'Indy' despede-se do papel... e lança farpas a Murdoch

Última edição impressa do 'The Independent' foi ontem para as bancas. Futuro digital, "um exemplo para outros jornais", traz despedimentos e cortes salariais

Stop press (parem as rotativas), lê-se, num pedaço de papel branco, com as datas 1986-2016. Segue-se uma primeira página de jornal, aparentemente comum. E no interior, um suplemento especial de 16 páginas, com mensagens de agradecimento aos leitores e recordações dos últimos 30 anos. A última edição impressa do The Independent foi ontem para as bancas. A partir de agora, o futuro constrói-se em formato digital.

"O nosso jornalismo chega agora a mais pessoas e a mais países do que nunca antes, e continuará a fazê-lo na esfera digital. Esta transição arrojada, um exemplo para outros jornais à volta do mundo seguirem, é um bom momento para refletirmos sobre a nossa caminhada até agora", lê-se no derradeiro editorial.

Foram três décadas de combate à "hipocrisia, ignorância, tirania, pobreza, cliché, fraude e absurdo das celebridades". "E o mais importante, é que fizemos tudo isto sem escutas ilegais a um único telefone", destaca o editor, Amol Rajan, lançando farpas ao fundador de um dos mais poderosos grupos de media do mundo, News Corporation, responsável pela desvalorização e queda de preços na indústria dos jornais britânicos. "O Rupert Murdoch tentou destruir-nos, e sem dúvida que nos provocou danos duradouros. Mas 20 anos depois da sua vergonhosa guerra de preços, continuamos a produzir jornalismo de elevada qualidade, sem subornarmos agentes públicos, fazermos de bandidos os oficiais da polícia ou acelerarmos a queda do nosso país através das emoções baratas das lentes dos paparazzi."

Colocando os conflitos atrás das costas, o texto termina com um olhar esperançoso no futuro. "As máquinas de impressão pararam, a tinta secou e o papel deixará, em breve, de se enrugar. Mas conforme um capítulo se fecha, outro abre-se, e o espírito do The Independent continuará a florescer. O nosso trabalho continua, a nossa missão resiste, a guerra ainda soa, e o sonho dos nossos fundadores nunca morrerá."

Revolução digital

O proprietário da publicação, o milionário russo Evgeny Lebedev, aproveitou o fim deste ciclo para reforçar a importância do jornalismo online. "Há seis anos, a minha família comprou um dos maiores títulos da história dos media. No entanto, perdia 25 milhões de libras (31,6 milhões de euros) por ano. E todos os dias havia pouco mais de cem mil leitores no papel e quase meio milhão no online. Muito mudou. Por isso, os jornais têm de mudar também, adaptando-se às tecnologias e aos hábitos que os corajosos fundadores deste jornal não poderiam ter previsto".

O problema é que nem todos partilham desta visão otimista. Cerca de cem trabalhadores da publicação carinhosamente conhecida como Indy perdem agora os seus empregos e, além disso, avança o The Guardian, estão a ser forçados a assinar acordos de confidencialidade sobre o funcionamento interno do jornal, como pré-requisito para poderem receber indemnização por despedimento. Quanto aos jornalistas convidados a transitar para o projeto digital (cerca de 30), sabe-se que lhes foi pedido para aceitarem cortes salariais (em alguns casos, metade do seu atual rendimento mensal).

Mas o próprio The Guardian não deixou passar o dia de ontem em branco e prestou uma devida homenagem. No seu editorial, descreveu o Indy como um jornal "realmente maravilhoso". "Grandes jornais que sobrevivem há séculos veem os seus modelos de negócio desafiados como nunca. Por isso, ninguém celebrará o fim do The Independent em papel." Outro exemplo de diário afetado pelo novo mercado é o El País, que no início deste mês anunciou a sua transformação, embora de forma gradual, "num jornal essencialmente digital".

Lançado em 1986, o The Independent chegou a ultrapassar os 420 mil exemplares diários vendidos, em 1989. Atualmente, vendia apenas 60 mil cópias e era o jornal menos próspero do Reino Unido. Já o seu site tem 70 milhões de visitantes únicos por mês.

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