As bandeiras espanholas na terra que quer Puigdemont de volta

"Bem-vindo a Espanha" lê-se na faixa à entrada do bairro Vila-Roja, na cidade onde o ex-presidente da Generalitat foi autarca e que é um bastião independentista. O município quer mudar o nome da Praça da Constituição para Praça do 1 de Outubro, em protesto contra o artigo 155.º e para não esquecer a repressão policial do referendo e os presos políticos. Hoje, 5,5 milhões de catalães vão a votos e as sondagens dizem que estão totalmente divididos

É hora de almoço no Bar Cuellar e os habitantes do bairro de Vila-Roja cruzam-se no interior com os trabalhadores das oficinas ali perto. "Assim como os independentistas têm direito a pôr a sua bandeira nas janelas, nós temos direito a pôr a de Espanha", contou José, atrás do balcão das tapas, enquanto servia peixinhos fritos a Tomás, que acena positivamente com a cabeça. "Sentimo-nos catalães, mas também espanhóis", acrescentou este filho de andaluzes, origem da maior parte dos que ali vivem e que chegaram a Girona nos anos 1960 e 1970. Na cidade considerada um bastião do independentismo, onde Carles Puigdemont foi autarca antes de liderar a Generalitat, Vila-Roja com a sua faixa "Bem-vindos a Espanha" é uma exceção.

Há 20 anos que, segundo Tomás, neste bairro se vota nos socialistas, já que esse era considerado o partido que melhor representava os trabalhadores. Nas ruas pintadas com as bandeiras espanholas dominam os cartazes de Miquel Iceta, cabeça de lista do PSC, e de Rafel Bruguera, o candidato por Girona. "Mas nestas eleições vai ser diferente", defendeu José, apostando na vitória de Inés Arrimadas, do Ciudadanos, pelo menos ali. "O eleitorado masculino vai votar nela, sem dúvida, é muy guapa", brincou. "Os outros estão todos envolvidos em corrupção e o Ciudadanos ainda é novo", explicou Tomás, para lá das brincadeiras. Para ambos, Puigdemont pode ficar em Bruxelas, onde se refugiou para escapar à justiça espanhola, se quiser.

As televisões do bar estão sintonizadas na TVE e o jornalista fala dos preparativos para o dia das eleições, nas quais 5,5 milhões de catalães são chamados a eleger os 135 deputados autonómicos. As sondagens apontam para uma divisão entre os campos independentistas e não independentistas, com a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) a conseguir ser a mais votada no primeiro e o Ciudadanos no segundo. E com contas difíceis para quem quiser ter maioria para governar.

"Se ganham os independentistas, então Madrid vai continuar a aplicar o artigo 155.º da Constituição. Sem problema", acredita José, referindo-se ao artigo que permitiu ao governo de Mariano Rajoy assumir o controlo das instituições catalãs e antecipar o escrutínio. Precisamente a rua onde está o Bar Cuellar foi rebatizada Avenida 155, como se lê por cima de uma faixa com a bandeira espanhola e a catalã onde também diz "Espanha ama a Catalunha". Num poste da eletricidade, em frente, afirma-se que aquela é a Praça da Constituição.

O autocarro L6 liga esta "nova" Praça da Constituição àquela que oficialmente ainda tem esse nome, no centro de Girona. A autarquia governada por Marta Madrenas, do Partido Democrático Europeu Catalão, de Puigdemont, quer rebatizá-la de Praça do 1 de Outubro. Para isso contou com o apoio dos outros partidos independentistas, assim como com o dos socialistas que, a 11 de dezembro, aprovaram a moção que deixa o tema nas mãos da comissão municipal responsável pela nomenclatura, valendo-lhe críticas dos outros partidos constitucionalistas.

O objetivo é garantir que as vítimas das cargas policiais do dia do referendo independentista (o colégio em Girona onde Puigdemont vota foi um dos alvos da polícia) e os cidadãos "que foram privados dos seus direitos e liberdades" não caiam no esquecimento. Numa coluna num dos pontos da praça está um papel a imitar uma placa toponímica: "Plaça de l"1 d"Octubre".

O espaço é dominado pelo cinzento do betão e o castanho da terra. Mas o que sobressai é o amarelo da malha em que foram tricotados "vestidos" que envolvem os troncos das árvores, despidas de folhas neste inverno. É uma homenagem aos "presos políticos", como são considerados pelos independentistas os ex-membros do governo detidos pela organização do referendo e consequente declaração de independência. Os termó-metros estão abaixo dos 10 graus e o sol da manhã não bate no espaço aberto.

Júlia, reformada com 70 anos, desafiou o frio para passear o cão e explica que a estátua que está na praça, de uma menina sentada, é à imagem de uma criança que nasceu precisamente quando a Constituição foi aprovada, em 1978. Ela pode ficar, mas o nome tem que ir. "Acho bem que queiram mudar o nome, mas têm que mudar para praça do 1 de Outubro de 2017, porque li no jornal que o 1 de Outubro também tem uma ligação a Franco", explicou. De facto, ele foi investido nessa data, em 1936, em Burgos, como chefe de Estado, o título que ostentou na ditadura, durante a qual esse dia era comemorado como "exaltação de Franco à chefia do governo".

No dia de reflexão, Júlia confessou estar "preocupada" com o futuro e "intrigada" para saber o que vai acontecer, confiante numa vitória dos independentistas. "Mas se ganham os independentistas e depois Madrid continua com uma resposta repressiva então o que fazemos? É muito triste. E se ganham os outros, é ainda pior. Porque é como se continuassem com o artigo 155.º sem precisar dele. É uma verdadeira incógnita", acrescentou, defendendo o regresso de Puigdemont, mas lembrando que isso não depende dos eleitores. "O que podemos fazer é expressar com o nosso voto a nossa inconformismo. É a única coisa que podemos fazer. O resto não depende de nós", referiu. "Mas é muito grave termos eleito uma pessoa e depois vir alguém demiti-lo só porque não gostam. Não podemos permitir. Temos que tentar restituir o presidente que estava."

Por toda a Girona, além das bandeiras independentistas, saltam à vista os laços amarelos de homenagem aos presos políticos. Lluis, que caminha em direção à Força Vella, a parte mais antiga da cidade (onde ficava a fortaleza construída pelos romanos no século I a.C. e que serviu de cenário a algumas cenas da série Guerra dos Tronos), leva um preso no blusão. À sua frente, a Pont des Peixateries Velles, construída pela casa Eiffel sobre o rio Onyar, tem o seu entrançado de ferro cheio deles. Para Lluis, Puigdemont é o único presidente possível, mostrando-se descontente por a ERC (que sempre apoiou) estar a "impingir" Oriol Junqueras, o seu líder e um dos detidos em Madrid. "Temos que apoiar Puigdemont, se não tudo o que fizemos até agora terá sido em vão", diz o jovem. As alianças começam a desenhar-se quando as urnas fecharem, hoje às 20.00 (19.00 em Lisboa), e começar a contagem de votos.

Enviada especial a Girona

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