Mister Brau. A série que está a revolucionar a TV brasileira

Nova trama da TV Globo é protagonizada por dois negros, que fogem ao estereótipo da pobreza e da posição de subserviência.

A história de um casal de músicos no auge da carreira, e que acaba de ascender à classe alta, está a agitar a televisão brasileira. Não por serem dois atores negros os principais protagonistas, mas sobretudo por retratar a vida de duas pessoas negras na condição de novos-ricos. E, segundo os críticos de televisão, isso é que é inédito. Mister Brau é assim a nova série musical da Globo, que se estreou no Brasil no final de setembro e que já pode ser vista em Portugal no Globo Premium - às terças-feiras, às 21.05 - conta com Lázaro Ramos e Taís Araújo nos papéis principais.

A trama, escrita por Jorge Furtado, coloca o dedo numa ferida antiga: a da questão racial. Em 50 anos de existência, esta foi a primeira vez que aquela que é a principal emissora do Brasil decidiu apostar em dois atores negros para protagonizar uma das suas histórias, sem os estereótipos da escravatura ou das favelas associados.

As expectativas da sociedade brasileira é que o negro não tenha orgulho na sua cor e procure um escape, arranjando um parceiro branco

Lázaro Ramos e Taís Araújo, que também são um casal na vida real, dão vida a Brau e Michele, respetivamente. Ele, um cantor de sucesso, ela, bailarina e empresária. E a ação de Mister Brau arranca precisamente com um momento que mostra o preconceito que ainda persiste na sociedade brasileira. Brau e Michelle chegam à luxuosa mansão que acabam de comprar no Rio de Janeiro e são confundidos com ladrões, quando, na verdade, são os donos do imóvel.

A singularidade desta história levou mesmo o jornal inglês The Guardian a dedicar um longo artigo sobre a série. "Este programa retrata um casal negro que é economicamente bem-sucedido", explica o conceituado cineasta brasileiro Joel Zito Araújo, que acrescenta: "Infelizmente, para o Brasil isto é revolucionário." Joel Zito Araújo, que é também doutorado em Ciências da Comunicação, considera que o simples facto de a ficção ter um casal de negros é já um passo em frente. "Existem muito poucos exemplos de histórias de amor entre negros. As expectativas da sociedade brasileira é que o negro não tenha orgulho na sua cor e procure um escape, arranjando um parceiro branco", argumenta.

Não é apenas baseado na sua observação da sociedade brasileira que Joel Zito Araújo fala sobre a revolução de Mister Brau no que toca à ficção do seu país. Para fazer o documentário A Negação do Brasil, em 2000, o cineasta elaborou uma pesquisa e concluiu que 75% dos papéis atribuídos a negros correspondem a posições de subserviência. "Os papéis representam a forma como a sociedade brasileira vê os negros: empregados domésticos, criminosos, a morar em favelas. Ainda hoje é assim."

No ano passado, por exemplo, a TV Globo exibiu a série O Sexo e as Negas, uma versão cómica de O Sexo e a Cidade. Não obstante o facto de ser protagonizada por quatro atrizes negras, a trama acabou por recair uma vez mais no estereótipo da empregada doméstica que é assediada pelo patrão branco ou na mulher com uma baixa instrução académica que vive na favela. Na altura, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Social do Brasil chegou mesmo a abrir uma investigação devido às denúncias de racismo que foram apresentadas relativamente à série, que acabou por ter apenas uma temporada. Sorte diferente está a ter Mister Brau, cujo sucesso fez que já fosse anunciada uma segunda temporada para 2016.

Na ótica de Lilian Schwartz, professora de Antropologia da Universidade de São Paulo, Mister Brau representa um "novo momento" na história do Brasil. "Durante muito tempo as questões da escravatura e da discriminação que permanecem ainda hoje foram tópicos sobre os quais ninguém queria falar. O facto de esta série estar no ar é muito significativo", sublinhou.

A atriz Taís Araújo, por exemplo, tornou-se conhecida do grande público na novela Xica da Silva, produzida pela extinta Rede Manchete, e dava vida precisamente a uma escrava que deixa de o ser por conquistar o coração de um homem rico e poderoso. Recentemente, na novela Lado a Lado, que venceu um Emmy Internacional, Lázaro Ramos vestiu a pele de Zé Maria, um homem que continua a conviver com o preconceito racial mesmo após a abolição da escravatura no Brasil.

Em Mister Brau, tanto Taís como Lázaro estão longe desses tempos. São ricos, famosos e idolatrados por uma legião de fãs. Será este o início de uma nova era na ficção brasileira ou apenas um interregno naquela que tem sido a sua tradição? Só o tempo o dirá. A primeira pedra está lançada.

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