12 horas de terror em seis histórias

Há quem não tenha perdido toda a família por 15 minutos; e há quem, numa estação de metro, tenha compreendido porque fogem os refugiados das bombas. Testemunhos de quem viveu o dia em que os hospitais da capital belga viram ferimentos de guerra.

Explosões. "Estou em choque"

8:00 (7:00 em Lisboa, aeroporto Zaventem)

"Ouvi alguém falar em língua árabe, depois uma forte explosão, seguida de outra. Não sei o que ele disse. Não falo árabe." Alphonse Youla é trabalhador numa empresa que faz a segurança das bagagens no aeroporto de Zaventem, em Bruxelas. Ao jornal La Libre, contou que ontem devia estar a "cinco metros" do local da primeira explosão que ocorreu no edifício. Após a segunda, assistiu à queda de parte do teto. Começou depois a ver feridos e mortos. Ao final do dia o balanço das vítimas do aeroporto era de 11 mortos e 81 feridos Alphonse socorreu duas pessoas idosas, que lhe pediram ajuda. Depois, outras cinco. "Estavam feridas ou mortas. Retirei dois polícias com as pernas esmagadas, Havia muitos feridos, sobretudo pessoas com pernas cortadas. Estou em choque", disse o homem de 40 anos.

"Não morreram por 15 minutos"

Pouco depois das 9.00, perto do aeroporto

Lopo Carvalho vive há seis meses em Bruxelas. Toda a sua família acabara de chegar para a Páscoa ontem de manhã. "Vieram visitar-nos. A minha mãe, os meus irmãos, a minha cunhada. Não morreram todos por 15 minutos. Não foi tudo à vida porque não calhou. Vivo a 15 minutos de carro do aeroporto. Quando chegámos a casa, já tinham sido os atentados. Foi uma coisa de dez, 15 minutos", conta ao DN. Saiu depois para trabalhar. Foi de bicicleta e "não de metro, por causa de toda a situação". Quando passou pela estação de metro de Maelbeek, acabava de ter lugar, às 8.11, a terceira explosão a que Bruxelas assistia naquela manhã. "Estava tudo no chão, imenso fumo a sair de dentro do túnel, um senhor estendido no chão, caixotes do lixo todos rebentados. Umas pessoas fugiam, outras filmavam. Os carros ainda estavam a passar com normalidade." Morriam ali mais 20 pessoas e 130 ficavam feridas. O que lhe passou pela cabeça? "Graças a Deus estou vivo, a minha família também, vou sair daqui para não estar sujeito a uma situação mais complicada, e rezar pelas pessoas. Foi o que fiz." Recorda que, ao assistir na sexta-feira à detenção de Salah Abdeslam, o principal suspeito dos atentados de novembro em Paris, pensou: "Alguma coisa vai acontecer. E eu não gosto muito de andar de metro nesta cidade um pouco por causa disso. " Todavia, alvitra, "uma pessoa não pode deixar de viver. A questão de ter havido atentados no imediato não pesa na minha situação de ficar ou de vir embora. Mas somos uma família, no dia em que a minha mulher se sentir cheia de insegurança, pegamos nas malas e vamos embora."

Metro: um cenário "apocalíptico"

Entre as 9.11 e as 10.00 , rue de la Loi

Enquanto Lopo Carvalho passava de bicicleta pela estação de Maelbeek, na rue de la Loi - centro de Bruxelas -, também Christian Thiercelin, segurança de um dos edifícios da Comissão Europeia, assistia ao cenário que descreveu como "apocalíptico". "As pessoas corriam na rua, algumas tinham a cabeça em sangue. Desci ao metro para prestar socorro às pessoas, mas não se via quase nada, estava escuro, havia imenso fumo", recordou ao jornal Le Soir. "Uma senhora idosa que tinha uma grande ferida na cabeça, e muito sangue, disse que não sentia nada, estava completamente em choque. Outra tinha os cabelos completamente queimados." Chris, outro trabalhador num escritório vizinho da estação de metro, disse que, "após a explosão", viu sair "dezenas de pessoas, a maior parte feridas nas mãos, na cara e na cabeça. Muitos dos meus colegas desceram para prestar os primeiros cuidados, todos estavam em choque. Hoje compreendo melhor o que devem sentir os refugiados que tentam escapar às bombas".

