"Só me tira a pose quem pode e quem eu deixo. E o Vasco pode e eu deixo"

Apresentam há cinco semanas o programa da estação pública vencedor em audiências aos domingos à noite. "Manos", como se dizem, Catarina Furtado e Vasco Palmeirim garante que o sucesso do formato é merecido e que a sua química no ecrã é verdadeira

Dão a cara pelo The Voice...

Catarina Furtado (C.F.) - [Interrompe] E estamos muito tristes porque estamos a ganhar, não é? Estamos os dois a fazer terapia e tudo [risos].

É uma tristeza assim tão grande vencer em audiências?

Vasco Palmeirim (V.P.) - Muito...

C.F. - Estamos muito felizes porque os concorrentes merecem ser ouvidos pelo maior número de pessoas.

Não me diga que está feliz só pelos concorrentes. Não é também bom para vocês, enquanto profissionais, estarem num projeto vencedor?

C.F. - É evidente que sim, mas este não é um formato de apresentadores, mas sim de mentores e cantores. Isto sem retirar o mérito que temos, acho que fazemos uma dupla muito simpática.

V.P. - Aliás, se existisse um ranking de duplas, nós ganhávamos. Em todo o mundo. Mas olha, Catarina, é verdade quando dizes que os concorrentes devem ser ouvidos, mas também é verdade que o The Voice está bem feito a todos os níveis.

C.F. - Está muito limado. Não nos podemos esquecer de que, quando se estreou em Portugal (em 2011, como A Voz de Portugal), ainda não tinha sido testado. Agora, mostramos que em termos de produção fazemos tão bem ou melhor do que outros países. E fazemos com muito menos pessoas e recursos financeiros. Portanto, somos mesmo bons nisto.

Esta edição distingue-se das anteriores pela vertente da surpresa. Vocês, que estão nas gravações, também são surpreendidos quando o programa passa na TV?

V.P. - Há uma coisa que me acontece muito que é esquecer-me do que do fiz. Quando estou a ver em casa, dou comigo a fazer exatamente o mesmo. O que isto demonstra é que o que fazemos lá é exatamente o que fazemos enquanto espectadores. Há uma grande surpresa na naturalidade com que é tudo feito.

A Catarina raramente perde a postura, mas aqui já a vimos gritar de felicidade...

V.P. - [Interrompe] Mas não é dela o grito mais estridente. Amanhã vai para o ar a audição da mãe da Mariana Bandhold (concorrente da edição passada do programa). A dada altura, a Catarina fica a zumbir de um tímpano.

C.F. - No dia seguinte fui ao otorrino. Juro. Mas, voltando atrás, uma das surpresas é ver as reações do Vasquinho, porque gravamos em salas separadas e nunca sabemos o que o outro faz.

Desde a estreia, há cinco semanas, que superam em audiência A Quinta, da TVI. A vossa felicidade é apenas pela vitória ou também pela derrota da concorrência?

C.F. - Pela primeira vez? O Dança Comigo (em 2006, na RTP1) ganhou.

Ganhou aos sábados, não aos domingos, e não tinha a concorrência de um reality show da TVI.

C.F. - Mas ganhou às outras estações e na altura foi um feito.

V.P. - Catarina, ela está a falar do formato TVI. É aí que ela quer chegar.

C.F. - Ó Vasquinho, tu ainda nem tinhas nascido [risos].

É verdade que mesmo a edição anterior do The Voice, em 2014, já tinha ganhado à SIC [com Vale Tudo]. Este ano, o feito é bater um reality da TVI durante todas as emissões. E volto à pergunta inicial: sentem-se orgulhosos apenas pela vitória ou também pela derrota da concorrência?

C.F. - Não estou contente por derrotar o inimigo. Inevitavelmente, as pessoas que estão a fazer os programas da TVI e da SIC são as mesmas com que trabalhamos de época a época, e queremos que a vida lhes corra bem e que continuem a ter trabalho, porque o mercado está cada vez mais asfixiado. Mas há uma coisa que me faz feliz: um talent show derrotar um reality show. Estou a falar do conceito e não de ser a Teresa [Guilherme] ou a TVI. Melhor seria se isto significasse que a TVI, depois, fizesse um talent show ou uma outra coisa qualquer que não um reality.

