A América entre os 'bad hombres' a Sul e o anti-Trump canadiano

Isolacionista, presidente americano já aprovou construção do muro na fronteira com México. A norte, Trudeau responde com política de braços abertos a veto à entrada de muçulmanos nos EUA.

Em 1846, as tropas do major general Zachary Taylor entravam no território disputado de Coahuila, sendo atacadas por tropas mexicanas. Assim começava a guerra que terminaria com o México a perder mais de metade do território. Não espanta pois o choque que provocaram esta semana as notícias de que Donald Trump teria, em telefonema com o presidente Enrique Peña Nieto, ameaçado enviar tropas americanas para travar os "bad hombres", os "homens maus" que o novo inquilino da Casa Branca acredita viverem a sul do muro que prometeu construir na fronteira com o México.
A ameaça não tardou a ser desmentida pelo governo mexicano e pela Administração americana, com esta a garantir que a conversa telefónica foi "cordial" e que Trump estava apenas "a brincar" quando falou em invadir o vizinho do sul. Mas a maioria dos mexicanos não achou graça às palavras do presidente americano - que na campanha para as eleições de 8 de novembro chegou a chamar "violadores e traficantes" aos cidadãos daquele país. "Estamos perante uma guerra que não é militar, mas sim comercial, diplomática, económica e também étnica", explica ao DN Enrique Krauze. Para o historiador e analista mexicano, não há dúvidas que "se Trump fechar ao México os caminhos para uma negociação digna", este "deve abandonar o diálogo". Apesar de saber que o seu país é "comparativamente fraco" em relação ao vizinho do Norte, garante que tem "forças e recursos para responder".
Mal se sentou na Sala Oval, um dos primeiros decretos presidenciais que Trump assinou foi o que autoriza o início da construção do muro na fronteira com o México. São 3200 quilómetros do Pacífico até ao Golfo do México, mesmo se em muitas zonas já existe uma vedação. Tudo para impedir a entrada de ilegais nos EUA. Uma das questões que mais dúvidas levanta é quem vai pagar os 12 mil milhões de dólares que a Administração americana estima ser o custo da obra. Trump continua a exigir que sejam os mexicanos. Mas Peña Nieto deixou bem claro que não tem qualquer intenção de pagar.
Apesar de garantir que tem uma "relação muito boa" com o homólogo mexicano, Trump insiste noutra promessa: renegociar o Tratado de Comércio Livre Norte Americano (NAFTA, na sigla em inglês). Assinado por EUA, México e Canadá e em vigor desde 1994, o documento é descrito pelo presidente americano como uma "catástrofe" para os trabalhadores do seu país. "Espero que a negociação que propõe não afete o âmago do tratado", afirmou Enrique Krauze, acrescentando que caso contrário, o México tem recursos para retaliar, a começar por "deixar de cooperar [com os EUA] na luta contra o narcotráfico". Para o historiador mexicano, se as alterações ao NAFTA propostas por Trump "provocarem uma crise maior na economia mexicana, vai criar um tsunami migratório como o que aconteceu na Europa".
O México tem nos EUA o destino de 80% das suas exportações e metade do investimento estrangeiro no México nas últimas duas décadas veio do vizinho do Norte. Factos que explicam a preocupação com a renegociação do NAFTA defendida por Trump.
No Canadá, o outro signatário do tratado, a preocupação parece menor, mesmo se as economias dos dois gigantes da América do Norte estão totalmente interligadas. Maior parceiro comercial dos Canadá, os EUA são destino para 75% das exportações daquele país. "O Canadá é o primeiro cliente, logo destino das mercadorias, de 35 dos 50 estados americanos. Uma guerra comercial parece bastante impensável", admite Denis Ferland. O antigo correspondente parlamentar em Otava e analista do jornal Le Devoir recorda ainda que, tendo o presidente americano sempre afirmado que privilegia os acordos bilaterais aos tratados entre vários países - como comprova a saída dos EUA da Parceria Transpacífica -, o Canadá poderá "tentar evitar ser apanhado na curva com o México iniciando negociações" a dois com Washington.
Eleito com o slogan Make America Great Again (Tornar a América Grande Outra Vez), Trump não esconde a tendência isolacionista. E argumentando com a necessidade imperiosa de garantir a segurança do país a qualquer custo, o novo presidente assinou um decreto a congelar a entrada nos Estados Unidos de todos os refugiados e dos cidadãos oriundos de sete países de maioria muçulmana - Irão, Iraque, Síria, Líbia, Sudão, Somália e Iémen. A medida gerou de imediato o caos nos aeroportos americanos, com dezenas de pessoas a serem detidas e muitas mais a serem impedidas de entrar no país ou de embarcar nos aviões a caminho dos EUA.
Apesar de Otava ter negociado uma exceção para os nacionais daqueles sete países com dupla nacionalidade canadiana e sem nunca citar o nome de Donald Trump, Justin Trudeau foi dos primeiros a reagir à decisão do presidente americano. No Twitter, o primeiro-ministro canadiano escreveu "aos que fogem da perseguição, do terror e da guerra, fiquem a saber que o Canadá vos acolhe, independentemente da vossa fé. A diversidade é a nossa força #Bem-VindosAoCanadá". Noutra mensagem na mesma rede social, o jovem governante liberal publicou uma foto sua com uma menina síria no aeroporto, na recessão ao primeiro contingente de refugiados vindos daquele país em 2015.
Esta atitude de Trudeau, que desde a chegada ao poder se destacou pelo discurso integracionista, só veio reforçar a sua imagem de anti-Trump, uma expressão usada por vários media, entre os quais o americano Washington Post, para descrever o primeiro-ministro canadiano. "Politicamente, Justin Trudeau pode de facto jogar a carta do bastião contra o truísmo, o populismo", garante Denis Ferland. O analista do Le Devoir explica que essa é uma imagem em que o chefe do governo liberal aposta no cenário internacional, mas também no cenário interno. Sobretudo se Kevin O"Leary, um milionário estrela do programa de televisão Shark Tank, vencer a corrida à liderança do Partido Conservador, tornando-se no adversário de Trudeau em 2019. "O"Leary é pró-imigração e pró-comércio livre, nada a ver com Trump... mas aposta num discurso ao estilo de Trump", explica Ferland.
Sem as tensões que opõem a América de Trump ao México, a relação do novo presidente com o vizinho do Norte tem sido até agora relativamente cordial. Mas ainda não se sabe se o novo inquilino da Casa Branca pretende seguir a tradição dos antecessores e escolher o Canadá para a primeira visita oficial como presidente (Bush filho foi exceção, optando pelo México). Apesar disso, o primeiro encontro entre Trump e Trudeau promete trazer algum desconforto a ambos. Até porque em agosto, o milionário republicano garantia à revista canadiana Charisma que o líder do governo de Otava é "o pior presidente de sempre no Canadá". Acusando a política migratória de Trudeau de ser responsável pelo "ISIS canadiano", Trump insistia no Twitter (mantendo o erro no cargo) que este devia "ter vergonha de se intitular presidente do Canadá". Daí até atacar diretamente o vizinho do Norte, Ferland tem mais dúvidas, admitindo no entanto que o Canadá pode "tornar-se um dano colateral" da era Trump.

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