A app que põe independentistas e não independentistas a dialogar

Enquanto os políticos não falam uns com os outros, a plataforma cívica Parlem Catalunya lançou uma aplicação para pôr as pessoas com ideias opostas a dialogar. É uma espécie de "Tinder político". Em época de Natal, o tema da independência catalã ameaça perturbar as ceias de muitas famílias. Mas ontem em Barcelona, por alguma horas, só havia um assunto que interessava: a vitória do Barça de Lionel Messi sobre o Real Madrid de Cristiano Ronaldo por 3 bolas a 0

A 7 de outubro, no rescaldo do referendo independentista catalão, milhares de pessoas saíram às ruas de mais de 50 cidades para pedir diálogo aos políticos da Catalunha e de Espanha. De forma espontânea, do boca em boca e das redes sociais nasceu a plataforma cívica Parlem (vamos falar, em catalão). A plataforma que a 11 de dezembro lançou uma aplicação para pôr independentistas e não independentistas a falar: Parlem/Hablemos. Desde então conta com 1800 utilizadores, tendo permitido duas mil conversas e seis mil ligações.

"É muito enriquecedor a ideia de falar com pessoas diferentes", conta ao DN um dos impulsionadores da iniciativa, Toni Lodeiro. "A app tenta emparelhar-nos com pessoas muito diferentes de nós, pela constatação de que as pessoas vivem em bolhas informativas, bolhas de relações sociais. Consumimos os media que estão de acordo com a nossa maneira de ver as coisas, nas redes sociais isso já é muito exagerado e vai empobrecendo o pensamento crítico e a capacidade de entendermos posturas diferentes, porque nos relacionamos com mensagens que reforçam o nosso sistema de crenças", explica. "O objetivo da app é fomentar a empatia e a abertura para podermos romper essas bolhas."

A aplicação (na realidade um site) é apresentada como uma espécie de "Tinder político", com o objetivo de pôr em contacto pessoas com diferentes ideias, onde em vez de se escolher alguém com quem se quer meter conversa a partir de uma foto tem de se responder a duas perguntas. Primeiro, indicar se se está de acordo com a declaração unilateral de independência, se se concorda com a aplicação do artigo 155.º da Constituição [que permitiu ao governo espanhol intervir nas instituições da Generalitat e demitir o governo] ou se não se está inclinado para nenhuma dessas opções. Depois, se se vive dentro ou fora da Catalunha. Preenche-se o nome e espera-se que a aplicação nos ponha em contacto com alguém com ideias totalmente diferentes das nossas para podermos debater. A aplicação original surgiu na Holanda e já foi usada também na Alemanha.

Toni Lodeiro é galego e vive há nove anos na Catalunha. Diz sentir que há falta de protagonismo daqueles que estão entre o independentismo - com grande presença nas ruas e nos meios de comunicação - e o espanholismo, com grande força institucional e que começa também já a ter manifestações multitudinárias. "Há um espaço em que achamos que muitas pessoas estão representadas, mas não", refere. "Se não houver uma cidadania ativa a pedir uma solução, um fim para o conflito, então teremos um panorama difícil. Porque não parece que o independentismo vá crescer rapidamente, nem parece que pela via judicial ou da repressão se possa fazê-lo desaparecer." Poria o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, e o ex-presidente da Generalitat e candidato independentista mais votado nas eleições a falar? "É muito enriquecedor falar com pessoas que pensam de forma diferente. A aplicação é útil em si mesma, mas também é uma metáfora, uma desculpa para passar à sociedade a ideia de que o diálogo entre pessoas diferentes nos enriquece, que há razão no outro ou na outra e que o diálogo é a única solução", afirma Lodeiro.

Num barómetro do Gabinete de Estudos Sociais e Opinião Pública, de outubro, 58,4% dos inquiridos diziam que o debate sobre a independência tinha afetado negativamente a convivência, um número que chegava aos 83,3% entre os que eram não independentistas. Havia 40,6% que admitiam ter deixado de falar com um amigo ou familiar e 12,3% tinham deixado pelo menos um grupo na aplicação de mensagens instantâneas WhatsApp por essa razão, segundo o El Periodico.

Nas ruas de Barcelona é difícil encontrar alguém que reconheça que o tema independentista já causou discussões na família ou entre amigos. Mas a maioria daqueles com quem o DN falou nos últimos dias sabem de um amigo, de um colega de trabalho, de um conhecido nessa situação. A jornalista do El País Ana Pantaleoni contava, na edição de ontem, a história de um amigo eleitor da Catalunya en Comú-Podem cuja mãe é contrária à independência e votou no socialista Miquel Iceta. A irmã é independentista "e apoia Carles Puigdemont até à morte". A sobrinha mais velha é da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e a irmã dela da Candidatura de Unidade Popular (CUP). O cunhado vota Ciudadanos, mas não estará na ceia de Natal. "A família não bebe muito, mas o debate é sempre aceso. No último jantar, um abandonou a mesa", contou.

Na véspera de Natal, e ainda no rescaldo eleitoral, em Barcelona não se falava ontem de manhã de política. Os bares, restaurantes e tascas com televisão tinham-na sintonizada no clássico entre Real Madrid e FC Barcelona, no Santiago Bernabéu, em Madrid, que decorreu à hora de almoço a pensar na diferença horária e nos fãs chineses. Os catalães festejaram três golos e no final do jogo houve até foguetes pela cidade. Houve quem considerasse a partida uma "terceira volta" do referendo independentista, sendo a segunda as autonómicas.
"Muitas felicidades, Barça. O trabalho em equipa, a perseverança, a tenacidade, o esforço e o compromisso têm sempre recompensa", escreveu Carme Forcadell, presidente do Parlamento catalão, no Twitter, numa mensagem com leitura para lá do campo futebolístico. Houve também quem dissesse que o Barça e o Partido Popular acabaram a semana empatados, numa referência ao facto de o partido de Mariano Rajoy só ter conseguido eleger três deputados.

Enviada especial à Catalunha

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