Ser o canal do Estado a vencer a uma privada não traz um gosto especial?

C.F. - A RTP tem passado períodos conturbados, conforme a política, os governos, as administrações... Somos presos por uma coisa e presos por outra. Isto não permite um equilíbrio em termos de fidelização do público. Por isso, dá-me prazer que através de um programa bom o público escolha a RTP.

V.P. - É verdade que entre as produtoras toda a gente se conhece e a derrota dos outros não me dá gozo. Eu conheço bem a Teresa... Parece-me que ela está muito triste com isto tudo... Isso não me deixa feliz. É como o MasterChef [cuja versão portuguesa é emitida pela TVI e a australiana na SIC Mulher]: a RTP1, a SIC e a TVI dão pratos diferentes, as pessoas provam e votam.

C.F. - Porque é que dizes MasterChef e não Chef"s Academy [da RTP1]?

V.P. - Ora, porque gosto muito do MasterChef Austrália! Continuando: o The Voice é um prato feito com carinho e com bons ingredientes.

O êxito é mérito exclusivo do formato ou também demérito d"A Quinta?

C.F. - Acho que é trabalho da nossa equipa. Há um esforço imenso da parte da Shine Ibéria e da RTP para que isto corra mesmo bem.

A outra edição não teve igual sucesso e foi feito pelas mesmas pessoas...

C.F. - Porque há nuances que a nível internacional foram limadas.

Como explorar mais os sentimentos dos concorrentes?

C.F. - Há uma tentativa de ter mais emoção, sim, entrando na vida das pessoas, mas não escarafunchando. Exploramos a emoção das vitórias, das desilusões, sempre numa perspetiva esperançosa. E não há um concorrente, nem os que não ficaram, que saia chateado. Isso quer dizer alguma coisa.

A Catarina estreou-se em televisão há 25 anos e já conduziu vários programas de caça-talentos musicais. Sem falarmos da técnica, que obviamente evoluiu, em que é que estes formatos estão diferentes?

C.F. - Toda a televisão mudou muito. Tem mais medo de que o espectador se canse, o que quer dizer que muda de plano mais rapidamente. Isso faz-me confusão.

E influencia a apresentação?

C.F. - Inevitavelmente. Não para melhor nem para pior, mas para diferente. No Chuva de Estrelas (SIC) tinha tempo para falar com os concorrentes. Agora o que se quer é um bocadinho de emoção, depois a canção, depois suspense...

Essa diferença promove a sua evolução enquanto profissional?

C.F. - Claro. E depois tenho de aturar crianças [aponta para Palmeirim].

Além de "aturar", o que aprendeu com o Vasco?

C.F. - Foi um belo presente que me foi dado. Não é fácil encontrar companheiros de trabalho com as características dele. Não é por acaso que é o meu "maninho mais novo".

Não respondeu à minha pergunta. O que é que aprendeu com o Vasco?

C.F. - Então, aprendi palhaçadas e parvoíces. São coisas que me dão imenso jeito porque os meus filhos adoram. Agora, sou uma mãe mais fixe [risos].

A Catarina foi bailarina. O Vasco é filho de uma bailarina e de um maestro. Profissionalmente, começaram os dois na rádio. Pode dizer-se que falam a mesma língua?

C.F. - Quando nos conhecemos, no Feitos ao Bife, percebi logo isso: que éramos muito parecidos nesta conduta de vida.

V.P. - Os nossos pais são da mesma geração. Somos filhos de gente que nos criou com os mesmos valores. Nós damo-nos bem. Eu adoro provocar a Catarina e fazê-la rir. Adoro desconstruir a pose elegante dela.

E é fácil tirar-lhe essa pose?

V.P. - Nada.

C.F. - Só me tira a pose quem pode e quem eu deixo. E o Vasco pode e eu deixo.

Neste programa, há competição entre concorrentes e há competição entre mentores. Os apresentadores competem por quê?

