Líderes decidem nos bastidores quem vai ter palco em Bruxelas

Os chefes do Estado e do governo europeus encontram-se esta noite, em Bruxelas, para iniciarem as discussões oficiais sobre a liderança do poder institucional na União Europeia

Dois dias após o anúncio dos resultados das europeias, sem esperar pela constituição do novo Parlamento Europeu, os líderes da UE reúnem-se esta terça-feira, em Bruxelas, para discutir os cargos que vão ficar vagos este ano na UE.

O primeiro cargo que está para decidir é o da presidência da Comissão Europeia, mas a discussão não é isolada dos outros lugares de poder. Não se espera que venha a ficar tudo decidido na reunião de hoje, mas "a discussão não pode arrastar-se por muito tempo", comentou uma fonte com o DN, para evitar a repetição de "um impasse", na entrada em funções da futura Comissão Europeia. A perda de maioria do centro europeu "complica ligeiramente" a formação de consensos em torno do nome que vier a ser proposto - pelo Conselho -, ao Parlamento Europeu.

Mas, as "forças democráticas" estão já a combinar esforços para "garantir que a Europa funciona", como afirmou o líder parlamentar da Aliança dos Liberais e Democratas da Europa (Alde), Guy Verhofstadt, respondendo a uma questão sobre as suas aspirações à presidência do Parlamento Europeu, agora que a sua família política se avolumou dentro do hemiciclo. Mas, o federalista belga que há anos aspira a um cargo institucional europeu garantiu que "essa não é a [sua] prioridade".

Com 108 deputados, o Alde, agora unido ao La Republique en Marche de Emmanuel Macron, aos liberais romenos da USR e outros, torna-se incontornável em qualquer aliança, assim como os Verdes, agora com 69 eurodeputados eleitos. Ambos os grupos pró-europeus entram confortavelmente no "espetro democrático", que é a condição mínima dos aspirantes a alianças com qualquer um dos dois partidos do centro.

Via aberta para uma aliança de progressistas

O cabeça-de-lista do Partido Popular Europeu (PPE) soube reconhecer que, a perda de 38 lugares é um trambolhão que não lhe permite "sentir uma verdadeira vitória poderosa", embora continue a ser o maior grupo político, com 178 deputados. Por isso, prometeu abertura para "todas as outras contribuições".

Porém, para se começar a perceber como será a correlação de forças para a discussão do Spitzenkandidat, há que ter em conta o que disse a dinamarquesa Margrethe Vestager. A cabeça-de-lista do Alde dá a entender que o grupo político apoiado pelo PSD e pelo CDS pode ficar isolado na discussão. A liberal, atual comissária europeia da Concorrência, pisca o olho aos Verdes e sugere um apoio ao candidato dos socialistas, incluindo por António Costa.

"Apreciei muito o que o meu colega Frans Timmermans disse, que uma coligação pode ser construída por aqueles que querem fazer alguma coisa [e] ou aquele que querem agir progressivamente, para mudar as coisas", disse a dinamarquesa, atenta também "aos sinais que vêm dos Verdes", prometendo "espaço para conversações nos próximos dias". O holandês, vencedor das eleições europeias no seu país, aproveitou o apoio para dizer que é "na base de um programa e de alianças que podemos depois iniciar a guerra dos tronos sobre quem vai para que cargo", e não fechou a porta aos que partilham os "valores democráticos". Com isto excluiu a extrema-direita.

Os Verdes não abriram o jogo, mas esclareceram que qualquer aliança terá de respeitar um programa assente "na proteção do clima, numa Europa social e em que a as liberdades civis e que a democracia governem por toda a Europa".

Para garantir, para si, apoios necessários para chegar à presidência da Comissão Europeia, Frans Timmermans pode ainda olhar para os 38 deputados do Grupo da Esquerda Unitária e Esquerda Nórdica Verde. Foi o que fez, ainda na noite eleitoral, já que os resultados pela Europa refletem "a situação interna dos Estados", em que "há maior dificuldade para formar coligações".

Quando se sentarem hoje à mesa do jantar, em Bruxelas, os chefes do Estado ou do governo da União Europeia não poderão ignorar a tendência dos discursos, mais ou menos sedutores, da noite eleitoral, no Parlamento Europeu, pois são os únicos que ajudarão a perceber como pode ligar-se um Parlamento fragmentado. É que o jantar, que chegou a estar previsto para a noite de ontem, entre PPE, PSE, Alde e Verdes, foi cancelado.

O campo de batalha transfere-se esta noite para o Conselho Europeu. E, também nessa sede, sabe-se de uma proximidade de pontos de vista entre Liberais e Socialistas, para a distribuição dos lugares. À margem da cimeira de Sibiu, na Roménia, há duas semanas, o primeiro-ministro socialista António Costa esteve reunido com o primeiro-ministro holandês, o liberal Mark Rutte, com o também liberal chefe do governo belga, Charles Michel e com o presidente francês, Emmanuel Macron. Recorde-se que os deputados da lista da Renascimento do La Republique en Marche vão finalmente integrar o grupo dos liberais. E Costa e Macron têm publicamente expressado apoio mútuo.

Outros cargos de topo

A futura Comissão Europeia terá de tomar posse a 1 de novembro e, até lá, terá de haver decisões não só sobre os cargos de topo nas instituições, muito para além da presidência da Comissão. Por exemplo a presidência do Conselho Europeu, a do Parlamento.

Acrescente-se que também terá de ser nomeado o colégio de comissários, e a respetiva importância da pasta que caberá a cada um dos comissários, também será um dos elementos a ter em conta, para compor o cabaz institucional. A liderança da diplomacia europeia, economia e finanças, agricultura ou coesão são habitualmente as pastas mais cobiçadas dentro do Berlaymont, sede da Comissão Europeia. O desenho do mapa institucional terá de enquadrar também as presidências do Conselho Europeu e do Parlamento.

A par desta discussão, a União Europeia procura um sucessor para Mario Draghi, na presidência do Banco Central Europeu. Há vários nomes falados. Jein Weidmann, o alemão que lidera o Bundesbank é um dos mais referidos. No entanto, é olhado com desconfiança, pelos apoiantes da política de harmonização financeira, o chamado Quantitative Easing, que Draghi adotou em 2013, para assegurar a liquidez do sistema financeiro europeu. Receia-se que Weidmann possa reverter esta e outras medidas, lançadas pelo italiano.

Entre os nomes que se perfilam, há dois finlandeses. O de Erkki Liikanen, ex-governador do banco central do seu país, e o de Olli Rhen. Caso se confirmasse este último, o atual governador do Banco da Finlândia, voltaria ao palco europeu, depois de em 2014 ter concluído o segundo mandato como comissário europeu. Na segunda vez que integrou a equipa de Durão Barroso, em Bruxelas, teve a pasta dos Assuntos Económicos e Monetários a seu cargo.

Para completar a lista de potenciais sucessores de Mario Draghi, o jornal Financial Times tem vindo a apostar nos nomes de dois franceses: Benoit Coeuré, membro da Comissão Executiva do BCE desde 2012, e François Villeroy de Galhau, governador do Banco de França. Mais à frente terá de discutir-se também a presidência do Eurogrupo. Este é atualmente presidido pelo ministro das Finanças português, Mário Centeno.

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