"Não será a última" vez, diz Moedas

Depois das 9.00, rue de la Loi

Carlos Moedas estava no edifício da Comissão Europeia, localizada na rue de la Loi, "a uns 200 metros" do local onde ocorreu a "grande explosão" no metro. "Este tipo de atuações infelizmente não será a última, vivemos momentos muito conturbados, com ataques diretos aos valores da Europa, e vamos ter de trabalhar cada vez mais na partilha de informações com os Estados, reforçar a agenda estratégica para a segurança na Europa e só assim conseguiremos combater este bando de criminosos, estes grupos que nos querem atacar no centro nevrálgico da Europa", declarou então o português à agência Lusa. A Comissão Europeia (que está próxima do Conselho Europeu) encerrou as portas e apelou aos funcionários para que não abandonassem o edifício. Àqueles que ainda não haviam chegado, pediu que permanecessem em casa. Foi o que aconteceu a João Abreu Rocha, um português há 30 anos a trabalhar naquela instituição. A sua mulher, Almerinda, contou ao DN que, na manhã de ontem, ficaram "a ouvir as notícias do [atentado no] aeroporto e ele atrasou-se um bocado." "Acho que foi mesmo um milagre". Não fosse aquele atraso, João - que na Comissão trabalha na Direção-Geral da Estabilidade Financeira, dos Serviços Financeiros e da União dos Mercados de Capitais - deveria estar a sair na estação de Maelbeek à hora do atentado. Quando questionada se, depois da operação policial que culminou na detenção de Abdeslam, estava à espera de uma retaliação, Almerinda responde: "Havia pessoas que diziam isso. Ingenuidade minha, pensei: Olha, ainda bem que o apanharam, não vai fazer mais mal. Mas pelos vistos as outras pessoas tinham mais razão, realmente havia uma resposta. A Bélgica está muito mal..."

"Ferimentos de guerra" no hospital

Depois dos atentados, em toda a cidade

Não estava a trabalhar na manhã de ontem. "Felizmente estava de folga", diz ao DN uma enfermeira portuguesa que trabalha num hospital da capital belga e não quis ser identificada. Dos colegas que estiveram de serviço no dia de ontem, pouco sabia ainda. "Sei que um colega está abalado e fragilizado pela situação, e descreveu que este dia ficará marcado na memória dele, e que terá dificuldades a dormir nestes próximos dias, devido aos gritos, etc." Bruxelas é a sua cidade há quase quatro anos. "Claramente estou assustada pela minha segurança e pela segurança do meu noivo. Somos ambos enfermeiros. Neste momento, ainda não ponderamos deixar Bruxelas porque toda a Europa está em perigo, assim como Portugal. A nossa vida está a ser delineada aqui, assim como a nossa carreira." Contudo, diz, a vida não ficará igual. "Vamos evitar estar perto de superfícies comerciais e regressar a casa diretamente após o trabalho. Desde terça-feira passada, após a perseguição em Forest, que se vive um ambiente de sobressalto, desconfiança e de medo." Nas urgências, aquilo que seguiu os atentados foi "o pior que já experienciei em 15 anos", declarou o diretor do hospital privado Saint Luc, Renaud Mazy, a unidade mais próxima do aeroporto de Zaventem. Também à porta do hospital Saint-Pierre, próximo da estação de Maelbeek, segundo foco dos atentados, o cenário mostrava "ambulâncias, carros da polícia, carrinhas de funerárias e de farmacêuticas", contava o site Politico. A certa altura, faltaram as reservas de sangue e foi pedido também aos funcionários dos hospitais em causa que contribuíssem para a sua reposição. "É a guerra, é indescritível. Tudo está em bocados, tudo está destruído. Em cerca de 40 anos de profissão, isto é o mais grave que já vi", dizia ao Le Soir um bombeiro, Pierre Moys. Também o chefe das urgências do hospital Erasme - outro dos principais focos de cuidado médico prestado às vítimas dos atentados - comparava ferimentos graves que testemunhou ontem em Bruxelas a "ferimentos de guerra". "Membros arrancados, ferimentos que provocam grandes perdas de sangue, e que são difíceis de estabilizar. Há queimaduras causadas pelas explosões", dizia Christiane Melot. O plano de urgência MASH - de alerta nos serviços hospitalares - esteve em curso.

Uma homenagem pintada no chão

Desde o início da tarde, praça da Bolsa

"É preciso ter cuidado com os imãs radicais que dizem que vamos para o Paraíso. Só têm de ir eles mesmos. Quanto a mim, não tenho vontade de ir para o paraíso matando inocentes. Isso não é o Paraíso, é o Inferno." Sofiane é argelino e, descrevia o jornal La Libre, ontem acendia velas que o vento tinha apagado no meio das centenas de pessoas que ocupavam a praça da Bolsa. O movimento que se formou naquele lugar terá começado através de três amigas que, conta a estação RTL, começaram a distribuir giz colorido pelas pessoas. No chão da praça liam-se, então, escritas em cores diversas e por vezes sobrepondo-se umas às outras, expressões como Ensemble contre la haine (Juntos contra o ódio), love Bruxelles, Bruxelles I love you. Em francês, inglês, italiano, espanhol, ou árabe, língua em que se lia, em determinado lugar: "O Islão está inocente do terrorismo". Chegaram cartazes, flores, e velas como as que Sofiane acendia. Veio o primeiro-ministro belga Charles Michel, pouco antes das 19.00 (20.00 em Bruxelas), acompanhado pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. Este que, a dada altura, lançou: Vive la Belgique! Durante a tarde, ouviu-se um rapaz tocar violoncelo. Depois, de quando em vez, as pessoas juntavam-se e formavam esporádicos coros para entoar Imagine, a canção de John Lennon que já havia servido de hino a muitos dos que, nas manifestações após os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris, foram para a rua dizer aos terroristas que não tinham medo.

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