A colombiana apaixonada pela poesia de Lisboa

A poeta Lauren Mendinueta, que nasceu em Barranquilha, vive há uma década em Portugal

Lauren Mendinueta vivia em Palma de Maiorca quando veio de férias a Lisboa. Sabia muito pouco de Portugal e tinha ideias românticas na cabeça sobre o que ia encontrar. A realidade ultrapassou as expectativas. "Não conheço outra cidade no mundo onde podes encontrar um verso de Fernando Pessoa, de Luís de Camões ou de outro poeta num restaurante qualquer, numa casa de banho pública como no Parque Eduardo VII, num banco à beira-rio. Qualquer parede é um lugar para um verso em Lisboa." Um ano depois, a poeta colombiana mudava-se para a capital portuguesa. Foi há dez anos e, por Lauren, nunca mais saía de Portugal.

"Descansa muito o espírito viver num lugar onde não há violência. Eu nunca percebi como vivia com medo até sair da Colômbia", conta Lauren, que também já viveu no México. Sobre a mesa da sala da sua casa está o último livro que publicou em Portugal, Uma Visita ao Museu de História Natural (Não Edições), que fala sobre a violência e a memória que tem dela no seu país natal. "O meu avô foi assassinado, eu tinha 10 anos. A região onde cresci foi muito maltratada pela violência paramilitar, militar e das guerrilhas. Tivemos muitas ameaças, porque o meu pai sempre trabalhou na terra, havia sempre a ameaça de violência."

Nascida em Barranquilha em 1977, Lauren tinha 10 anos quando foi viver para Fundación, a aldeia do pai. "A cinco minutos de Aracataca, onde nasceu Gabriel García Márquez, o coração de Macondo." Hoje, a ligação à Colômbia faz-se não só através dos quadros que tem na parede, do colombiano Arturo de Narváez, mas principalmente através da família e das amizades, sejam as de infância sejam as que cultivou como poeta. "Mas cada vez estou mais em Portugal e menos na Colômbia", explica, admitindo que não está nos planos voltar.

Lauren já tinha 20 anos quando a poesia lhe salvou a alma. "Trabalhava numa biblioteca de Fundación e estava a passar por um momento muito difícil. Era muito jovem, mas já tinha dois filhos [Lauren e José], tinha deixado a universidade de Direito e, de alguma maneira, precisava de encontrar um lugar para salvar a minha alma. Encontrei esse lugar na poesia, na palavra", explica. Escreveu um primeiro poema e mostrou-o a Efraín, um dos poetas da aldeia que frequentavam a biblioteca. "Disse-lhe que tinha escrito uma coisinha e ele, depois de ler, respondeu-me: "Mas Lauren, tu és poeta." E eu, que precisava de acreditar numa coisa grande nesta vida, acreditei na palavra deste homem e pensei "se sou poeta, vou escrever poesia". E foi assim que comecei."

Hoje, tem publicados uma dezena de livros de poesia, além dos ensaios, fazendo também tradução e organizando oficinas de escrita. E desde 1998 que acumula prémios. "Graças a Deus já ganhei muitos, em vários países. Para mim o mais importante no prémio é o dinheiro, não é o reconhecimento. Eu não escrevo para ser reconhecida, escrevo porque preciso de escrever para viver, porque isto salva a minha alma." Lauren é até contra a "massificação" da poesia. "A poesia é quase um segredo e é bom que seja um segredo, que passe de pessoa em pessoa. Tem outro tempo, que não é o do poeta." Emily Dickinson, que tinha estado a ler mais cedo, publicou apenas uma dúzia de poemas em vida, tornando-se famosa apenas após a morte.

No meio da conversa, o choro de Gabriel, de 1 ano, sobrepõe-se ao saxofone do companheiro, o francês Edouard Rambourg, cujo ensaio se ouvia em fundo. "Encontrámo-nos cá em Lisboa. Adora Portugal tanto como eu", explica Lauren, já com o filho mais novo ao colo. É Gabriel que ultimamente lhe dita o ritmo de escrita. "A poesia não é 100% inspiração. Sem trabalho não funciona. Aconteceu-me uma vez ter um poema escrito num só dia. Ainda hoje tenho poemas em que estou a trabalhar há dez anos", conta, dizendo que um poeta sabe quando o seu trabalho está acabado. "Escrever é uma necessidade fisiológica. Deves estar de espírito aberto para responder a essa necessidade. E ao mesmo tempo totalmente autodisciplinado para saber que, embora a musa não esteja sempre connosco, deves continuar a trabalhar." No final, tudo pode ser poesia, mas também é fácil enumerar os temas que lhe interessam: a morte, o amor, a memória, a infância.

Na bibliografia de Lauren, pode estranhar-se um ensaio sobre a cientista Marie Curie, vencedora de dois prémios Nobel (o da Física e o da Química) e responsável por dois novos elementos na tabela periódica. "Eu tinha escrito o livro Autobiografia Ampliada, em que prestava homenagem a muitas personagens da história que achava memoráveis. Eu queria muito escrever um poema a Marie Curie, mas não consegui. Esse poema nunca me saiu", conta. "Uma grande editora colombiana estava a fazer uma coleção em que convidava cem escritores a escrever sobre cem personagens. E quando vi a lista soube que tinha chegado a oportunidade de prestar homenagem a esta grande mulher."

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