19 discursos do Papa pela paz entre cristãos e muçulmanos

Francisco chegou ontem ao Quénia, mas visita inclui Uganda e República Centro Africana.

Recebido por uma multidão nas ruas de Nairobi entre o aeroporto e a residência oficial do presidente Uhuru Kenyatta e depois por uma salva de 21 tiros de canhão, o Papa Francisco aproveitou a primeira intervenção em solo africano para apelar à paz entre cristãos e muçulmanos. "Na medida em que a nossa sociedade vive divisões, sejam elas étnicas, religiosas ou económicas, todos os homens e mulheres de boa vontade são chamados a trabalhar para a reconciliação e paz, perdão e cura", afirmou o chefe da Igreja católica no primeiro de 19 discursos que irá proferir nos seis dias da sua primeira viagem a África.

O Quénia, onde 80% da população é cristã - 30% católica, como o presidente Kenyatta -, tem sofrido uma série de ataques das milícias islamitas somalis al-Shabaab, que mataram milhares de pessoas nos últimos dois anos. Um dos piores foi o ataque a um centro comercial de Nairobi, onde morreram 67 pessoas, com os atacantes a perguntar a religião antes de disparar, poupando apenas os muçulmanos.

Foi com esta tensão religiosa - e étnica - em mente que o Papa apelou à "tolerância e respeito", encontrando no "desespero nascido da pobreza e frustração" uma explicação para a "violência e terrorismo".

Francisco mostrou-se ainda ansioso por se encontrar com "os jovens" quenianos, descrevendo a juventude como "o maior bem de qualquer nação". E chamou a atenção para a "grave crise ambiental" que exige "ainda uma maior sensibilidade na relação entre os seres humanos e a natureza". E rematou o discurso com um "Mungu abariki Kenya!", Deus Abençoe o Quénia!"

Medo, só dos mosquitos

Do Quénia, Francisco segue amanhã para o Uganda, outro país alvo frequente dos ataques de grupos islamitas. A maior preocupação em termos de segurança prende-se com a ida do Papa argentino a Bangui, na República Centro Africana, onde o conflito entre os rebeldes muçulmanos da Seleka e as milícias cristãs anti-balaka causou mais de seis mil mortos nos últimos dois anos. Mas, num país onde os cristãos são 80% da população, espera-se que a presença do Papa atraia multidões que vão ser um quebra--cabeças para a segurança, garantem a afirmação da religião católica no continente. Segundo o Pew Research Centre, em 2050 os cristãos serão o maior grupo religioso na África subsariana, com 1,1 mil milhões de fiéis, cerca de metade católicos. O número de muçulmanos também vai continuar a crescer, a um ritmo ainda mais acelerado, passando dos 248 milhões em 2010 para os 670 milhões em 2050.

No avião da Alitalia que o levou ao Quénia, o Papa parecia pouco preocupado com as questões de segurança. E a um jornalista que o inquiriu sobre a violência contra cristãos, respondeu: "Há pessoas boas e pessoas más. Para dizer a verdade, a única coisa que me preocupa mesmo são os mosquitos!" "Espero que tenham trazido o repelente!", acrescentou.

Corrupção, gays e contraceção

Tido como exemplo de simplicidade, o Papa que veio "do fim do mundo", como o próprio disse no dia em que foi eleito, deverá aproveitar a visita a África para abordar as desigualdades gritantes e a corrupção que minam o desenvolvimento daqueles países. No Quénia, 1% da população detém 75% da riqueza, o que garante que a mensagem do homem que escolheu o nome Francisco em homenagem a S. Francisco de Assis deverá ser bem recebida pelos outros 99%.

Com uma visita ao bairro de lata de Kangemi, em Nairobi, na agenda, o Papa não deverá deixar de apelar à inclusão de todos. Mas há assuntos que os analistas acham pouco provável que venham a dominar a agenda de Francisco.

Um deles é a questão da homossexualidade e de como esta continua a ser considerada como um crime em vários países africanos. É que se o Papa perguntou "quem sou eu para julgar?" quando questionado sobre um padre gay, a verdade é que o recente Sínodo da Família não trouxe grandes alterações à posição oficial da Igreja católica sobre a questão. Nada que tire a esperança às associações LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgénero) que esperam que Francisco leve com ele uma mensagem de tolerância. "Gostaria que o Papa, pelo menos, dissesse que ser LGBT não é uma maldição", afirmou à Reuters Jackson Mukasa, um ugandês de 20 anos que em 2014 foi detido por suspeita de atos homossexuais antes de as acusações terem sido retiradas por falta de provas.

A homossexualidade é ilegal na maior parte dos países de África. A África do Sul é a única no continente a autorizar os casamentos gays. Já a Igreja Católica considera que ser gay não é pecado, mas praticar atos homossexuais é. Uma posição oficial que não mudou, apesar da maior abertura de Francisco.

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