Otimismo e alívio na transição dos novos estúdios da TSF

Quatro elementos da equipa fecharam a emissão na redação da Matinha, ao fim de 18 anos. A rádio prosseguiu nas novas instalações, que permitem fazer "cada vez melhor"

"Há sempre qualquer coisa que eu tenho de fazer, qualquer coisa que eu devia resolver. Porquê? Não sei. Mas sei que essa coisa é que é linda." Com letra de José Mário Branco, o tema Inquietação, interpretado por Camané, foi o primeiro que se escutou na TSF emitida a partir das Torres de Lisboa, a nova casa da rádio. Com muita coisa por fazer e resolver, a madrugada de domingo ficou marcada pelo otimismo e alívio.

O relógio marcava poucos minutos depois das duas da manhã. Os quatro elementos da equipa da TSF que estavam nos estúdios da Matinha, a sede da estação nos últimos 18 anos, ouviam com alívio a emissão arrancar a partir das Torres de Lisboa, depois de um contratempo que deixou a rádio calada durante breves segundos. "Quando se trabalha numa rádio que é feita toda em direto, há sempre percalços. O tempo que mediou a passagem da Matinha para as Torres de Lisboa não foi tão diferente do espaço que acaba por mediar a chamada para um repórter na rua e a entrada do mesmo em antena", explicou o diretor da TSF, Arsénio Reis.

O terceiro piso do Edifício Altejo, na Rua 3 da Matinha, é labiríntico, com portas escancaradas de cabinas vazias de gente. O espaço está desarrumado, sinal de que ali não se volta. Há caixotes com livros e material velho, cujo destino não parece totalmente definido. As mesas mostram-se descobertas, ocupadas por telefones que não seguem para a nova casa de quem os usou durante quase duas décadas.

"Sabes o que tens de fazer depois da uma [da manhã]?", perguntou o técnico José Manuel Cabo ao animador de serviço. "Calma, uma coisa de cada vez", retorquiu Francisco Mateus. A questão prendia-se, naturalmente, com a passagem de testemunho, que iria ser assinalada no noticiário escrito pelo editor Hugo Neutel. Assim se esperava, assim não aconteceu. Problemas de ordem técnica levaram a "mais 50 minutos de angústia", como lhes chamou o experiente Francisco Mateus. A razão do atraso "foi sobretudo uma questão de precaução: havia algumas dúvidas, da área da técnica, não tendo a certeza de que as coisas iam funcionar a 100%", contou Arsénio Reis.

O tempo não se fez perceber durante a hora entre a uma e as duas da manhã, pautada por telefonemas entre estúdios, cigarros, explosões na Turquia e a antecipação do derby lisboeta.

"Este será o último noticiário que escutará nos estúdios da TSF na Matinha", anunciava Hugo Neutel, com um tom de quem está a fazer algo pela última vez. Tom esse impercetível para os ouvintes, que apenas sabiam porque lhes havia sido dito. Mas quem estava presente sentia a emoção a contornar cada movimento fonético do editor de economia. "A TSF abandona a zona da Matinha, onde esteve durante quase duas décadas. Esta rádio muda de instalações mas não de perfil. Na Matinha, nas Torres de Lisboa, no fim da rua ou no fim do mundo, na notícia, reportagem, entrevista, debate, análise, opinião, mas também na música e no humor, somos e seremos TSF" foi o último som que se ouviu no noticiário.

Francisco Mateus, depois de um pedido de privacidade, abriu, sozinho, no já algo descarnado estúdio, o canal para Filipa Assis, que então fez entoar Inquietação, cuja letra versa sobre a mudança. A escolha, contou a animadora de serviço, foi própria e propositada.

O noticiário das três da manhã alinhava-se pelos dedos determinados da jornalista Rita Pereira. Envolta num estado de "nervosismo controlado e de muito otimismo", os acontecimentos na Turquia e na Nigéria e o Benfica-Sporting representavam muito mais do que a atualidade. É "algo que fica para sempre" com a jornalista que fez o primeiro noticiário da rádio do Global Media Group a partir das Torres de Lisboa.

Antes disso, nove pessoas preenchiam o moderno estúdio. Notava-se desconforto. O equipamento novo levantava dúvidas técnicas. "Levas uma vida inteira a fazer de uma maneira...", desabafava Filipa Assis. A redação, ainda por estrear na sua plenitude, perpetuava uma atmosfera cujo cheiro da tinta nas paredes ainda é impossível de não notar, mesmo com tanto a acontecer. Ao longo do espaço, há cadeiras à espera de sítio para ficar, televisores por montar, uma casa por arrumar e, nisto, está "uma emissão no ar enquanto se testam e afinam os pormenores".

As mesas de ambas as redações são o denominador comum. Se num lado surgem irreversivelmente despidas, do outro apresentam--se por vestir, à espera de jornalistas-alfaiates. A TSF está preparada para novos desafios.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.