A artista japonesa apaixonada pelas colinas e pela luz de Lisboa

Beniko Tanaka chegou a Portugal em 2003. E foi amor à primeira vista

Tudo começou com o 11 de Setembro de 2001. Beniko Tanaka quis visitar os Estados Unidos após os atentados e, em 2002, estava num bar de Nova Iorque quando ouviu alguém falar de Portugal. "Mal recordava do que aprendera na instrução primária", mas aquilo que ouviu entusiasmou-a ao ponto de viajar para Lisboa em 2003. "Foi um choque... positivo", recorda, com emoção. "A luz, as colinas, uma paz no ar que nunca tinha sentido noutra cidade", afirma num português em que apenas vacila a pronúncia de alguns vocábulos e uma ou outra conjugação verbal. "Eu não sabia nada sobre Lisboa e Portugal", explica para acrescentar que não havia dúvidas sobre uma coisa: "é aqui que quero viver."

Trabalhando hoje as técnicas do teatro de sombras, mas com figuras coloridas de vidro e de outros materiais, Tanaka recorda a "atmosfera aberta", "pacífica" de Lisboa. A morfologia da cidade, o ondular das colinas no horizonte, as metamorfoses da luz ao longo do dia fascinam-na e pensa que têm uma influência "positiva" nas pessoas. Os edifícios antigos interessam-lhe em particular: "transmite o tempo, há memória, realidade histórica (...), é uma coisa invisível, mas dá identidade." Aprecia também passear junto ao Tejo, conhecer "pessoas de idade", percorrer "os bairros diferentes", as "ruas de calçada portuguesa". Para a artista nipónica, em tudo isto "há história". Recorda que cresceu "numa cidade muito grande", Tóquio, e sente "Lisboa como algo diferente". Mas pensa que esta "está a mudar". Considera que há uma grande pressão sobre a cidade, "menos espaços vazios, mais turistas". O importante é que Lisboa contribuiu para se conhecer a si própria de uma forma que não teria sido possível noutro local. "É uma intuição que tenho", explica ao DN no seu ateliê nas Avenidas Novas, em Lisboa, um espaço partilhado com outros artistas e que foi uma conhecida discoteca no no final dos anos 1980/início dos anos 1990. Segue-se uma declaração de amor: "apaixonei-me por Lisboa", por Portugal, acrescenta. "Preciso de voltar aqui. Portugal faz parte de mim. Tem muito valor para mim."

A primeira impressão em 2003 vai determinar uma escolha de vida. Inscreve-se na Faculdade de Letras da Universidade Clássica, em Lisboa, e fixa-se na cidade em 2005, onde hoje reside com o namorado, um italiano. Vai também frequentar o Ar.Co. Hoje, faz performances, conta histórias japonesas "na sua essência" adaptadas para os públicos infantil e adolescente portugueses, recorrendo à técnica do teatro de sombras. Desde há algum tempo, começou também a trabalhar narrativas portuguesas. E interessa-se pelas tradicionais máscaras de Miranda do Douro.

Tanaka, que nasceu em 1976 em Yamagata, cidade na região com o mesmo nome, desloca-se ao Japão "uma vez por ano ou de dois em dois anos" para realizar espetáculos. Cresceu em Tóquio, tendo estudado na Universidade de Tama. Trabalhava num ateliê quando sucedeu o 11 de Setembro de 2001. Em 2002, viajou para Amesterdão para prosseguir estudos na "arte do vidro" na Gerrit Rietveld Academie, onde permanece mais de um ano. Teve então a oportunidade de visitar os EUA, e não hesitou. "Foi uma surpresa", uma "grande mistura de pessoas". Há "quase sempre um american mais qualquer coisa", como hispano-americanos ou afro-americanos. Fixou-se em Nova Iorque, onde visitou o Ground Zero, "ainda tudo era ruínas". Esteve no Arizona, que a impressionou. "O deserto foi uma surpresa. A natureza era muito diferente" daquela a que estava habituada no Japão. "Tudo muito vasto, a ponto de ficar confusa", afirma. "Acabei por não me sentir integrada. Via tudo como excessivo." O que mais apreciou foi conhecer pessoas, "algumas muito interessantes, com quem gostei muito de falar". E foi uma dessas conversas que a trouxe para Portugal. De que tem saudades quando está mais de "dois meses fora": "Sinto saudades. Preciso de voltar."

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