Um projeto de jornalismo europeu no DN

Um grupo de nove jornalistas de diferentes países lançou, em 2016, o Investigate Europe, que o Diário de Notícias agora publica

"O mundo de hoje não para nas fronteiras nacionais. Os jornalistas também não deveriam parar." Foi com este mote que, em julho de 2016 - precisamente no mesmo dia 10 em que Portugal ganhou o campeonato europeu de futebol -, um grupo de jornalistas europeus decidiu avançar com uma ideia que os juntava há já algum tempo.

Essa reunião fundadora decorreu em Bruxelas onde, na altura, residia uma das fundadoras do projeto. A discussão mais prolongada então foi sobre o nome. Investigate Europe ganhou, numa das raras decisões tomadas por maioria num grupo que decide tudo por consenso. A equipa ficou fechada pouco tempo depois: Crina Boros, Elisa Simantke, Harald Schumann, Leila Miñano, Nikolas Leontopoulos, Maria Maggiore, Paulo Pena e Wojciech Ciesla são os atuais membros (do grupo fizeram ainda parte Christophe Garach e Jordan Pouille, além das colaborações pontuais de outros jornalistas).

Vindos de França, Alemanha, Grécia, Itália, Noruega, Polónia, Portugal, Roménia e Grã-Bretanha, o grupo pretendia enfrentar um problema que, não sendo novo, crescia na Europa. A maioria dos Europeus, sublinha o manifesto do Investigate Europe, "sabe que nossas vidas são afetadas por acontecimentos além de nossas fronteiras nacionais"; "a maioria sabe que a globalização nos tornou massivamente dependentes uns dos outros e que a Europa nunca esteve tão integrada como hoje." No entanto, as notícias sobre essa dependência são raras nos media europeus. Não existe sequer algo a que se possa chamar de "opinião pública europeia"....

Por isso, desde essa reunião fundadora, os membros do Investigate Europe decidiram que a melhor forma de superar essa lacuna seria trabalharem em conjunto (investigando, entrevistando, partilhando documentos) como se fossem uma redação transfronteiriça. Mas, para chegar aos leitores, ouvintes e telespectadores, a melhor forma seria a de publicarem em meios de comunicação social nacionais, por serem estes que informam os cidadãos nas suas línguas e tendo em conta as especificidades locais, regionais e nacionais de cada tema.

No fundo, Investigate Europe pretende informar o maior número possível de cidadãos sobre temas muitas vezes vistos como "distantes", retirando-lhes o "viés" informativo local que tantas vezes limita o alcance das notícias.

Essa foi, aliás, a razão que juntou esta equipa de jornalistas. Durante a crise financeira dos últimos anos foi quase permanente a presença desse viés na forma como foi contada a história das dívidas nacionais, do Euro e até do modo de vida dos cidadãos portugueses, gregos, irlandeses ou alemães.

Logo em 2016 foram publicados vários trabalhos sobre a nova política de fronteiras da União Europeia - que contaram o drama vivido na Grécia ou em Itália por milhares de migrantes, mas também os problemas colocados aos direitos civis dos europeus com a nova recolha generalizada de dados biométricos e o desperdício de dinheiros públicos em sistemas inoperantes de segurança. Em 2017, a equipa investigou a dependência europeia dos sistemas de recolha de informação norte-americanos e o problema da precariedade nos empregos.

Estes trabalhos foram publicados em vários dos principais meios de comunicação social europeus, além do Diário de Notícias: ARD, Vice, De Standaard, Corriere della Sera, Dagens Arbete, Il Fatto Quotidiano, Falter, Stavanger Aftenblad, Público, Der Freitag, Computer Weekly, Efsin, EU Observer, Fædrelandsvennen, Handelszeitung, La Vanguardia, Info Libre, Marianne, Newsweek, Pod Crto, Der Tagesspiegel, TAZ, Ugebrevet A4, Gazeta Wyborcza, Aftenposten, News Deeply e Mediapart.

O último tema publicado é este que o leitor do Diário de Notícias agora pode ler: o papel de uma empresa norte-americana na definição da futura política de pensões europeia.

Investigate Europe é um projeto gerido pela ONG belga Journalism Fund, que promove projetos de jornalismo pan-europeu. Através do Journalism Fund este projeto tem sido financiado por um conjunto de fundações europeias (nenhum dos financiadores é português). A lista completa de financiadores e montantes pode ser lida aqui.

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