João sobre Rodas. O primeiro youtuber com paralisia cerebral

João Batalha procurava um rumo na vida e ao ter dificuldades em encontrar emprego, viu no YouTube a forma de ser feliz. Agora quer mostrar a sua realidade e dar voz a outros

Ser ele mesmo. Perante as dificuldades em arranjar um emprego que se adequasse à sua condição, João Batalha tornou-se o João sobre Rodas, o primeiro youtuber português com paralisia cerebral. Aos 29 anos não hesita em dizer o que pensa, mas não quer apenas dar voz aos seus problemas. João quer ser a voz de quem precisar. E, talvez tão ou mais importante, quer demonstrar que, apesar de todas as dificuldades que encontra no dia-a-dia, é possível concretizar os sonhos, que é possível fazer o que faz cada um feliz. Como o próprio realça: ser ele mesmo.

Foi uma mensagem que quis deixar bem clara ao explicar porque escolheu o "nome artístico", como o descreve, de João sobre Rodas. "Com estas rodinhas [cadeira de rodas] chego a todo lado, com degraus, sem degraus... Em vez de demorar cinco minutos, demoro uma hora... Mas chego lá. Com mais ou menos dificuldades, eu chego a todo o lado. Todos chegam lá. Todos conseguem chegar aos sonhos que têm, grandes ou pequenos. Pode é demorar mais ou menos tempo", salientou ao DN. Para João, o YouTube acabou por ser o que lhe trouxe a felicidade no momento em que procurava um rumo. Como o próprio realçou, gosta de trabalhar, de ganhar o seu dinheiro.

Passou pelo IKEA e pela Vodafone, "mas essas oportunidades chegaram ao fim". "O canal de YouTube surgiu porque estive um longo período de tempo em que arranjar um trabalho dito normal - sair de casa, trabalhar numa empresa, fazer o que é se suposto fazer - tornou-se um pouco complicado. Achei importante criar uma situação em que eu pudesse ser eu mesmo", explicou. Imediatamente acrescentou que "está na moda criar o canal de YouTube, falar do que apetece falar e dar voz aos assuntos que interessam" a cada um e o João viu na plataforma uma oportunidade para fazer algo novo na vida. O pai de João teve o seu papel: "Andava há uns três anos a dizer que eu devia fazer alguma coisa relacionada com a internet já que passava lá tanto tempo a ver o que os outros andavam a fazer!"

O primeiro pensamento de João foi quem iria querer ouvi-lo. Mas avançou com a ideia e gravou "Quem é este e que faz ele aqui". A aventura começou há cerca de dois meses e desde então que uma vez por semana publica um vídeo, contando com 80 subscritores. Contudo, mostrar como é viver numa cadeira de rodas e com paralisia cerebral não se limita aos problemas do dia-a-dia. João também gosta de experiências gastronómicas, por exemplo, e não esquece como o Ritz lhe abriu as portas para fazer aquilo que diz agora ser o seu trabalho de que tanto gosta. "Criei o canal para mostrar que lá por ter uma deficiência não significa que não tenha uma vida igual à dos outros." Planos não faltam, garantiu, como fazer uma viagem sozinho, que não será a primeira, mas desta vez poderá partilhá-la no YouTube. "Novos conteúdos não vão faltar", prometeu, para juntar à análise da Uber e táxis, à questão das acessibilidades na sua zona em Alfragide...

Não esconde a euforia, como descreveu, que está a sentir com o seu canal e por todas as novas experiências que está a viver. João já não pensa em ter o tal "trabalho normal", pois encontrou a felicidade ao ser youtuber. "Não existem guiões, não existem diretivas, não há ninguém que diga 'isto não podes dizer'. Falando bem ou mal das coisas, eu achei que seria uma maneira de dar voz aos meus problemas, que são os problemas de muita gente, que sofre do que eu sofro, de paralisia cerebral mais ou menos grave, ou de outros tipo de paralisia", afirmou. E acrescentou: "Realiza-me como pessoa e espero conseguir dar voz às pessoas que se calhar não têm tanta vontade de aparecer frente a uma câmara e dizer olha eu tenho um problema."

Faz quase tudo sozinho, a partir do seu quarto. Quando é necessário tem amigos que o ajudam nas filmagens, como nas idas aos restaurantes, mas tudo o resto é um esforço e uma dedicação pessoais. Porém, falou como lhe falta ganhar maior conhecimento de tudo o que pode fazer no seu canal e não hesita em pedir conselhos a quem conhece melhor a plataforma.

Não faz dinheiro com o canal, esperando que talvez um dia isso possa acontecer e assim ter o seu sustento. Porém, é perentório: "Não é o que importa neste momento. O que importa é que as pessoas continuem a contribuir para o crescimento da minha comunidade. Continuem a dar ideias e a deixar comentários." João gosta de ser ativo e recordou como sempre quis trabalhar e ganhar o seu dinheiro, sem estar à espera de ajudas do Estado. Mas um emprego era também mais do que ter um ordenado. "Sempre fui sociável e muito interativo e era do que eu gostava no trabalho. Eu era telefonista. Era o meu trabalho e sempre tive orgulho no que fiz. Durante algum tempo tive pena [de não fazer], mas agora não quero voltar", reiterou.

Não se vê como um exemplo, pois afinal considera que "apenas" está a ser ele mesmo, alguém decidido, "sem papas na língua" e motivado para dar voz também a outros. "Eu nasci assim. Nunca conheci o que era andar a pé. Se nunca conheci também não me faz muita falta. Só se sente falta do que se teve. Não sei se quero ser exemplo, mas quero inspirar as pessoas a fazer alguma coisa por elas. Se eu consigo com estes problemas todos e mais alguns, os outros também conseguem, com mais ou menos dificuldades conseguem fazer algo que os realize."

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