Virgílio Castelo: "Quando Portugal se tornar uma empresa, serei o primeiro a emigrar"

Na semana em que a RTP1 estreia quatro séries portuguesas em horário nobre, o consultor de ficção do serviço público fala dos riscos desta aposta "civilizacional". "Tenho esperança de que as privadas possam seguir este caminho", acredita

A RTP estreia esta semana uma nova linha de ficção, com quatro séries: Mulheres Assim (terça--feira), Os Boys (quarta), Dentro (quinta) e Miúdo Graúdo (sexta). Sempre às 22.00. O que é que esta ficção acrescenta à RTP e aos espectadores?

Uma coisa muito significativa, que é uma estrutura permanente de séries. A ideia é que se consiga, a partir deste investimento da RTP, que num futuro próximo venha a existir em Portugal uma estrutura de produção de séries idêntica à de novelas. Isto só podia ser iniciado pela RTP, mas espero que as privadas também o possam fazer.

Acredita nisso? É muito mais barato investir em novelas.

[Pausa] Acredito. É claro que o que está a dizer é verdade. É muito mais rentável fazer novelas. Por isso é que o arranque desta ideia está a ser feito no canal público. Tenho consciência de que dificilmente um canal privado podia arrancar com o risco que uma aposta destas comporta.

Quais são os riscos?

O primeiro risco é ter poucos meios para criar uma estrutura que não existe. A produção de séries exige novas ferramentas ao nível de argumentos, realizações e produções que comportam riscos. Se as audiências não forem consistentes, o problema é que o negócio não é bom.

Isso preocupa-o?

[Pausa] Preocupa-me no sentido em que há esse risco e que ele pode ter consequências. Mas também convém não esquecermos que houve esse risco quando se fizeram as primeiras novelas portuguesas.

Esta aposta representa um novo paradigma?

Tem de representar, caso contrário é inconsequente. Em Portugal estamos muito presos à ideia de negócio e lucro. Esquecemo-nos de uma série de outras questões. É mais barato produzir novelas? Claro que é. Mas esse é um paradigma sul-americano, não se passa em outro país europeu. Se as privadas acham isso bem, tudo bem... A iniciativa privada é a iniciativa privada.

Mas esse discurso não pode ser lido pelos operadores privados, por algum mercado e por muitos contribuintes como "pois eles só dizem isto porque o dinheiro é do Estado, não tem de haver lucro"?

Nuno, eu não falo em nome da televisão pública. Não sou funcionário da RTP, não sou diretor da RTP. Sou apenas consultor.

Um consultor com autonomia para pensar e desenhar todo o modelo de ficção da empresa. E um consultor que tem peso no mercado porque está há 30 anos dentro dele, e em diferentes hierarquias com poder de decisão.

O serviço público tem de ser um paradigma civilizacional. É óbvio que há sempre apostas que têm de ser pagas pelo erário público. Este país chama-se Portugal, não se chama Portugal, SA ou Portugal, SGPS. Quando Portugal se tornar uma empresa, serei o primeiro a emigrar. Não quero viver numa empresa.

Mas o mercado não é feito só de operadores públicos. Acredita que os privados partilhem essa visão?

[Pausa] Tenho esperança de que os privados possam seguir este caminho. Sobretudo, baseada na revolução tecnológica que está a ser operada por causa da diversidade de plataformas. O público tradicional vai deixar de ser apelativo para os anunciantes. O tipo de pessoas que continuarão a ver novelas é gente sem poder de compra. Os anunciantes vão perceber que para terem os seus produtos a ser anunciados para determinado tipo de públicos não pode ser na novela.

Isso já acontece. O cabo levou a uma segmentação de públicos e de investimento comercial.

Ainda se está no início. Não é por acaso que se fazem séries em todo o lado. Não há outro país europeu com novelas em prime time. É um paradigma de terceiro mundo.

Mas todas as noites há três milhões de portugueses que veem as novelas da TVI e da SIC.

Ainda bem que há esses três milhões. É sinal de que a indústria funciona. Agora, será que esse paradigma ainda vai durar muito tempo? Não sei.

O Virgílio não é só ator. Foi um dos protagonistas da criação dessa indústria e deste modelo vigente.

Verdade. E tenho o maior orgulho no que se criou e de ter feito parte da equipa que revolucionou a ficção em Portugal. Mas não podemos ficar parados no tempo. As novelas servem apenas os interesses comerciais dos hipermercados. Quem tem outro tipo de produto para anunciar tem de ter outros conteúdos para colocar lá a mensagem publicitária.

O cabo, insisto, já faz isso. Mas não com produtos portugueses. Admitamos, em tese, que estes novos produtos criados pela RTP não agradam aos espectadores. Os sinos tocarão a rebate?

Não sei. É uma questão para a direção de programas e para a administração. Como espectador e contribuinte, acharia muito estranho ter uma TV pública igual à privada.

Não tem expectativas para estas séries que começam esta semana?

Não (risos). A única expectativa que tenho é que haja coragem para não desistir. No caso das novelas, houve um arranque, depois foi interrompido. As novelas só começaram a sério quando a TVI pegou nelas em 1999 e não mais parou. Este é um exemplo. É assim que temos de trabalhar. Vamos lá chegar por tentativa e erro. Sou dos que acredita que é da quantidade que nasce a qualidade.

Há massa crítica suficiente no guionismo português?

Há uma nova vaga de gente a escrever bem. Precisamos de trabalhar um bocadinho aquilo a que no teatro se chama a carpintaria dramatúrgica. Temos propostas diferenciadas, com conteúdos artísticos muito valiosos. Falta-nos, do meu ponto de vista, uma estrutura mais eficaz nos guiões. O cinema e o teatro sofrem do mesmo problema.

Podemos sonhar em internacionalizar a nossa ficção audiovisual?

Não temos escala nem mercado para concorrer internacionalmente. Por isso é que temos de ser diferentes. Temos de fazer coisas que possam ganhar escala. Não acho, ao contrário de algumas pessoas, que possamos chegar ao mercado internacional alienando a nossa identidade. A Amália só foi internacional porque era profundamente portuguesa. O Almodôvar só é internacional porque é espanhol. Mais nenhum povo faz cinema como aquele. Ainda temos grandes complexos afrancesados na ficção portuguesa. Só quando isso desaparecer, é que podemos ter uma dimensão internacional. Ou dito de outra forma, não é por fazermos filmes de ação que vamos entrar no mercado americano. É o contrario.

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