Emmy, para que te quero? As mil e uma caras de Maslany

Tatiana Maslany é uma das nomeadas para os prémios de TV deste ano. A atriz canadiana de 30 anos de Orphan Black desvaloriza

Talvez seja o maior número de personagens interpretadas pela mesma atriz numa única produção. Televisiva e cinematográfica. Em Orphan Black, Tatiana Maslany, canadiana, 30 anos, é Sarah, Elizabeth, Cosima, Alison e Helena, mas também é Rachel, Tony, Jennifer, Katja, Janika, Aryanna, Danielle Fournier e Krystal. Não são poucas as vezes em que aparecem juntas no ecrã. A versatilidade que apresenta nesta série da BBC América exibida pela Netflix e pelo MOV valeu-lhe críticas como "desempenho de nível olímpico" pelo The Guardian e "inacreditável" pelo The New York Times (NYT).

"Uma vez, a mãe dela [Renate] estava nos bastidores das filmagens e perguntou [no momento em que Maslany gravava] quando é que a filha voltava ao set", escreve Lili Loofbourow no NYT. "Stephen Lynch, o diretor de caracterização, contou-me que é costume perguntarem-lhe que próteses costuma colocar no nariz de cada uma das [pelo menos 13] personagens interpretadas pela atriz. A resposta: nenhuma", acrescenta a mesma jornalista.

As diversas caras de Tatiana Maslany, nascida na cidade de Regina, deram-lhe uma nomeação para os Emmys deste ano. É a sua segunda e o resultado saber-se-á na gala que se vai realizar em Los Angeles a 8 de setembro, cerca de duas semanas antes de a artista celebrar 31 anos.

Nova esperança para os fãs da história de ficção científica que se levantaram contra a Academia de Televisão, Artes e Ciências por não lhe terem entregado a estatueta em 2015: foi Viola Davis que o ganhou pelo seu desempenho em How to Get Away with Murder.

"Nunca acompanhei as entregas de prémios - nunca me senti fascinada com este lado da indústria -, por isso é sempre um pouco estranho para mim. Mas ter os fãs preocupados é muito bom. Fiquei satisfeita por não ter de subir ao palco em frente àquelas pessoas todas. Gaby Hoffmann [de Girls] estava mesmo à minha frente, o Jeffrey Tambor [de Transparent] também estava ali ao lado...", recordou Maslany em entrevista à revista Elle.

A atriz estreou-se aos 15 anos na representação com a série Incredible Story Studio, que mostrava histórias escritas por crianças. O passo seguinte foi 2030 CE, de 2002, a sua segunda série de televisão e aquela que lhe deu um primeiro prémio: o de melhor atriz principal nos Blizzard Awards. Filha de um marceneiro e de uma tradutora, tem ascendência austríaca, alemã, polaca, romana e ucraniana. A paixão pela representação começou na escola, onde frequentava o grupo de teatro. E onde dançava. "Atuar fez sempre parte de quem eu sou. Não sei se gosto das reações que recebo ou se gosto de ter uma audiência. Sei que algo em mim me leva a querer fazê-lo." Acabaria por dedicar dez anos da sua vida ao teatro de improviso.

Fã da sitcom animada norte-americana de ficção científica Futurama, de Matt Groening, diz ter crescido a ver a série Star Trek original (dos anos 1960) e afirma que foi Gena Rowlands no filme de 1974 A Woman Under the Influence quem a inspirou para Orphan Black.

"Trabalhar com alguém como a Tatiana, que para mim é uma das melhores atrizes da sua geração, foi emocionante", disse Tom Cullen. Os dois conheceram-se quando estiveram a filmar a minissérie da BBC World Without End. Foi em 2011 e a relação passou para o plano romântico. Estão juntos desde então e voltaram a trabalhar, já enquanto casal, no filme canadiano The Other Half. "É muito divertido trabalhar com pessoas que são melhores do que nós. E a Tatiana é, além disso, a minha melhor amiga", referiu o ator sobre a experiência.

Sobre o futuro de Orphan Black, cuja 5.ª temporada está assegurada e chega aos ecrãs em 2017, sente-se orgulhosa. E entusiasmada. Quando lhe perguntam o que pensa da introdução de mais personagens na série, sorri. "Claro que é muito trabalhoso, mas é sempre divertido. Foi por isso que aceitei este trabalho. Adoro explorar esta personagem. Estou sempre feliz. Assustada, mas feliz", responde.

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