Luís Aleluia: "A RTP é um serviço público armado ao fino"

A uma semana do dia em que passam 20 anos da estreia de "As Lições do Tonecas", Luís Aleluia fala da busca incessante pelo pote de ouro no fim do arco-íris. E continua sem entender o final de "Bem-Vindos a Beirais".

Duas décadas depois, o Menino Tonecas ainda existe?

Existe. Pelo menos, com a mesma disposição de encarar a profissão. Quando fizemos As Lições do Tonecas tinha menos 20 anos, estava com 36. Deu para encarar a vida e a atividade com outra perspetiva.

Com que perspetiva?

(pausa) Mais ponderada, menos sonhadora. As coisas nunca são tão glamorosas como muitos pensam. Se calhar, como nós próprios pensávamos quando começámos.

Era um sonhador naquele tempo?

Era. Os atores são todos uns sonhadores. Estão sempre à procura do pote de ouro no fim do arco-íris. E acham que vão encontrá-lo.

O Luís encontrou-o?

Vou encontrando-o, sobretudo o ouro metafórico desta caminhada: os afetos, sorrisos, reconhecimento, palmas. Nunca me movi pelo resto.

Mas o sucesso de três anos de Tonecas (1996-99) serviram para aumentar essa ilusão?

Quando se tem um grande sucesso como aquele foi, à época, a tentação é pensar: "a partir de agora, é sempre a subir". Depois percebemos que não. Umas vezes é a subir, outras é a descer. Tive o privilégio de conseguir manter. Mas há muitos colegas e carreiras que tiveram um pico e depois foi sempre a descer.

Está há três mandatos na Casa do Artista. Tem convivido com muitos casos desses. Essa queda, às vezes vertiginosa, é dolorosa?

Muito dolorosa. Tenho contacto diário com pessoas que tiveram carreiras excelentes e que depois têm um ocaso profissional. A euforia dos picos de carreira é uma coisa muito efémera, e é preciso estar preparado para o esquecimento. A prateleira gera sempre grandes mágoas.

E como é que se gere essa mágoa?

Com muita ponderação e preparação. Os atores são egos fortes, mas tem de haver uma grande disciplina interior. E às vezes apoio psicológico. Por acaso, temos na Casa do Artista um caso de grande lucidez intelectual. É uma atriz de que gosto muito, a Anna Paula, que já tem 87 anos. E ela virou-se para mim e disse: "Luís, já terminei a minha carreira". Respondi-lhe: "Mas os artistas não terminam a sua carreira. Terminam quando morrem". E com uma extraordinária lucidez, a Anna Paula respondeu-me: "Não, por opção terminei. Nesta idade não quero ficar à espera que o telefone toque, ou que me convidem para fazer de bisavó só para me ajudarem. Tem de ser pelo meu talento, não por caridade. Já estou cansada, não quero esperar mais. Por isso, terminei".

É um caso raro, esse.

Muito raro. Perceber que chegou o fim não é fácil. Ainda por cima, porque os artistas não têm muita proteção social. Alguns ficam completamente desamparados. Continua a haver uma grande descaracterização da profissão. Repare, nós nem carteira profissional temos.

Falávamos há pouco dos picos de carreira. O seu foi o protagonismo de As Lições do Tonecas. Daqui a uma semana, passam 20 anos desde a estreia na RTP1. Na rua ainda lhe chamam Tonecas?

(risos) Sim, alguns nem me conhecem pelo meu nome. Apesar do cabo Júlio, de Bem-Vindos a Beirais, também ter tido sucesso, a minha imagem ficou marcada para sempre ao Tonecas. E isso tem sido bom para o teatro, por exemplo, que é a minha outra e verdadeira paixão.

A sua imagem da televisão continuar a "subsidiar" o teatro?

Sim. Há muita gente que me vai ver ao teatro por ser o Menino Tonecas. Dizem isso com carinho. Mas sabem que os meus espetáculos são sempre divertidos. As pessoas sabem que não sou apenas o Tonecas. Este tempo, esta maturação, não me obriga a estar sempre a provar que já sou ator, mas obriga-me a continuar a ser exigente comigo próprio.

Tem saudades daquele tempo?

Tenho, já para não falar do Morais e Castro, que era o professor, e que já não está entre nós. Tenho saudades do tempo, do grupo, da inocência. Mas não fiquei lá parado no tempo. O mais curioso é que quando vejo um ou outro episódio (pausa), acho engraçado, mas já muito passado.

O país mudou muito.

Muito, muito. E aquele humor, aquelas piadas, são muito datados. Quando hoje vejo um episódio, verifico que aquilo que há 20 anos foi um sucesso tão grande, hoje é básico (sorrisos). Isto é natural, é um sinal da evolução dos tempos. Mas estou convencido, apesar disso, que se a RTP tivesse possibilidade de colocar no canal Memória a série, ela teria um relativo êxito. Mas não é possível. O programa tem direitos reservados.

O fim de Bem-Vindos a Beirais já foi digerido?

(pausa) Temos de respeitar os critérios dos programadores. Mas sabemos que há critérios que são pessoais. Há um estigma em relação aos atores populares. E claramente houve quem na RTP pensasse que Beirais, que chegou a a ter um milhão de espectadores, era "popularucho" de mais para tamanha intelectualidade. A Ivone Silva e o Camilo de Oliveira tinham uma frase muito interessante do Sabadabadú, que era: "É um país a armar-se ao fino".

Levamo-nos muito a sério?

Demasiado a sério. Todos. É um país altamente preconceituoso em relação às próprias origens. Beirais é Portugal. Pode não ser o Portugal de Lisboa, mas Portugal não é só Lisboa. O segredo do sucesso do programa foi esse. Aquilo era Portugal. Era popular? Era. Mas a comédia popular não é exclusivo de Portugal. Existe em Espanha, em Itália. Por que raio não pode e não deve existir no serviço público em Portugal?

Porquê?

Não sei. Os atuais responsáveis da RTP acham que não querem aquele tipo de espectadores que gostavam de Beirais. Não querem este tipo de programas. É o mesmo que dizer que não querem este tipo de povinho. É dizer que há portugueses de primeira e de segunda. Como se num canal público não fosse conciliável uma linha de programas mais popular e outra mais evoluída.

A RTP concilia-as, apesar de tudo.

Não sei se concilia. A RTP é um serviço público, como dizia a Ivone e o Camilo, "armado ao fino" (gargalhada). São "os donos disto tudo" (nova gargalhada). Atenção, não tenho nada contra os colegas do DDT [Donos Disto Tudo].

Mas isso amargura-o? Entristece-o? Enraivece-o?

(pausa) Não. Essa maturidade de que falava há pouco permite perceber que tudo é mutável. Daqui a pouco estes "donos disto tudo" deixam de o ser. Elogio a coragem, até contra ventos e marés, do Hugo Andrade e Nuno Vaz, que apostaram em pessoas arredadas da TV e num produto que era o espelho do país.

E no entretanto, continua com o teatro, onde tem tido sucesso.

Desse ponto de vista, Portugal cresceu muito. Houve grande investimento por parte das autarquias na reconstrução e na requalificação de equipamentos culturais. Hoje há excelentes espaços por todo o país e temos enchido salas atrás de salas.

Aí, nesse Portugal real, não há preconceito?

(sorriso) Há. Temos lutado muito contra isso. Há gestores culturais que torcem o nariz à nossa ida. E há uns que preferem ter auditórios fechados do que uma casa cheia e fazer dinheiro com comédia popular.

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