Como é que eles usam o Facebook?

Há quem o considere o "quintal" onde se diverte, quem o use para exercer o seu lado criativo - já saíram livros de publicações na rede social - e também quem diga que está cada vez mais "mal frequentado"

Miguel Somsen, jornalista

Em 2013, um grupo de amigos criou uma página de Facebook (FB) intitulada "Free Somsen". Em causa, as várias vezes em que a primeira página do jornalista da TVI, criada em 2008, foi bloqueada pela plataforma, devido a imagens de nudez que Miguel Somsen partilhava, como "imagens de nu artístico", imagens antigas dos anos 20 e até o cartaz do filme erótico "Emmanuelle". Atualmente, Somsen tem 4990 amigos numa nova página, criada em 2014 - deixa sempre um espaço de dez amigos (o limite que o Facebook permite num perfil pessoal são os 5000) e de vez em quando faz uma "limpeza" e elimina aqueles que já não são ativos na plataforma e dá lugar a outros. É uma das figuras mais ativas no FB e o seu "Resumo da semana para totós" - onde faz o "resumo dos disparates da semana", sempre às sextas-feiras -, é agora um livro, lançado em dezembro de 2017, onde reúne essa compilação dos assuntos que marcaram os últimos sete dias da rede social. "Para mim, o Facebook funciona como um calendário e escrevo sobre aquilo que é tendência no momento, dou o meu cunho pessoal, contando uma história minha, e acrescento um bocadinho mais", diz ao DN.

Joel Neto, escritor

Criou um perfil de FB há dez anos, era uma página profissional e mais tarde decidiu criar uma página pessoal, porque a primeira não lhe permitia interagir com os amigos. Faz publicações em grupos restritos - está em vários, alguns servem apenas para marcar encontros desportivos. "Tenho um grupo que é uma espécie de mesa de café no Facebook, onde dizemos, em privado, tudo aquilo que não podemos dizer em público, mas temos estado menos ativos", revela o escritor. Em relação às redes sociais tem uma regra fixa: "pondero antes de publicar", diz. "Nunca publicaria uma foto minha em cuecas, porque não quero que isso seja público", brinca, mas a linha vermelha é essa: só publicar após ponderação e partilhar cada vez menos opiniões, uma vez que é uma postura que adotou para a vida. No entanto, defende as redes sociais, uma vez que "bem utilizadas são ótimas ferramentas".

Sónia Morais Santos, blogger

Na sua página pessoal tem 1627 amigos, e é pouco ativa na plataforma, para onde entrou em 2009. O mesmo não acontece na página profissional do blogue: "Cocó na Fralda", onde conta com mais de 80 mil seguidores. Sónia Morais Santos tem um dos blogues de maior sucesso da blogosfera portuguesa e faz publicações principalmente profissionais. Tem regras: não partilha a localização e só lá estão fotos "publicáveis": "Não publico fotos em que estou nua e mesmo fotos na praia tenho cuidado", explica. O que nem sempre aconteceu: "Se calhar no início do Facebook não pensava nisso, mas quando nasceu o Mateus [o seu quarto filho] e publiquei uma fotografia dele na banheira, pedi a um amigo para escurecer as partes pudicas do bebé, porque isso pode ser um chamariz. Era algo em que não pensávamos no início das redes sociais", conta. A blogger confessa que tem vindo a perder o entusiasmo pelo FB no último ano, devido "à maledicência dos comentários", e que agora usa muito mais o Instagram. "É mais ligeiro, só vemos coisas boas. O Facebook tornou-se um lugar muito mal frequentado", sublinha.

Alice Vieira, escritora

Está há oito anos na rede social e adora lá estar. "Costumo dizer que o Facebook é um quintal para eu me divertir", diz a escritora, que se confessa "viciada" na rede social, que, afinal, só lhe tem trazido coisas boas. Tem 3795 amigos e claro que não conhece a maioria pessoalmente. "Parti duas vértebras em Paris e por acaso partilhei isso no Facebook. Quando cheguei a Portugal, tinha uma mensagem da diretora dos hospitais civis de Lisboa - que não conheço - a dizer que me tinha marcado uma consulta", conta Alice Vieira, que nem gosta que digam mal da plataforma à sua frente. Faz publicações profissionais e pessoais, gosta de fazer homenagens a amigos - quer na data de nascimento ou na data da morte - ao publicar poemas dos autores com quem manteve amizade, e a única linha vermelha que traça é o da "lamechice": "não gosto de me vir queixar de problemas nem gosto de falar sobre doenças", diz.

