Lília Bernardes. "Dela ficou o som dos pássaros"

Reportou da Madeira para o DN de 1992 a 2014. Nomeada pelo PSD de Jardim como "inimiga da ilha", boicotada e perseguida, nunca vergou. Morre aos 60 anos fora do jornalismo porque o jornalismo a dispensou

Lílhia. Na Madeira, é assim que se diz o nome dela. Ou era assim que ela o dizia, no seu sotaque cantado, ao ligar para o jornal, este, para o qual reportou das ilhas de 1992 a 2014, numa frente de resistência ao jardinismo que lhe valeu, como ao também já desaparecido Tolentino da Nóbrega - o correspondente do Público - ser denominada em 2012 pelo PSD regional, no seu órgão oficial, com foto de cara para poder ser reconhecida em qualquer lado, como "inimiga da Madeira".

"Tentativa de condicionamento da liberdade dos jornalistas, pode constituir uma instigação, nomeadamente para os militantes e simpatizantes do PSD-Madeira, à perseguição dos jornalistas visados", protestou o Sindicato dos Jornalistas, em comunicado. Mas protestou quase sozinho: este atentado à liberdade de imprensa, como muitos outros protagonizados pelo PSD-Madeira ao longo dos 37 anos de liderança de Jardim, foi praticamente ignorado por comentadores e pelo próprio jornalismo, como se ameaçar jornalistas só fosse grave quando a ameaça viesse do governo central. Uma indiferença e uma ausência de solidariedade com que Lília nunca se conformou.

"Sentia-se muito destratada pelo PSD de lá e pelo governo, muito sozinha." Graça Henriques, atual chefe de redação do DN, ouviu muitas vezes as confidências de Lília. "Ela às vezes ligava a chorar. Mas nunca vergou. Uma coisa que era admirável era a coragem dela."

Luís Delgado, que fez parte da direção de Mário Bettencourt Resendes, nos anos 1990, corrobora: "Foi uma mulher aguerrida. Poucas pessoas teriam aquela capacidade de resistência, ainda para mais naquele sítio tão pequeno. Quantas vezes falou do medo que sentia." De tal modo que o DN resolveu criar, em 1995, uma delegação oficial na ilha, de modo a tornar a posição de Lília mais segura. "Havia uma grande pressão política sobre o DN e sobre ela e a direção criou essa formalidade. Porque ela, a princípio, era apenas avençada."

Quase 20 anos depois, no verão de 2014, foi integrada num despedimento coletivo do jornal. Um enorme desgosto para a mulher que, nascida a 5 de março de 1956, entrara no jornalismo tardiamente, em 1991, depois de trabalhar desde os 19 anos, primeiro nos CTT e depois na PT, e de fazer teatro e cinema. Começou por, conta o companheiro, o economista João Abel de Freitas, "escrever para uns suplementos, depois para o DN e também fez muita coisa para TV, na RTP-Madeira". Foi aliás como convidado para um programa seu, Conversas Soltas, que este a conheceu, "há uns 20 anos". Seria ele a apresentá-la a Mário Lino, ex-ministro das Obras Públicas; acabariam por criar um blogue, Puxa Palavra, com Raimundo Narciso. Aí, podia fazer aquilo que, numa entrevista em 2011, dizia faltar-lhe: "Poder ter opinião. Eu escrevo uma vez por mês no DN-Madeira um artigo de opinião, é um trabalho voluntário, mas é também uma forma de dizer que eu estou aqui." Mais à frente, porém, certificava: "É preciso ter algum distanciamento para poder fazer uma análise correta. A minha postura perante o Dr. Jardim é muito clara: eu sou paga para lhe fazer perguntas e ele é pago para me dar respostas. (...) No jornalismo, quando perdemos a imparcialidade, mais vale mudar de profissão."

"Ela era de facto uma jornalista, o que parece uma afirmação lapalissiana, mas não é." Carlos Farinha, atual diretor do Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária, conheceu-a nos anos 1990, aquando da investigação do que ficou conhecido como "o caso de pedofilia da Madeira". "Ficámos amigos. Foi sempre de uma ética e de uma deontologia acima de qualquer erro, sempre com o contraditório presente, e sempre muito crítica, sem concessões. Tenho muita pena de não poder dizer que há muitas lílias neste país."

Nesse processo de abuso sexual de menores, em que as vítimas eram os "meninos das caixas", as crianças de Câmara de Lobos que iam ao Funchal pedir dinheiro, havia vários acusados estrangeiros e alguns foram julgados nos seus países. Um deles era belga e Lília foi fulcral para conseguir representação jurídica para as crianças no julgamento, que decorreu na Bélgica. Era preciso obter informações e pôr as famílias a preencher formulários e foi ela que tratou de tudo, indo a Câmara de Lobos à procura das pessoas. Foi isso que possibilitou que as vítimas viessem a ser indemnizadas.

Curiosamente, um dos filmes em que foi intérprete, Até Amanhã, Mário, de Solveig Nordlund, estreado em 1994, é sobre esses meninos de Câmara de Lobos: ela faz de mãe do protagonista. Outra coincidência, essa irónica , é que tenha terminado a vida a trabalhar como adjunta do presidente do governo regional, Miguel Albuquerque, sucessor de Jardim à frente do PSD-Madeira e do governo. "Comentámos muitas vezes essa ironia da história", diz Albuquerque. "Ela dizia: "Nunca pensei entrar aqui todos os dias, ser este o meu local de trabalho. O que é que ele [Alberto João] há de pensar?"" Desses pensamentos não foi possível saber; já o atual presidente, amigo de Lília há décadas, fez uma nota pública de pesar em que fala da sua coragem e integridade. "Era muito respeitada pela população, teve um percurso de uma integridade profissional absoluta. E era uma mulher evoluída, de vasta cultura, moderna", comenta ao DN.

"O jornalismo é a arte do esquecimento", escreveu Lília no seu Facebook, citando Clara Ferreira Alves, em dezembro: "Absolutamente verdade." Sim, como a vida. Havemos de esquecer tudo e ser esquecidos. Mas agora estamos a lembrá-la. "Quando penso nela oiço pássaros. Tinha-os em casa, ouviam-se ao fundo quando falávamos ao telefone", diz Graça Henriques. "Dela ficou o som dos pássaros."