Jornalista abandona direto após discórdia sobre massacre em discoteca gay

Owen Jones entrou em confronto com o apresentador e a colega de painel, que recusaram reconhecer o ataque em Orlando como um ato de homofobia

Owen Jones, jornalista do The Guardian e homossexual assumido, abandonou uma emissão da Sky News em direto, na qual foi convidado a servir de comentador, depois de o anfitrião, Mark Longhurst, e a outra convidada, Julia Hartley-Brewer, se terem recusado a reconhecer que o massacre em Orlando, Flórida, foi "um ataque intencional à comunidade LGBT".

Na conversa de grupo, Jones foi descrevendo o ato de terrorismo como um "crime homofóbico", enquanto o apresentador e a sua colega de painel insistiam que se tratou de um crime contra a humanidade. "É uma das maiores atrocidades cometidas contra a comunidade LGBT no mundo ocidental e tem que ser tratada como tal", alertou, inicialmente, Owen. Longhurst respondeu, frisando que o ataque foi dirigido a "seres humanos, que apenas estavam a divertir-se, independentemente da sua sexualidade". Hartley-Brewer interveio ainda, dizendo que o assassino poderia ter-lhe dirigido um ataque semelhante, apenas por ser uma "mulher brusca".

Ao fim de vários minutos de discussão, o profissional do The Guardian acabou por perder a paciência. "Estou farto disto", disse, agitado. Removeu o microfone e abandonou o estúdio. Pouco depois, usou o Twitter para lamentar a situação: "Ontem à noite, na Sky News, percebi o quão longe algumas pessoas estão dispostas a ir para ignorar a homofobia", escreveu.

A comentadora, que recebeu várias reações ofensivas na mesma rede social, já se veio defender. "Não aceito que me digam o que posso e o que não posso dizer, porque não vivo num Estado Islâmico", escreveu Julia numa coluna do Telegraph.

Até esta segunda-feira, segundo o The Independent, a entidade reguladora para a comunicação social no Reino Unido - OfCom - já tinha recebido cerca de 60 queixas acerca do programa, sobretudo em relação à postura "desrespeitadora" do anfitrião.

A Sky News prontificou-se a fazer um pedido de desculpas a Jones, algo que Julia Hartley-Brewer também criticou. "Owen Jones não merece um pedido de desculpas e não vai, certamente, receber um da minha parte. Se ele quer continuar a viver num mundo onde as pessoas só podem dizer o que está aprovado na lista oficial de banalidades, então talvez tenham mais em comum com o Estado Islâmico do que ele pensa", escreveu ainda.

O próprio jornalista, numa coluna publicada esta segunda-feira no The Guardian, explicou em maior detalhe as razões que o levaram a abandonar a emissão em direto. Argumentou ainda que se um terrorista cometesse o mesmo crime numa sinagoga, o ato seria indiscutivelmente apelidado de antissemita, e criticou, uma vez mais, o anfitrião do segmento de notícias. "Ele não só se recusou a aceitar este ataque à comunidade LGBT, como foi ficando cada vez mais agitado pelo facto de eu - como homem gay - o contradizer", terminou.