José Eduardo Martins, advogado

Está há nove anos no Facebook e tem 4995 amigos e 9009 seguidores, uma vez que já não consegue aceitar muitos mais pedidos de amizade. Diz que tem uma "página básica" e que tem muito cuidado com as fotografias que partilha dos seus dois filhos - mas, afinal, em conversa com o DN, descobre que estava enganado: os rostos dos seus filhos aparecem quando as imagens são partilhadas via Instagram para o Facebook, uma vez que não ficam na "lista restrita", onde José Eduardo Martins julgava que estariam. "Não sabia, achava que só os amigos mais chegados as podiam ver", constatou, surpreendido. Mas não partilha fotografias da mulher, porque ela não autoriza. "Tem só 30 amigos no Facebook e conhece-os a todos, diz que o resto é exibição", conta o advogado, que tende agora a dar-lhe razão. "Ando a pensar se vale a pena estar no Facebook - onde publico os meus artigos, as minhas críticas sobre livros, escrevo sobre os meus festivais de música [é sócio do Primavera Sound e do Festival de Paredes de Coura] - acho que gostava de lhe fazer uma limpeza, mas não tenho tempo", diz o advogado. Tudo por causa das últimas polémicas em volta da rede social. "Isto é um negócio que vende a nossa privacidade", reconhece, admitindo que partilhar mais do que a sua atividade profissional ou as suas "recensões literárias" lhe começa a parecer "um exagero inútil".

Inês Meneses, radialista

A voz do programa "Fala com ela" da Rádio Radar tem 5000 amigos no FB e conta com 9290 seguidores, mas a sua atividade nas redes sociais obedece a regras: "publiquei no máximo três fotografias da minha filha nestes anos todos e peço-lhe sempre opinião, antes de publicar", conta a radialista. Inês Meneses também não conta nada sobre a sua vida pessoal: "Não digo se sou casada, solteira ou divorciada, nunca falo da minha família. As minhas publicações são intimistas, mas não reveladoras da minha intimidade", explica. Admite que é muito cuidadosa com o que partilha, mas no Facebook também expõe o seu lado mais criativo: das suas "piadas" sobre amores possíveis e impossíveis, e de tanto lhe pedirem para compilar as frases, lançou este ano o livro "Amores (im)possíveis", da editora Abysmo. Apesar das últimas polémicas, nunca pensou em sair da plataforma."Somos controlados de qualquer forma e sei que há um preço para tudo, não existe nada absolutamente gratuito na vida, talvez estejamos a pagar agora o preço de estarmos nas redes sociais", diz Inês Meneses, que considera que nos primórdios do Facebook "fomos todos um pouco naïf".

Júlio Machado Vaz, psiquiatra, sexólogo e professor universitário

Antes de se inscrever no Facebook, já existia uma página com o nome de Júlio Machado Vaz, o que gerava algumas "confusões". Foi essa uma das razões que levou o psiquiatra a criar um perfil, em 2012, no qual soma agora 5000 amigos e 63 mil seguidores. "No início não havia nenhum critério para aceitar amizades. Quando encheu, complicou-se", conta ao DN. Ainda hoje, adianta, há uma "lista interminável" de pedidos de amizade "É frequente privilegiar as áreas da saúde ou os amigos de amigos. Já não é o portão aberto que foi". Sem saber bem como, o psiquiatra revela que criou alguns rituais ao longo dos anos: "De manhã, leio os jornais online, seleciono algumas coisas que me interessam ou que acho graça, e publico". E complementa os posts com "uma frase de alguém ou com um poema". À noite, partilha quase sempre uma música. "Se não o faço, as pessoas preocupam-se com o meu estado de saúde", conta. Não há publicações restritas para determinados grupos, mas é "muito raro" fazer partilhas pessoais. Fica-se pelos textos ficcionais ou de apreciação das suas áreas de interesse. E só partilhou a localização uma vez, por engano, quando acedeu a uma rede num restaurante em Estocolmo.

