O jornalista com raízes goesas que dividiu o Paquistão

Cyril Almeida foi impedido de sair do país, depois de uma reportagem sua ter desagradado ao governo e aos militares. Mas os media e a sociedade civil vieram salvá-lo

Cyril Almeida, o homem que dividiu o Paquistão. De um lado, o governo e as forças armadas que o colocaram na lista de controlos de saídas do país, na sequência de uma reportagem sobre um alegado conflito entre as lideranças civis e militares. Do outro, os media e a restante sociedade que vieram em sua defesa e que, dias depois, conseguiram restaurar-lhe a liberdade.

"Ao reiterar o seu apoio total à liberdade de imprensa e à independência dos media, o ministro do Interior [Nisar Ali Khan] ordenou a remoção do nome do jornalista da lista de controlo de saídas", anunciou o ministério paquistanês em comunicado. A decisão foi tomada há cerca de duas semanas, depois de Khan ter debatido o assunto com representantes da indústria dos media, entre eles a Sociedade de Jornais do Paquistão (APNS) e o Conselho dos Editores de Jornais do Paquistão (CPNE).

O conflito despontou no início deste mês, quando o repórter de Dawn, prestigiado diário paquistanês publicado em inglês, escreveu a seguinte manchete: "Ajam contra os militantes ou enfrentem isolamento internacional, dizem os civis aos militares." O jornalista alegava que o governo de Nawaz Sharif havia deixado um alerta às forças armadas para que agissem contra grupos extremistas situados em regiões próximas, como a Índia ou o Afeganistão.

Do profissional que deixou em alvoroço aquele que é considerado um dos países mais perigosos para jornalistas, pouco se sabe. Nas veias corre-lhe sangue de Goa, antiga colónia portuguesa na Índia, mas foi na cidade paquistanesa de Carachi que nasceu e cresceu.

Os seus familiares foram dos primeiros habitantes goeses a criar raízes no país vizinho, em 1947. "Essas são as origens de Goa no Paquistão", explicou Cyril, no ano passado, na sua terceira visita consecutiva ao Festival de Artes e Literatura da cidade indiana.

Fluente em inglês e urdu (língua nacional do Paquistão e oficial em seis estados da Índia), Almeida faz questão de se manter próximo da antiga colónia lusa. "As pessoas em Goa são muito queridas e têm imenso interesse em saber como é o Paquistão."

Para o repórter, que tem como ídolo o jornalista goês Anthony Mascarenhas, existem, no entanto, duas Goas: "Uma com festas e praia, e outra mais tradicional que gira em torno da comunidade e da Igreja Católica." Mas há algo mais que o fascina. "Adoro a vibração intelectual que se vive aí. E, claro, as comidas tradicionais que a minha avó costumava cozinhar."

Quanto à sua situação no Paquistão, pode estar novamente regularizada, mas a imprensa local frisa que os militares continuam incomodados com a reportagem e que Cyril é um "homem livre". Por agora.

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