"Tive de escolher entre escrever para o Herman ou trabalhar na arca do Pessoa"

Pequeno-almoço com Nuno Artur Silva, administrador da RTP

Arrumamos os carros, com segundos de diferença, no mesmo piso do mesmo estacionamento, quase ao lado um do outro. Coincidência na pontualidade dá este resultado. O percurso pelo Chiado inundado de luz e de turistas madrugadores é feito a conversar mas ainda sobre as agruras matinais de um pai de duas crianças pequenas. Quem já passou por isso sabe das molezas, dos sonos, do tentar vestir depressa, do falta-o-brinquedo-que-quero-levar-para-a-escola. Entramos a rir na Benard, pâtisserie nascida em 1868 que soube adaptar-se ao ar do tempo. Escolhemos a sala do fundo, precisamos de sossego. Adianto desde já um aviso aos pais fartos de ouvir incessantemente no carro as músicas dos filhos : a RTP vai lançar uma rádio infantil, uma app online. Como à frente se verá.

Nuno Artur Silva tem muita vida para contar antes daquele famoso telefonema que recebeu em janeiro do ano passado. Ia a caminho do Teatro São Luiz, onde fazia uma stand-up comedy, de seu título Nuno Artur Silva. A sério? Tinham passado os tempos melhores das Produções Fictícias, andava feliz a escrever, embora um pouco angustiado com o futuro. Do outro lado do telefone, Gonçalo Reis. Podemos conversar? O administrador da RTP não o convidava para diretor de programas, como ele chegou a suspeitar, mas para a administração. A sério, Nuno? Como se dizia nas histórias infantis, se bem o pensou, melhor o fez.

Temos na mesa dois croissants simples, um sumo de laranja e dois cafés, consumidos à medida que a conversa permite, isto é, lentamente. Administrador da RTP, a sério. Entre as razões para ter aceitado o convite, avança duas - primeiro, "a administração não era nomeada pelo governo mas sim por um Conselho Geral Independente formado por seis pessoas respeitáveis"; segundo, tinha falado de televisão nos 20 anos anteriores, tinha escrito opinião, "não podia agora recusar". Havia um outro elemento, afetivo: "Cresci a ver a RTP."

Antes de tomarem posse - Gonçalo Reis na presidência, Cristina Vaz Tomé e Nuno como vogais, tiveram um mês para apresentar um projeto estratégico que teve de ser aprovado. Conta que se apresentaram no dia 8 de fevereiro de 2015 perante os trabalhadores da empresa pública - 1600, atualmente - com quatro ideias-base: "Não há privatização, não há despedimentos, estamos num quadro de estabilidade e o financiamento é estável."

Nuno Artur conhecia a casa, tinha sido, com as Produções Fictícias, produtor externo e autor. Em 1996, fora até assessor criativo de Joaquim Furtado e Joaquim Vieira. Também sabia que iriam olhar a nova equipa com a descrença de quem já viu passar outros por ali. "Havia muita desmobilização e nós quisemos mudar isso, e apostámos em ter as pessoas certas à frente das direções." Todas da prata da casa porque, sendo empresa pública, a RTP não pode fazer contratações novas. "Até agora contratámos cinco, com autorização expressa excecional dos ministérios das Finanças e da tutela." Se há áreas que têm pessoas a mais, em muitas outras acontece o contrário, sobretudo na multimédia. E portanto optaram por dar incentivo à mobilidade interna e à formação.

E é de uma estratégia para estes tempos em que todo o setor da comunicação social está em mudança acelerada - em todo o mundo - que Nuno Artur Silva fala, olhando de vez em quando para o telemóvel que deixou em silêncio mas que tem o ecrã sempre animado. Diz que recebe e-mails numa torrente "avassaladora", não apenas pela quantidade mas pela variedade dos temas. Responderá depois - "até porque já percebi que resolvemos um problema e logo a seguir surge outro".

Fala com entusiasmo da complexidade de conquistar diferentes públicos. "Sabemos que 75% dos espectadores da RTP 1 são inativos, isto é, pessoas mais velhas, reformadas, desempregados, crianças, muitos com as televisões ligadas para ter companhia ao longo do dia. Queremos ir buscar os outros."

Os outros são os que veem outros canais, quer no cabo quer através de outros meios. Hoje, ligar a televisão não é a única maneira de ter acesso aos conteúdos. Os espectadores podem optar por outros ecrãs e escolher os horários. E se a larga maioria está garantida, é às várias minorias que a RTP quer chegar: "Queremos que as pessoas vejam da maneira que quiserem, quando quiserem. É pouco razoável concentrar todo o fogo na emissão às dez da noite. Hoje, há dois movimentos, o linear - as coisas que estão a acontecer àquela hora, os talk shows da manhã e da tarde, a televisão informativa, e isso é está nos canais de sinal aberto, em direto. E depois há a produção de conteúdos vistos às horas e nos ecrãs que se quer - as séries, os filmes, os desenhos animados, os programas de humor, os documentários."

Toda a estratégia se fundamentava na ideia de serviço público. "Dizem que o serviço público não faz sentido porque há tudo na internet. Não é verdade. A RTP tem a obrigação de ter o melhor do mundo e o melhor de Portugal. Mas não é só ter esses conteúdos, é preciso ter uma articulação que faça sentido. Estamos a emitir as peças de Shakespeare, nas noites de sábado, na RTP 2. Uma série de qualidade americana fazia mais audiência. Mas a questão é dar a pessoas que estão em Bragança ou em Vila Real de Santo António a oportunidade de ligarem a televisão e terem acesso ao cânone dramático mundial feito pelo Globe Theatre, de Londres, e depois verem um documentário sobre o Shakespeare."