V.P. - Por nada.

C.F. - Nem sequer temos aquela coisa de "os meus concorrentes e os teus", porque na fase das batalhas e nas seguintes eles baralham-se.

Essa fase, a das batalhas, começa amanhã. De que é que estão à espera, tendo em conta o histórico de queda de audiências quando acabam as audições?

C.F. - Nós contamos com isso, mas também contamos com um nível altíssimo [de interpretações dos concorrentes]. Vai ser mais uma vez a questão de pôr os pratos na mesa e ver quem prova.

V.P. - É normal que as audições sejam mais vistas porque quando pensamos no The Voice associamos às cadeiras a virar. O que eu peço é que continuem a ver.

C.F. - Pedimos!

E vocês? O que é que veem em TV?

V.P. - O The Voice! E muitas séries. Sou grande fã do The Walking Dead e Game of Thrones. E MasterChef Austrália e muita Sport TV.

C.F. - Eu vejo documentários e alguns desenhos animados.

V.P. - Será o meu futuro, sim (Vasco vai ser pai pela primeira vez em dezembro).

O Vasco defende o projeto em que está integrado. Isso significa que já se considera um rosto da RTP?

V.P. - É pá... Hoje tem de ser. E digo isto pelo feedback das pessoas aos meus trabalhos. Não sou um rosto da RTP por ser uma estrela do canal, mas porque é nele que passa o meu trabalho.

No início deste ano disse que a sua vida não era a televisão...

V.P. - Porque não é apenas isso. Fazendo a analogia com o futebol, há tendência a considerar a rádio como um clube que luta para a Europa e a TV para a Liga dos Campeões. Se eu penso um dia deixar o primeiro pelo segundo? É aí que digo que a minha vida não é só TV.

Ou seja, não pensa deixar a rádio Comercial?

V.P. - Eu arranjo tempo para me dedicar às duas coisas. A rádio é o meu salário fixo. A TV é uma coisa que cada vez mais gosto de fazer, mas deixar a rádio...

Nem quando olha para o futuro?

V.P. - Se tiver de deixar uma delas? Eu sou radialista. É isso que faço todos os dias.

E a Catarina, o que é que ainda a surpreende na caixa mágica ao final de 25 anos a fazer televisão?

C.F. - Como espectadora?

Como profissional.

C.F. - [Silêncio]

V.P. - Já viste tudo?

C.F. - Não, não vi tudo. Surpreendem-me as pessoas.

As que fazem TV?

C.F. - As que entram nela. A forma como lidam com ela. Importa perceber que o poder da TV pode durar dois anos ou dois dias. Não podemos pensar que esta vida é muito boa e que vai sempre correr tudo bem. É trabalho diário, caso contrário não se conseguem carreiras longínquas.

O que acha do percurso que a RTP tem feito nos últimos meses com a entrada, há pouco mais de meio ano, da administração presidida por Gonçalo Reis?

C.F. - Acho que está a fazer o seu caminho, está a tentar fazer o seu melhor e a executar o seu trabalho da melhor forma. Mais nada.

Para terminar, se o The Voice tivesse uma banda sonora, qual seria?

C.F. - Essa é a pior pergunta [risos]. Ainda no outro dia disse ao Vasquinho: "Esta música da Beyoncé é fantástica!" E ele responde: Beyoncé? Isto é Christina Aguilera" [risos].

V.P. - Era Rihanna! Uma vez, uma concorrente estava a cantar uma música do Bon Iver. A Catarina pergunta "quem é?" Eu disse-lhe e ela entra em palco com a seguinte frase: "Bon Iver ia ficar muito orgulhoso." Eu pensei "grande miúda"...

C.F. - [gargalhada] Está a ver? É isto que tenho aprendido. É que eu parei na Whitney Houston.

V.P. - E eu já sei qual seria a banda sonora: Let"s Get It On, de Marvin Gaye, por causa do amor que toda a gente coloca no formato.

C.F. - Gosto muito dessa.

V.P. - Então, se tu gostas, está completamente aprovado!

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