Rádio Miúdos. De Portugal para os cinco continentes

A primeira emissora para crianças no país funciona exclusivamente 'online' e 24 horas por dia. Música, contos, passatempos e entrevistas cativaram até quem vive lá fora

Carolina Morais
A diretora, Verónica Milagres, à conversa com a locutora júnior da equipa, Leonor© Rádio Miúdos

"A rádio não morreu. Tem ainda uma magia especial." As palavras são de Verónica Milagres, diretora de um dos mais recentes e ambiciosos projetos portugueses: a Rádio Miúdos. Dirigida a um público entre os zero e os 12 anos, esta que é a primeira emissora para crianças no país, e que arrancou em novembro passado, funciona exclusivamente online, 24 horas por dia. "Trabalho com crianças já há 20 anos. Eu própria sou mãe e senti que fazia falta uma rádio para os mais novos", explica a responsável.

A ideia inicial era criar uma rádio com emissão terrestre, mas os "custos elevados" e o "processo moroso" demoveram-na. "Não desisti, continuei a trabalhar e, entretanto, comecei a pensar numa rádio online. Isto abriu um leque enorme de possibilidades, não só porque é muito menos dispendioso mas também porque podemos chegar ao mundo inteiro".

Música portuguesa ("não só infantil mas também pop, rock, fado e música tradicional"), música em crioulo e brasileiro ("para chegar aos PALOP"), histórias, contos, passatempos interativos e entrevistas fazem parte da oferta da Rádio Miúdos. "Todas as quartas-feiras temos uma entrevista, com músicos, atores, professores ou outras pessoas que trabalhem para ou com crianças. Depois, às sextas-feiras, privilegiamos conversas com os portugueses que estão lá fora", sublinha Verónica Milagres.

Uma das prioridades da emissora com sede no Bombarral é incutir a cultura portuguesa às crianças de origem lusa que vivem fora do país. "Pensámos nos jovens que têm dificuldade em manter-se ligados à língua portuguesa. Fizemos um inquérito para perceber o interesse e, de facto, recebemos respostas de muitos pais, de vários países, a dizer que apoiam esta iniciativa e que precisam dela."

Os resultados estão à vista: analisando a base de audiências do mês de janeiro, a Rádio Miúdos sabe que já conseguiu chegar "aos cinco continentes". "Entrámos até em países que nunca imaginámos, como o Egito ou as Ilhas Caimão." Macau, Alemanha, França, Reino Unido, Dinamarca, Estados Unidos, Brasil e Austrália são outras das regiões onde o projeto online já conquistou ouvintes.

A Rádio Miúdos fez a sua primeira emissão experimental a 20 de novembro do ano passado - Dia Internacional dos Direitos das Crianças - e, em janeiro, deu início às emissões regulares em direto, que funcionam de segunda a sexta-feira, entre as 14.00 e as 16.00. "No futuro vamos alargar estas emissões em direto, claro, mas, por agora, as restantes horas do dia funcionam em regime de "auto DJ"", explica a cantora lírica, que lidera a equipa de sete pessoas.

Um dos principais pilares do "projeto pioneiro" é a Fundação Calouste Gulbenkian. Uma parceria que começou depois de a Rádio Miúdos ter ocupado o terceiro lugar no concurso Ideias de Origem Portuguesa 2015. "Não só ganhámos um generoso prémio monetário [no valor de 10 mil euros] como ficámos com a Gulbenkian ao nosso lado a 100%." Essa quantia foi usada, entre outras coisas, para "pagar o site [www.radiomiudos.pt] e para adquirir aparelhos para o estúdio".

Daqui para a frente, o projeto sem fins lucrativos - "ainda trabalhamos pro bono, por amor à camisola" - ambiciona "fazer rádio nos vários pontos da lusofonia, ter crianças a fazer programas ou apresentar workshops em escolas". Muitas pessoas pensam que as crianças já não se interessam por rádio, que preferem os videojogos e as novas tecnologias, mas Verónica Milagres volta a frisar: "Nunca tive esse receio. A rádio não morreu e tem ainda uma magia especial. As crianças percebem isso", termina.