Herman José vai reviver "a doce inconsciência da juventude"

O programa "Cá por Casa" apresentado pelo humorista na RTP1 recorda esta noite "O Tal Canal" do início dos anos 1980

Passou na RTP há mais de três décadas, teve apenas uma temporada de 12 episódios, mas permanece como um dos mais revolucionários programas de humor da televisão portuguesa. O Tal Canal, uma ideia de Herman José concebida pelo próprio, apresenta-se ainda hoje com "uma modernidade fora de comum", diz o humorista. É esta uma das razões pelas quais o agora apresentador do talk show Cá por Casa reuniu em estúdio o elenco que integrou o programa. A emissão foi gravada na semana passada e vai hoje para o ar, na RTP1, às 22.45.

"Não me fica bem advogar em causa própria, mas há n"O Tal Canal uma modernidade fora de comum. Até no timing, que consegue ser mais frenético do que o da maior parte dos programas de humor que ainda hoje se produzem", refere Herman José ao DN. Manuel Cavaco, Vítor de Sousa, Natália de Sousa, Helena Isabel, Lídia Franco e Margarida Carpinteiro integravam o elenco de atores, com "talentos todos diferentes, mas todos iguais na sua capacidade de espantar e encantar".

Foram eles que ajudaram a criar as personagens deste formato centrado num hipotético canal de televisão privado. Cozinho para o Povo, O Esférico Rolando sobre a Erva, O Diário de Marilu, Tony Silva, The Super All Star Show, Viva a Coltura e O Tal Rural eram algumas das emissões fictícias que o alimentavam. Tony Silva, "o grande criador de toda a música rô", Filipa Vasconcelos, uma cozinheira que usava "imensa paprika" - numa paródia a Filipa Vacondeus -, o pequeno e irrequieto Nelito, o comentador desportivo José Esteves ou ainda Marilu, personagem da novela O Diário de Marilu, foram algumas das suas personagens.

"Recordo dessa época a doce inconsciência da juventude, em que as únicas preocupações eram acabar de pagar a casa e trocar de carro... Tudo o resto era leveza e diversão. Ainda por cima embalados pela convicção bacoca - repetida e constantemente desmentida pelos acontecimentos - de que Portugal era servido por um Estado de direito", afirma Herman José, que ao final de 40 anos de carreira já não lhe resta utopia para acreditar ser possível criar um "tal canal". "É possível fazer cada vez melhor, e mais completo, mas os tempos das unanimidades já lá vai. A oferta é demasiadamente variada para que a totalidade dos espectadores se junte à volta de um único projeto. Só mesmo as finais dos grandes derbies futebolísticos é que conseguem esse feito. E mesmo esses..."

Vítor de Sousa viu neste encontro um reviver "estranho" e "engraçado". "Parecia que tínhamos acabado de gravar um episódio e que nos estávamos a encontrar para filmar o seguinte. Tínhamos saudades daquele tempo e coisas a dizer uns aos outros", garante. O sucesso, explica, deve-se à "genialidade do Herman, um homem que sabe fazer de tudo". "O Tal Canal teve o selo de garantia dele. Todos nós percebemos que estávamos a fazer história no humor em Portugal. A forma como o fizemos foi completamente diferente de até então. Sabíamos que as pessoas queriam estar em casa à hora a que o programa era transmitido."
O facto de os jovens de agora "conhecerem as frases e as personagens", frisa ainda Vítor de Sousa, é revelador do impacto que o programa teve. "Os pais que o viram passaram essas informações aos filhos e isso mostra como o programa os marcou".

O Tal Canal foi novidade da rentrée televisiva em 1983. Viu-se entre 22 de outubro desse ano e 7 de janeiro do seguinte, tendo sido repetido durante o verão de 1984 na RTP2, em 1986 no mesmo canal, em 1991, 1994 e 2015 na RTP1 e na RTP Memória por diversas vezes.

Para Herman, no que ao humor e aos espectadores diz respeito, a diferença entre os anos 1980 e a atualidade é que o público "era mais livre". "Tinha mais razões para rir e havia sobretudo a convicção de que o espírito de [25 de] Abril estaria a caminho de se cumprir", salienta. "Hoje em dia vivemos atolados na lama do politicamente correto, e com a estranha sensação de que sobreviver é sinónimo de defender a causa do "salve-se quem puder"", acrescenta o apresentador de Cá por Casa.

Quando lançou o convite aos colegas, diz, as "reações foram de puro encantamento". "A Margarida foi insistentemente convidada, mas terá tido as suas fortes razões para faltar", acrescenta. No programa que hoje vai para o ar, Herman, Manuel Cavaco, Vítor de Sousa, Natália de Sousa, Helena Isabel e Lídia Franco só não vão recriar momentos. "Vamos falar muito, rir ainda mais e recordar algumas imagens", adianta o humorista. E claro, cantar o genérico. "Adoro a tua luz, a tua cor, o teu sinal. Mas o que mais adoro em ti é o Tal Canal", dizia.

Recorde-se que O Tal Canal foi eleito em 2007 o melhor programa dos 50 anos da televisão portuguesa, uma eleição promovida pelo Diário de Notícias, a revista Time Out e as Produções Fictícias. Ficou à frente de outros programas históricos, como Gato Fedorento, Herman Enciclopédia, Rua Sésamo, Contra Informação, O Passeio dos Alegres, Sabadabadu ou Fungagá da Bicharada.

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