"Grace and Frankie" obrigou Jane Fonda a ter aulas

Comédia de Marta Kauffman regressou ao Netflix para a segunda temporada. O DN falou com dois protagonistas. Ao fim de 50 anos de carreira, atriz diz que ainda é "insegura em tudo"

Que uma atriz de 78 anos pague para ter aulas de interpretação para a sua primeira série televisiva não é uma enorme surpresa, embora seja um pormenor interessante. Que essa atriz seja Jane Fonda, que começou a sua carreira na Broadway e no cinema na década de 1960 é que é inesperado. Mas foi isso mesmo que fez a estrela de Grace and Frankie, a série original da Netflix que regressou na sexta-feira passada ao serviço de streaming para uma segunda temporada.

O DN falou com Jane Fonda e Sam Waterston, outro protagonista da história, num evento da Netflix em Los Angeles, nos Estados Unidos. Fonda, que esteve em Portugal em abril, explicou porque é que pediu ajuda. "Sou muito insegura em relação a tudo. Não tinha a certeza de que as piadas eram engraçadas e as partes sérias iam funcionar", disse a atriz, que interpreta o papel de Grace na comédia produzida por Marta Kauffman (de Friends) e Howard J. Morris. "É difícil ser a pessoa mais certinha, senti-me verdadeiramente enfadonha", confessou.

Por outro lado, Fonda nunca tinha feito uma série para televisão, e esta tem 13 episódios e implica gravar 16 horas por dia. Quando o DN questionou se tinha visto toda a primeira temporada, respondeu que sim - e foi por isso que decidiu ter aulas. "Contratei uma professora de interpretação, tal era a extensão da minha insegurança", revela. Fonda teve um hiato de 15 anos na sua carreira, entre 1990 e 2005, e estava a sentir-se estranha neste papel. Sam Waterston sorriu e comentou simplesmente: "A Jane Fonda vê a Jane Fonda de forma diferente do resto de nós."

É verdade. "Ocorreu-me que precisava de afinar o meu instrumento, que estava enferrujada. Também nunca achei que fosse boa, e acredito piamente que se pode sempre fazer melhor", confessou a atriz. Depois, fez uma revelação ainda mais impressionante: no início da maioria dos filmes, começava a olhar para outras atrizes e a pensar que elas é que deviam ter sido contratadas. "Numa ocasião, disse a um realizador que ele devia demitir-me e contratar a Faye Dunaway", lembra, sem qualquer assombro. "Esse filme foi o Klute" - realizado por Alan J. Pakula e que lhe valeu o Óscar de Melhor Atriz em 1972.

As surpresas de Grace and Frankie

Os quatro protagonistas da série - que incluem Lily Tomlin como Frankie e Martin Sheen como Robert - estão todos para lá dos 70 anos. Era esse público mais maduro que a plataforma Netflix queria atrair quando concebeu esta história bizarra de duas mulheres de classe alta em San Diego, na Califórnia, a quem os maridos pedem o divórcio porque são homossexuais e estão apaixonados um pelo outro. A química entre Jane Fonda e Lily Tomlin transborda da ficção porque existe na vida real. "Adoro aquela mulher, a todos os níveis. Somos tão diferentes na realidade", diz Fonda.

Uma das primeiras surpresas da temporada de estreia foi ter sido um sucesso estrondoso em todas as faixas etárias. "Há pessoas que me dizem que a série é vista em dormitórios universitários, e de netos que assistem ao lado dos avós", prossegue. "Mas a reação que ouço mais vezes vem de mulheres mais velhas, que me dizem "obrigada, você deu-me esperança; o meu marido deixou-me e você salvou-me a vida". Isso faz-me sentir muito bem."

Aos 75 anos, Sam Waterston, que está deliciado com a receção da audiência, fala da questão da velhice com humor. "Já me tinha sentido desiludido com a minha prestação no passado, mas agora vejo tudo. Tem que ver com a idade, porque neste momento simplesmente fico feliz só por me porem no ecrã. Vejo e digo, "ouçam, estou velho, mas não estou assim tão mal"." Waterston, um dos maridos homossexuais na série, diz que o público reconheceu o lugar especial de Grace and Frankie antes de qualquer um deles.

A outra surpresa é que a série terminou com uma traição e nenhum dos atores fazia ideia. Isso mudou completamente o cenário da segunda temporada, que começa com uma crise de saúde, o rescaldo dos segredos do final da primeira temporada e uma crise de identidade das duas protagonistas. Grace é a personagem que tem mais espaço para mudar e crescer, porque é a pessoa atinada que de repente se vê sem chão. "Ela viveu a sua vida e o casamento de forma não autêntica", estabelece Fonda. A personagem de Frankie vai obrigá-la a olhar para si própria e a perguntar-se quem é. "A Grace ainda procura a sua identidade quando não tem um homem na sua vida, mas ultrapassar isso faz parte do seu crescimento." Ou seja, vai tornar-se mais autêntica.

Já Sam faz uma interpretação um pouco desconcertante de toda a história. Diz que o apelo da série é que as mudanças são constantes na vida das personagens, e que isso é engraçado. "A premissa desta série é que as coisas que são terrivelmente dolorosas são, na verdade, cómicas. É uma proposta chocante, não é?"

Los Angeles

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