"A Europa não é um supermercado", garante Macron

Presidente francês diz que países do Leste da Europa não podem aproveitar-se dos benefícios da união sem respeitar os seus valores e quer um "renascimento europeu"

Foi a primeira reunião de família. Com alguns ainda a conhecer os cantos à casa. E com outros a dar os primeiros passos na política. Ontem, no Eliseu, o take 2 do governo francês, liderado por Édouard Philippe, reuniu-se em Conselho de Ministros. Foi o primeiro encontro depois da tradicional remodelação pós-legislativas, anunciada na quarta-feira. "O segundo governo de Philippe está vocacionado para durar muito tempo", garante o presidente Emmanuel Macron, que seguiu depois para Bruxelas, para a sua estreia em conselhos europeus.

Em cima da mesa da primeira reunião governamental estiveram questões de segurança e terrorismo. Em França, o estado de emergência - decretado em novembro de 2015 após os ataques terroristas em Paris - estará em vigor pelo menos até novembro, para, segundo Macron, "permitir ao parlamento adotar as medidas indispensáveis para a proteção dos franceses".

Antes de o Conselho de Ministros teve lugar a cerimónia da tomada de posse dos ministros e secretários de Estado e foi feita a tradicional fotografia de família do novo governo. Macron e Phillipe, em vez de ficarem na fila da frente como é habitual, posaram para o retrato no meio da equipa. Em França vivem-se novos tempos na política. Metade dos ministros e secretários de Estado chegaram ao governo vindos da sociedade civil, sem levar na bagagem qualquer experiência política. No parlamento, o Partido Socialista e Os Republicanos, que há décadas dominam o cenário francês, ocupam juntos apenas 142 dos 577 lugares. O espaço que reclamam para si não chega a 25% da assembleia. Na legislatura anterior tinham uma maioria de 76,7%. Ao mesmo tempo, Macron ainda não chegou sequer aos entas. Tem 39 anos.

Porta fechada mas só no trinco

Também ontem, no dia da sua estreia entre os pares europeus, foi divulgada uma entrevista de Emmanuel Macron. Para mostrar o seu europeísmo, o presidente francês falou a oito publicações de latitudes distintas: The Guardian (Reino Unido), El País (Espanha), Süddeutsche Zeitung (Alemanha), Corriere della Serra (Itália), Gazeta Wyborcza (Polónia), Le Temps (Suíça), Le Soir (Bélgica) e Le Figaro (França). "A minha eleição, tal como a maioria conseguida nas legislativas, não supõe um travão [aos populismos], mas sim um início exigente. O início de um renascimento francês e espero que europeu também", sublinha Macron.

Na entrevista, Macron reafirma o desejo de impulsionar o projeto europeu e defende "uma política de defesa e de segurança comum", a par de uma "reforma do sistema de proteção das fronteiras, da política migratória e do direito de asilo". Sobre a Alemanha, o presidente francês quer "regressar à cooperação que havia antigamente entre François Mitterrand e Helmut Kohl".

Questionado sobre um eventual conflito entre a Europa de Leste e a Ocidental, nomeadamente na questão dos refugiados, o presidente francês garante que será intransigente e que não vai tolerar uma visão "cínica" da Europa, onde os países aproveitam os créditos sem respeitar os valores. "A Europa não é um supermercado, é um destino comum. Os países da Europa que não respeitem as regras devem acarretar com todas as consequências políticas." Ainda antes do Conselho Europeu, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, reagiu às declarações de Macron: "Pontapear os países da Europa central não é a melhor forma de expressar amizade."

Sobre o brexit, Macron também falou. "A porta para uma marcha atrás ainda está aberta?", questionaram os jornalistas. O presidente francês foi politicamente correto. Não escancarou a passagem, mas também não a trancou a sete chaves. Deixou-a apenas no trinco. "A porta está aberta até passarmos por ela. Não me cabe a mim dizer se está fechada. Mas a partir do momento em que as coisas se iniciam com um calendário e um objetivo é muito difícil voltar atrás", disse Macron, sublinhando que as futuras relações entre a União Europeia e o Reino Unido serão regidas pelo pragmatismo e garantindo que haverá sempre colaboração na luta contra o terrorismo.

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