RTP1 atrasa concurso para dar espaço à ficção nacional

A partir de janeiro, o canal transmitirá uma série portuguesa a seguir ao "Telejornal", com "Ministério do Tempo" como projeto-âncora. "The Big Picture" será emitido a partir das 22.00 .

A aposta da RTP1 na ficção nacional anunciada há semanas pelo diretor de programas do canal, Daniel Deusdado, ganha forma a partir do próximo dia 2 de janeiro. Este será o primeiro dia de uma grelha renovada e na qual a série Ministério do Tempo surge como "projeto-âncora". Adaptada do original espanhol homónimo, é uma de três histórias que o responsável vai colocar, aos dias de semana, na primeira faixa do horário nobre, há anos ocupada com concursos de cultura geral.

"As séries em prime time estão a marcar toda a TV na Europa. Para este arranque de 2017 resolvemos dar um passo em frente e fazer aquilo que nos parece ser a atitude consequente com o investimento que temos promovido", explicou ontem o responsável, durante a apresentação das novidades da estação para o início do próximo ano e referindo-se às tramas portuguesas emitidas desde setembro, pelas 22.00.

A Ministério do Tempo juntam-se a sitcom Feitios e a série de humor Sim, Chef! (baseada num formato russo). Haverá ainda uma quarta produção - A Filha da Lei -, da Stopline Films, de Leonel Vieira, que por ser "mais adulta" deverá ser a única a manter-se no horário das 22.00. Ou seja, para já, a RTP1 só não vai emitir séries à quinta-feira, dia reservado para a nova edição de Príncipes do Nada, de Catarina Furtado.

"Colocar ficção às 21.00 é uma aposta que tem um risco", já que "significa alterar um padrão que neste momento funciona: o do concurso". "O The Big Picture [que passará assim a emitir mais tarde, à exceção da segunda-feira, que não irá para o ar por causa de Prós e Contras] é um êxito e estamos satisfeitos com a sua prestação, mas não queremos virar a cara aos riscos e queremos ir mais além", prosseguiu Deusdado, para quem ter séries neste horário "é colocá-las na janela onde podem ter mais público". Conquistar espectadores que "estão fidelizados às novelas" da SIC e da TVI, transmitidas depois das 21.30, permite não os obrigar a escolher um destes dois produtos.

Ministério do Tempo é apresentada pela RTP como uma série de época. Mas a sua história envolve ação, crime e mistério, com uma pitada de comédia. Mariana Monteiro, Sisley Dias e João Craveiro interpretam o trio de personagens principais: uma espécie de detetives cuja missão é viajar pelo tempo - entenda-se pelos quase nove séculos de história de Portugal - e impedir que os acontecimentos do passado se alterem. "Imagine-se que Vasco da Gama nunca tinha entrado na nau e partido para a Índia. Se calhar, Os Lusíadas, de Camões, não existiam", exemplifica Mariana Monteiro.

Para a atriz de 28 anos este é, "talvez, um dos projetos mais ambiciosos" que conhece. "Apesar de tudo, [em Portugal] não temos os orçamentos que gostávamos para poder investir em séries como esta", refere a intérprete, que vê nesta aposta da RTP1 uma oportunidade para os jovens, ávidos consumidores de ficção estrangeira, começarem a ver produções nacionais. "Artisticamente falando é uma oportunidade única. Além de o guião ser formidável, fomos ambiciosos ao pensar que era possível", sublinhou.

Daniel Deusdado assume as dificuldades de se fazer "uma série histórica com dinheiro do presente" e Virgílio Castelo, consultor para a ficção da RTP, não nega os orçamentos são "limitados". "A produção [da Iniziomedia] e a realização [de Bruno Cerveira] teve capacidade de "desenrascanço"", brincou o também ator, afirmando que o rei Felipe de Espanha participou na versão original. "Por este dado percebe-se a dimensão que a série pode alcançar. Nós teremos de convidar o presidente Marcelo [Rebelo de Sousa]."

Ontem à noite, o segundo episódio de Ministério do Tempo - dedicado a Camões - foi exibido para cerca de 400 alunos do 10º ano de escolaridade no Cinema São Jorge, em Lisboa. Uma ação que contou com o secretário de Estado da Educação, João Costa. "Não estamos a falar apenas de uma série. Estamos a falar de um enorme papel que a RTP pode ter no redescobrir da história e na capacidade de criar formatos que ajudem as novas gerações a compreender que os seus heróis não são apenas o Forrest Gump ou o Senhor dos Anéis. Há heróis portugueses que não vão para a tela porque não há dinheiro. Ou seja, é preciso inventar esse dinheiro para os meter na televisão, e é isso que estamos a tentar fazer", concluiu Deusdado.

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