"País Irmão": ainda poderá uma novela fazer parar um país?

Política, religião, entretenimento, jornalismo, lusofonia: nada escapa à sátira de "País Irmão" a série que se estreia hoje na RTP1. Os autores definem-na como "comédia dramática".

Existe um "caso que não se pode mencionar" e que, adivinhamos, será uma qualquer ilegalidade envolvendo muito dinheiro e gente poderosa do Governo. O escândalo poderá rebentar a qualquer momento. E, para evitar que o escândalo tome conta do país, a ministra da Cultura tem uma ideia: vamos distrair a opinião pública; vamos fazer uma novela, uma grande novela, e vamos fazê-la com quem sabe, os brasileiros. Será uma espécie de Gabriela ou de Roque Santeiro. Ou ainda maior. É assim que começa País Irmão, a série que se estreia esta noite, às 21.00, na RTP1.

É difícil dizer exatamente sobre o que é País Irmão. É sobre política mas também é sobre novelas, é sobre a relação entre o Brasil e Portugal mas também é sobre as diferenças geracionais, é sobre a sociedade contemporânea mas também é sobre a nossa história, é sobre o fanatismo religioso mas também é sobre jornalismo, é sobre o mundo do entretenimento mas também é sobre um pai, José, e um filho, Luís (interpretações de José Raposo e Afonso Pimentel) que estavam desavindos e que, de repente, se encontram a trabalhar juntos na produção desta super-novela.

A ideia inicial foi de Tiago R. Santos e João Tordo, a que depois, quando Nuno Artur Silva, administrador da RTP, deu luz verde ao projeto, se juntou Hugo Gonçalves. Dos três autores, Tiago é o que tem mais experiência de guionismo (de filmes como Call Girl, de séries como Jornalistas, Liberdade 21 ou Conta-me Como Foi): João, embora seja mais conhecido pelos seus romances também já trabalhou para televisão (por exemplo, em Pai à Força ou Cidade Despida); para Hugo, jornalista e escritor, foi uma estreia. Amigos há mais de 15 anos, encararam esta como mais uma aventura em conjunto: no ano passado, enquanto a seleção nacional de futebol jogava para se sagrar campeã da Europa, eles juntaram-se numa casa, a escrever os primeiros diálogos de País Irmão nos intervalos dos jogos. Traziam consigo as vivências de uma geração que viu muitas telenovelas brasileiras na infância e descobriu a Internet quase na idade adulta, e as memórias de séries tão diferentes como Quem Sai Aos Seus, Sopranos, Sete Palmos de Terra, The Wire, Louie. E tinham uma determinação: "Queríamos fazer uma coisa diferente do que se vê em televisão em Portugal", explica João Tordo. "Uma série autoral, que fosse profundamente nossa."

O tom é difícil de definir. Tiago R. Santos admite que se trata de um "híbrido". A chamar-lhe alguma coisa seria "uma comédia dramática": "Acontecem coisas estranhas e absurdas, que podem ter piada, e a série tem um olhar muito satírico sobre a sociedade. É uma série irónica e desconstrutiva, mais do que cómica. Há episódios com muita piada, mas também não temos medo dos momentos dramáticos. É muito sustentada na realidade e nas personagens que construímos. Demorámos muito tempo a pensar as personagens para podermos sustentar a comédia nas personagens em vez de sujeitar as personagens à comédia."

"É uma sátira onde ninguém está incólume", diz Hugo Gonçalves. "Desde religião, política, entretenimento, jornalismo, redes sociais, homofobia, paramos em todo o lado." Está tudo ligado porque, como diz Tiago R. Santos, "as novelas, a religião, a comunicação social estão todos a criar narrativas para distrair as pessoas e direcionar os pensamentos". São meios de "entorpecimento" da população.

E já que falamos de narrativas, é óbvio que se vai desconstruir essa ideia do "país irmão": "Temos uma ideia romantizada do Brasil, baseada nas novelas, na música, na literatura, é um Brasil idealizado, mas o país não é só essa exuberância e exotismo. Há muitos clichés de ambas as partes e nós tiramos partido disso tudo", garante Hugo Gonçalves, que morou quatro anos no Brasil e sabe bem do que fala.

São 18 episódios: "nos primeiros, as personagens são como se estivéssemos na pré-produção da tal novela; e depois acompanhamos essa produção, com rodagem entre Portugal e o Brasil. Vão chegando novas personagens que vão trazendo as suas histórias, e tudo se cruza. "Pode levar algum tempo e precisa de investimento por parte das pessoas para perceberem toda a teia de personagens e acontecimentos. É uma série como um romance. Só no final é que tens a recompensa", explica João Tordo.

Com produção da Stopline, de Leonel Vieira, País Irmão conta com realização de Sérgio Graciano e um elenco de luxo que inclui: José Raposo (veterano produtor de algumas novelas, apaixonado pelas telenovelas brasileiras), Afonso Pimentel (um jovem que sonha ser realizador), Virgílio Castelo (estrela portuguesa de Hollywood), Victoria Guerra (jornalista), Margarida Marinho (ministra da Cultura), Dinarte Branco (assessor da ministra), Filipa Areosa (assessora do assessor da ministra), Nuno Lopes (um facilitador, homem de quem sabe pouco mas resolve problemas), Maria João Bastos (atriz da novela)

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