E aí está o desafio principal: "Uma telenovela faz um milhão de espectadores, menos do que há uns anos, mas dificilmente se prolonga no tempo, enquanto um programa de humor pode ser visto daí a 20 anos. Quando se avalia as audiências do serviço público, não se pode ter em conta apenas as medições lineares. Queremos ser avaliados não só pela audiência, que é importante, mas sobretudo pelo impacto, a qualidade, a inovação, a diversidade, a capacidade de chegar a diferentes públicos. Estes parâmetros têm de ser colocados em cima da mesa ao mesmo nível que as audiências."

A RTP, explica, "é não só uma difusora mas também produtora e coprodutora. Chamamos--lhe a casa da rádio e da televisão, uma casa que tem muitas portas por onde se pode entrar. Uma empresa de media que não invista no digital não faz sentido. Ainda há quem pense que o importante é a RTP 1 e o resto é secundário. Isso é o contrário do que defendemos. A RTP é um conjunto de canais de rádio, de televisão e cada vez mais de canais multimédia." E daí que gestos simbólicos, como estrear séries "primeiro (ao meio-dia) no online, e só à noite na emissão".

Algumas mudanças já foram feitas, outras vêm aí: "Vamos lançar uma rádio infantil, uma app online, para os miúdos ouvirem no banco de trás do carro, por exemplo, e um canal de música pop online à volta da Antena 3. Estamos a fazer muitas coisas que só se vão perceber daqui a dois anos."

Outra alteração significativa tem que ver com a RTP Internacional. "As comunidades de emigrantes portugueses mais tradicionais querem uma programação mais popular, mas os novos emigrantes não se reveem nisso, querem sobretudo informação e desporto. Em vez de concentrarmos tudo na RTP Internacional, cada vez mais vendemos um pacote de canais. Quase 30% dos acessos à RTP Play são feitos do estrangeiro. Remodelámos o site da RTP, que é mais de informação. Ainda no primeiro semestre deste ano, a oferta para os emigrantes na América do Norte será a RTP Internacional e também a RTP 3, a RTP Madeira e a RTP Açores."

Também é sintomática na opção pela produção de séries e não de novelas de intriga simples. Oito para este ano, incluindo as duas já estreadas - Terapia e Aqui tão Longe. "As próximas são, no verão, Miúdo Graúdo, em setembro Boys, uma comédia nos bastidores da política, e depois Dentro, sobre prisões femininas."

Com o cargo que ocupa, as mil ideias de ficção de Nuno Artur Silva acumulam-se no tinteiro. Não foi esta a primeira vez que mudou o rumo da vida de forma inesperada.

Nascido em Lisboa a 5 de outubro de 1962, formou-se em Línguas e Literaturas Modernas e deu aulas de Português - "e adorava dar aulas" - em escolas secundárias durante sete anos. Imaginava que seria essa a sua vida, dar aulas e escrever peças de teatro, poesia, ficção. "De repente, chegou um momento em que tinha de decidir se ia escrever para o Herman ou trabalhar na arca do Pessoa." Exatamente: a pessoana Teresa Rita Lopes convidou-o para trabalhar "na arca de Pessoa" mais ou menos ao mesmo tempo que José Nuno Martins encontrou qualidade nas propostas que Nuno Artur Silva enviara para a RTP anos seguidos sem resposta. "Quando eu disse ao meu pai que ia deixar o vínculo da função pública de professor efetivo e formar uma empresa de escrita, ele perguntou-me: para fazer o quê?! E depois deu-me todo o apoio."

Tudo correu bem, como se sabe, com as Produções Fictícias, e chegou o Canal Q. "Mandámos um e-mail para a HBO a perguntar porque não tinham um canal em Portugal, e depois disso andámos um ano em negociações, entre Miami e Lisboa. Eles adoraram a nossa história porque também tinham começado por ser uma empresa de argumentistas. Iam comprar o canal, que se chamaria HBOQ, abriam um canal novo e compravam 1% das Produções Fictícias. Só faltava assinar o contrato e caiu tudo quando apareceu a troika, porque a HBO não investe em países intervencionados pelo FMI. Entretanto Miguel Relvas tomou conta da pasta da televisão e passámos a indesejados na RTP. Tive de fazer despedimentos, as Produções Fictícias ficaram pequeninas. A vida de produtor é isto."

E então chegou a stand-up comedy. E o telefonema. A sério?

Pastelaria Benard

› 2 croissants simples

› 1 sumo de laranja natural

› Dois cafés

Total: 10,90 euros

Ler mais

Premium

João Almeida Moreira

Bolsonaro, curiosidade ou fúria

Perante um fenómeno que nos pareça ultrajante podemos ter uma de duas atitudes: ficar furiosos ou curiosos. Como a fúria é o menos produtivo dos sentimentos, optemos por experimentar curiosidade pela ascensão de Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita do PSL em quem um em cada três eleitores brasileiros vota, segundo sondagem de segunda-feira do banco BTG Pactual e do Instituto FSB, apesar do seu passado (e presente) machista, xenófobo e homofóbico.