Rui Reininho, músico

Diz que sempre teve "uma enorme desconfiança" em relação ao Facebook. "Não confio no meio", afirma o músico, destacando que já teve publicações censuradas e se apercebeu de um eventual "negócio" associado à rede. Criaram-lhe um perfil quando participou num programa de televisão, em 2012, no qual tem agora 5000 amigos e 50 mil seguidores. "Mas já foram mais. Há coisas que irritam as pessoas". Confessa que não faz muita manutenção da página. "Está um pouco abandonada. Não funciono com coisas que considero interessantes. Publico informação um pouco superficial, não muito vinculativa. Por vezes brinco com adeptos de futebol", explica. Usa também a página para partilhar alguma informação profissional, nomeadamente sobre eventos. Nada muito pessoal. "Nunca publiquei coisas de família, a não ser fotografias dos cães". Por vezes encontra colegas, primos afastados, que não vê desde a infância, o que considera interessante. Mas admite que não tem "simpatia nenhuma pelo processo". Acha "odiosa" a partilha de localizações, por exemplo, e raramente publica fotos. "Só de coisas bizarras e interessantes". E há, ainda, a questão dos "haters". "Mas não dou valor", frisa.

Nuno Camarneiro, escritor e professor universitário

Vê o Facebook "como uma ágora, uma praça pública". Por isso, não há nada que Nuno Camarneiro escreva na rede social "que não pudesse dizer em voz alta numa praça". Inscrito desde 2010, conta com 4822 gostos na página de autor e já atingiu o limite de amigos permitido pelo Facebook na pessoal: 5000. "À partida aceito o pedido de qualquer pessoa, desde que não me pareça suspeito. Mas, no limite, já me vi obrigado a desamigar algumas pessoas", reconhece. Fala sobre o seu trabalho, publica textos em jeito de crónica. "É uma página onde falo para o público em geral e não para amigos", ressalva, destacando que não expõe família ou amigos próximos. "O meu mundo pessoal não entra no Facebook". Quanto ao perfil de "escritor", diz que as publicações estão ligadas ao que escreve no perfil pessoal.

Justa Nobre, chef

"Não tenho tempo, nem vivo pendurada no Facebook", diz ao DN Justa Nobre, inscrita na rede social há cerca de cinco anos. Tem aproximadamente 1600 amigos na página pessoal e mais de 6500 "gostos" no perfil de "figura pública", que é trabalhado pela assistente. "Eu e o Facebook não somos os melhores amigos. Sempre me habituei a ter alguém a tratar disso tudo. Faço uma utilização mais profissional", reconhece a chef. Usa o perfil pessoal "mais para dar uma espreitadela" do que para fazer publicações. "Não me exponho. Posso publicar uma foto com amigos num restaurante meu, mas muito raramente. E não passa disso. Também não sou de fazer comentários. Quase tudo o que publico tem a ver com trabalho", conclui.

JP Simões, músico

Quando a agência lhe disse que o MySpace estaria para acabar, JP Simões resolveu entrar no Facebook, criando uma página pessoal e uma de artista. Estávamos em 2009. "O uso que faço é meramente profissional", diz o cantor e compositor, que tem cerca de 14 mil gostos na página de artista e 5000 amigos na pessoal. "Não tive grande critério. Fui aceitando os pedidos", conta. Gosta de encontrar pessoas que não vê há muito tempo, mas dedica-se pouco a esta rede social. "No início, achei que me roubava demasiado tempo. Não senti um grande chamamento", assume. JP prefere o contacto no "mundo exterior", mas admite que o chat é prático para falar com amigos. E tem uma regra: não faz exposição pessoal. "Não me sinto confortável a falar sobre estados de alma. É uma forma de trabalhar. Estou um pouco fora". Considera, ainda, que há "uma certa tendência para a agressividade no Facebook", fazendo com que se torne num "depósito de raiva, de mal-estar".

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Rosália Amorim

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