A arte de fazer comédia para todos os gostos

Séries como 'Uma Família Muito Moderna' e 'The Office' são das mais adaptadas em diversas culturas e países. Para fazer boa comédia, há que achar a "fórmula química", diz Herman

Muita coisa separa as diferentes culturas do mundo. Mas se há algo que as une, é a crença de que rir é o melhor remédio. De facto, a comédia é o género televisivo mais exportado no mundo. As estações televisivas sabem disso e optam, cada vez mais, por dar ao seu público as séries e os programas que já encontraram a fórmula do sucesso. "Permite-lhes começar com uma marca já estabelecida e que gera buzz desde o início", explica Erika Saito, vice-presidente do departamento comercial da 20th Century Fox, à publicação norte-americana World Screen.

É difícil lançar programas bem-sucedidos, e o facto de se optar pela adaptação dos que já têm público permite "aos nossos clientes o acesso e a produção de algo com elevada qualidade e economicamente aceitável", acrescenta a responsável. A produtora Fox é o berço de uma das mais populares comédias dos últimos anos, Uma Família Muito Moderna, e responsável pela sua distribuição e venda internacional. A sitcom, que atualmente vai na sua sétima temporada, já tem versões na Grécia (Moderna Oikogeneia, lançada em março de 2014), no Chile (Familia Moderna, que se estreou em dezembro último), no Irão (Haft Sang, junho de 2014) e na Índia (ainda em desenvolvimento). Mas é no Irão que esta série regista maiores diferenças em relação à trama original: o casal homossexual Mitchell e Cameron foi substituído por um heterossexual e a jovem Haley Dunphy deu lugar a uma personagem masculina.

Outro forte exemplo da popularidade dos formatos de comédia é a sitcom The Office. Originalmente transmitida no Reino Unido, pela BBC2, em 2001, a série criada por Ricky Gervais rapidamente deu origem a uma versão norte-americana (2005-2013), protagonizada por Steve Carell. Posteriormente, foi adaptada também em França (Le Bureau, em 2006), na Alemanha (Stromberg, de 2004 a 2012), no Canadá (La Job, 2006 a 2007), no Chile (La Ofis, 2008), em Israel (HaMisrad, 2010 a 2013) e na Suécia (Kontoret, 2012).

No entanto, adverte a chefe do departamento comercial da BBC, Suzanne Kendrick, que o facto de uma série fazer sucesso num país não significa que o mesmo aconteça noutro território. "O gosto das pessoas pode ser muito diferente. É por isso que, quando escolhemos comédias, estamos à procura de algo que tenha temas universais. Seja trabalho ou família, se a essência for algo que toda a gente experiencie, é mais fácil de encontrar formas de traduzir isso para uma versão local", explica.

Falta "dimensão" a Portugal

No nosso país, falar-se de comédia é falar-se no nome de Herman José, por exemplo. Ele também é fã do que se faz lá fora. "Gostei muito da primeira versão do The Office, a versão britânica". "O que torna programas como este atraentes para outros países é que a fórmula está encontrada. Basta adaptá-la aos paladares. Tal como as receitas: a receita de soufflé está feita, portanto agora ou fazemos de bacalhau, ou de espargos ou de queijo."

O criador da sitcom Nelo & Idália, atualmente exibida nas noites de terça-feira da RTP 1, sublinha, com mais pormenor, que "de toda a criação artística, a comédia é a mais difícil". "É uma tarefa ciclópica, duríssima. Essa dificuldade faz que as coisas boas do mercado sejam exportadas, como quem exporta uma fórmula química para uma vacina ou um xarope".

César Mourão, que protagoniza a rubrica de humor Rebenta a Bolha, na Rádio Comercial, concorda com Herman e acrescenta que "o rigor com que séries como Modern Family ou The Office são feitas faz toda a diferença". "São muitas horas a construir e a ensaiar essas personagens. No fim, nós, o público, acabamos por nos identificar com elas. Estão tão bem trabalhadas que parecem muito mais reais."

Mas o que falta a Portugal para que os nossos formatos sigam o mesmo rumo é a "dimensão", responde Herman. "Somos muito pequeninos e as encomendas são poucas. Não há mercado." César Mourão completa: "Já há muita coisa boa em Portugal, mas é difícil exportar pela falta de recursos e até pela barreira linguística".

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