva a luta do marido, Lilian tem de educar os filhos. "Tenho de ser mãe e pai, educar os meus filhos ao mesmo tempo que trabalho para libertar o Leopoldo", explicou à The Atlantic, contando que Leosan aprendeu a andar em Ramo Verde. "Eles sabem que o papá está inocente. Sabem que não deveria estar preso e sabem a verdade. Todos os dias esperam que o papá chegue a casa. E eu digo-lhes todos os dias que esse dia vai chegar", afirmou.

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