"Muitas pessoas mudaram de vida por causa dos "Príncipes do Nada""

Série documental regressa esta quinta-feira à RTP1 e viaja até quatro países. Catarina Furtado revela que o formato, criado por si há 10 anos, já levou a mudanças quer no terreno, quer nos espectadores

A discriminação em torno dos albinos, a morte materna nos partos, a violência com base no género, a saúde sexual e reprodutiva nos jovens, a gravidez fruto de violações ou a proteção da biodiversidade. Os temas são variados e constituem a base para os 10 episódios da quarta temporada de Príncipes do Nada, a série documental que volta à RTP1 esta quinta-feira, às 21.00, e que foi criada numa sinergia entre Catarina Furtado enquanto Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações para a População e a estação pública.

A apresentadora recorda ao DN que visitou Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor Leste para "acompanhar projetos implementados pelo Instituto Camões [novo parceiro do formato] ou organizações não-governamentais (ONGs) apoiadas" por este, "nas áreas da saúde, educação e ambiente". São assuntos incluídos na agenda da ONU relativa aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que devem ser implementados até 2030, "para se criar um mundo mais igualitário".

Ao longo dos 10 anos da série documental, e da sua experiência no terreno, Furtado conta que ainda hoje fica surpreendida com o que vê quando chega aos locais. "Às vezes, negativamente. Saio dos sítios com muita esperança, porque acredito no ser humano. E quando volto a territórios onde já estive, querendo acreditar que as coisas iriam melhorar, confronto-me com essa não-evolução. Mas também vou a sítios em que a melhoria foi imensa. Os projetos são feitos por pessoas. Há algumas que fazem verdadeiros milagres e outras que, quando desistem, levam a que o projeto acabe no esquecimento", afirma.

A apresentadora adianta que muitas das histórias já contadas no formato, que tem uma equipa de quatro pessoas, são acompanhadas depois mas de forma anónima. "Normalmente, não voltamos lá com o programa porque o mundo é grande e está cheio de desequilíbrios. Mas de forma anónima ficamos sempre com uma ligação", conta Catarina Furtado, revelando que recebe feedback da mudança nas vidas de quem entrevistou. "Muitas vezes, fico a par de histórias de jovens que conheci, que no início estavam a ser apoiados por uma associação e que depois mandam um e-mail a dizer que estão na universidade. Ou de raparigas que começaram a fazer planeamento familiar e adiaram uma gravidez para estudar. Estes casos, que parecem um em mil, são, de facto, o que significa a mudança.", revela.

O retorno dos espectadores também se tem feito sentir. "Os projetos que apresentamos nos Príncipes do Nada podem inspirar outros e o público pode contribuir de alguma forma. Tenho muitos e-mails de pessoas que mudaram de vida por causa dos Príncipes do Nada. Não estou só a falar de voluntariado. Que se candidataram a ONGs, que foram fazer projetos. E isto é mais importante do que qualquer programa de TV, revela.

Há 16 anos nas Nações Unidas

Para além da autoria de Príncipes do Nada e do seu cargo de embaixadora nas Nações Unidas, Catarina Furtado fundou ainda a associação sem fins lucrativos Corações Com Coroa, que preside, dedicada a promover a igualdade de oportunidades. É ao serviço destes três cargos que se sente realizada por completo. "Isso não faz parte da minha profissão, já é parte de mim. Não é possível viver de outra forma e seria igual se não fosse conhecida. Evidentemente, ser uma figura pública permite-me fazer as coisas de uma outra forma e chegar mais longe", conta.

O balanço do cargo de embaixadora nas Nações Unidas, que assumiu há 16 anos, não poderia ser mais positivo. "Foi-me dito que não há nenhuma embaixadora tão antiga como eu. É um privilégio e um orgulho. Não sendo uma coisa diplomática e sendo voluntário, permite-me ver o mundo de outra forma e tentar modificá-lo um bocadinho", revela a apresentadora.

E é também com igual orgulho que viu a eleição de António Guterres como o novo secretário-geral das Nações Unidas. "É um diplomata - sempre foi -, um conciliador e alguém de uma enorme coerência. Toda a vida se preocupou com as desigualdades sociais. Acredito que o seu trabalho não vai ser fácil, porque temos um Trump pela frente. Não só, vários Trumps. O maior dos entraves que terá pela frente são os mundos onde se pensa de outra forma. Quando do outro lado é difícil haver uma resposta, isso é o mais complicado", ressalva Furtado, acrescentando que um dos aspetos que mais gostou nos recentes discursos de Guterres foi "o investimento da área da igualdade de género". "É muito claro que raparigas e mulheres são sempre as maiores vítimas em todas as situações. E a igualdade de género não é só o acesso à educação e saúde, mas também em torno da violência, da mutilação genital feminina", atira a anfitriã do The Voice.

O ex-primeiro ministro, de resto, assume o novo cargo depois de uma década como Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, um tema que marcou a atualidade este ano. Sobre a evolução em 2017, Catarina revela: "Tenho esperança numa mudança, não sei se efetiva. A Europa tem que se envergonhar mais, e essa vergonha tem que ser uma espécie de gatilho para haver novas diretrizes", remata a apresentadora, que regressa ao teatro a 11 de janeiro com a comédia Os Dias Realistas, no Auditório dos Oceanos, Casino Lisboa, ao lado de João Reis, Paulo Pires e Manuela Couto.

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