10 anos depois da passagem de testemunho entre Fidel e Raúl

Fidel dirigiu os destinos da ilha durante mais de meio século, com mão de ferro e total intransigência ideológica. Raúl Castro completa hoje uma década na presidência de um país de 11 milhões de habitantes

1. Reconhecer erros mas insistir no mesmo rumo

"O principal obstáculo que enfrentamos, tal como o esperávamos, é o peso de uma mentalidade obsoleta que assume a forma de uma atitude de inércia", declarava em abril Raúl Castro, falando no VII Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC). Um balanço que reflete as contradições no país a que Raúl preside desde 31 de julho de 2006 e que, garantiu ele, nunca conhecerá os "choques" de outros regimes socialistas. Mas este mês avisou os cubanos que os espera mais austeridade. Numa intervenção no Parlamento, disse ser indispensável "reduzir toda a despesa não essencial". A razão é simples: nem a economia está a crescer como se esperava nem o principal fornecedor de petróleo a Cuba (Venezuela, cerca de 60%) tem condições para cumprir as suas obrigações com Havana.

2. Restabelecimento de relações com os EUA

É o grande sucesso de Raúl, que até assumir a presidência foi ministro da Defesa desde a fundação do regime, em 1959. A chegada de Barack Obama à Casa Branca (2008) criou condições para a reaproximação cujo anúncio foi feito em dezembro de 2014. Obama sempre considerou indispensável a reaproximação, que foi encorajada pelo Papa Francisco, num processo em que os seus antecessores, Bento XVI e João Paulo II, também não foram estranhos. Apesar do restabelecimento de relações diplomáticas, o embargo, imposto em 1960 após a nacionalização das empresas dos EUA na ilha, em especial do setor petrolífero, permanece em vigor.

3. Intransigência do regime face à oposição

"As prisões estão sobrelotadas, sem condições de higiene, são generalizadas a subnutrição e as doenças. Mais de 57 mil cubanos estão presos ou detidos em campos de trabalho, segundo um artigo de maio de 2012 num jornal oficial. Presos que criticam o governo ou realizam greves de fome são colocados em solitária, agredidos, as famílias não os podem visitar e são-lhes negados cuidados médicos". Este era o panorama estabelecido em 2014 pela Human Rights Watch sobre o ambiente repressivo que se vive em Cuba. Na semana ora finda, um grupo de 20 opositores, entre os quais Guillermo Fariñas (Prémio Sakharov em 2010), iniciaram uma greve de fome conjunta em protesto por aquilo que consideram o clima de repressão violenta no país. O regime mantém que qualquer opositor é um "contrarrevolucionário".

4. Abertura (controlada) da economia

Desde o início, Raúl anunciou a a liberalização da economia. Permitiu a pequena iniciativa privada (os cuentapropistas), a compra e venda entre particulares de casas e veículos, abriu espaço para as empresas internacionais. Permite desde 2014 a utilização de mão de obra estrangeira e voos diretos de companhias de aviação dos EUA estão a iniciar-se.

5. Abertura (ainda mais controlada) da Internet

Durante muito tempo praticamente impossível, o acesso à Internet e às redes sociais é agora possível em Cuba. De forma muito controlada e a baixa velocidade. Segundo a revista PC, em março só existem 65 pontos de Wi-Fi em toda a ilha, de acesso pago, o YouTube, o Skype e outros serviços são interditos.

6. Do "internacionalismo" a parceiro internacional

Distante está a época em que Cuba era um "farol revolucionário". É certo que permanece um aliado de referência para os regimes populistas de esquerda, como a Venezuela, a Bolívia ou a Nicarágua, mas Cuba marcou pontos ao servir de centro para as negociações de paz entre a guerrilha das FARC e o governo colombiano, e ao histórico encontro entre o Papa Francisco e o Patriarca ortodoxo russo Cirilo. Havana chegou a acordo com os seus credores internacionais e estabeleceu uma parceria com a UE nas áreas do diálogo político, cooperação e comércio em março.

7. O fundador carismático e um líder de transição

As personalidades de Fidel e Raúl não podiam ser mais distintas. O primeiro é egocêntrico, carismático, considerado o exemplo perfeito do líder "maquiavélico". Em oposição, Raúl surge como uma personalidade determinada, mas sem carisma, segura, mas discreta, capaz de uma afabilidade pública que raras vezes se viu no irmão. Fidel carrega toda uma herança e não pode abrir mão dela. Raúl sabe que lhe cabe preparar Cuba para as décadas futuras.

8. Discurso ideológico vs. discurso pragmático

Longe de funções oficiais, Fidel mantém-se presente através de "reflexões" publicadas online em CubaDebate, que anunciava ontem a estreia televisiva de uma série documental com "recordações, impressões e emoções" daqueles que "partilharam momentos inolvidáveis com o líder histórico" do regime. Os textos de Fidel cultivam a mesma retórica que marcava os seus longos discursos. Pelo contrário, Raúl recorre a linguagem pouco "ideológica" e justifica as medidas tomadas com argumentos pragmáticos.

9. Plataforma económica global... no futuro

Sob a presidência de Raúl foi iniciada a construção do porto de águas profundas em Mariel, a 40 quilómetros de Havana, dotado de uma zona económica especial (ZEE). O objetivo é que este porto, situado num ponto de intersecção das rotas comerciais entre a Europa, as Américas e a Ásia se transforme num dos maiores do mundo em volume de carga. O porto terá capacidade para operar um milhão de contentores/ano e a ZEE irá gerar oito mil postos de trabalho, diretos e indiretos.

10. Sucessão com data anunciada

Ao chegar ao poder, Raúl estabeleceu uma data para sair: 2018, no quadro de uma lei que fixa um limite de dez anos para o exercício de altas funções públicas. É dado como adquirido que a sucessão passará pelas famílias de Fidel e Raúl. O nome do filho mais velho de Fidel, Fidelito, com 68 anos, é referido ainda que a ausência de um trajeto político seja um óbice. Os cinco filhos do segundo casamento de Fidel nunca tiveram ligação à política, com exceção de António Castro, de 47 anos, ainda que de forma oblíqua. Factos que apontam para a família de Raúl, onde três dos quatro filhos exercem funções públicas: Mariela, de 54 anos, dirige a Federação das Mulheres Cubanas; Débora, de 56 anos, é quadro superior na área da Educação; Alejandro, de 50 anos, é oficial superior, combateu em Angola nos anos 80, e dirige os serviços de informações, tendo sido designado pelo pai para chefiar uma campanha anticorrupção - qualificações relevantes para um futuro dirigente.

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