Chinês do Alibaba compra o maior diário de Hong Kong

A liberdade de imprensa pode estar ameaçada depois do magnata chinês Jack Ma comprar o South China Morning Post, o mais influente jornal do território em língua inglesa

O grupo Alibaba anunciou nesta sexta-feira a compra do principal jornal em língua inglesa de Hong Kong, o South China Morning Post, naquela que é a aquisição mais política (e polémica) por parte deste grupo considerado o gigante das vendas por internet na China. O negócio inclui ainda os outros títulos detidos pelo South China Morning Post, como as edições locais das revistas Esquire, Elle, Cosmopolitan e Harper"s Bazaar. O valor da transação não foi revelado.

Esta era uma notícia aguardada há semanas e que tem causado alguma ansiedade no meio, uma vez que o South China Morning Post existe há 112 anos é um dos principais meios de comunicação entre a elite de língua inglesa que ainda domina a antiga colónia britânica. O jornal chegou a ser um dos mais lucrativos da Ásia. Durante a época maoísta e a abertura iniciada por Deng Xiaoping foi uma das fontes mais fiáveis sobre o que se passava na China. Mas nos últimos anos as vendas e as receitas publicitárias diminuíram bastante no diário que, desde 1993, era controlado pelo Grupo Kerry, do multimilionário Robert Kuok, que tem grandes interesses na China, o que influenciou a linha editorial do jornal. As pressões económicas e políticas têm enfraquecido o título que, apesar de tudo, ainda é visto como uma referência no Ocidente.

Hong Kong, que foi devolvido à China em 1997, ocupa atualmente a 70.ª posição no ranking da liberdade de imprensa organizado pelos Repórteres sem Fronteiras. Mas há 13 anos estava na 18.ª posição. Esta aquisição, por parte de um grupo chinês, pode ser o derradeiro teste à independência dos media no território.

Notícias com "ângulo chinês"

Nos últimos anos, o Grupo Alibaba, do magnata Jack Ma, tem vindo a adquirir algumas empresas ligadas à comunicação em Hong Kong, com destaque para a compra em junho passado da China Media News, a agência de notícias financeiras. Assim, tem vindo a juntar o seu know-how no meio digital com a influência dos meios de comunicação. "Como muitos dos meios impressos, o South China Morning Post encara dificuldades devido às mudanças dramáticas na forma como as notícias são divulgadas e distribuídas. Mas (...) acreditamos que estas duas empresas se complementam muito bem", afirmou Joe Tsai, vice-diretor do grupo Alibaba, numa carta aos leitores do jornal. Os novos donos do South China Morning Post comprometeram-se a dotar o jornal de mais meios e a contratar pessoal, além de também quererem aumentarem a sua presença na internet.

No que toca à linha editorial da publicação, Tsai afiançou: "O South China Morning Post vai ser objetivo, exato e imparcial. Diariamente, as decisões editoriais serão tomadas pelos editores, na redação, não na sala de reuniões da administração." Mas também ficou claro que o jornal deverá procurar sempre "um ângulo chinês em cada história" e que é preciso dar um ponto de vista sobre a China diferente do veiculado pelos meios ocidentais.

Jornalistas estão céticos

Apesar de o novo proprietário ter garantido a independência editorial do título, muitos dos jornalistas estão preocupados com o futuro. Afinal, as duas empresas já tiveram conflitos no passado. O mais famoso aconteceu em julho de 2013, quando o diário publicou uma entrevista em chinês com Jack Ma, na qual o empresário afirmava que o modo violento como as autoridades controlaram os protestos pacíficos na Praça de Tiananmen, em 1989, foi "a decisão mais correta" na altura. A afirmação levantou uma onda de criticismo e Jack Ma defendeu-se dizendo que tinha sido mal citado pelo jornal: ao falar da "decisão mais correta" estaria a referir-se a uma difícil decisão empresarial e não à violência em Tiananmen. Alibaba pediu que uma correção fosse publicada, o que o jornal, dirigido por Wang Xiangwei, recusou. Mas o jornalista que tinha assinado o artigo pediu desculpa a Ma e acabou por se demitir.

Em declarações à AFP, Willy Lam, chefe de redação do jornal, considerou que "é difícil imaginar que Ma vai tolerar artigos críticos ou que retratem negativamente o Partido Comunista ou o sistema político chinês em geral." E lembrou: "Jack Ma é um produto do sistema chinês. Ele é 100% produto caseiro. A sua empresa têm uma posição de quase monopólio na China, por isso ele tem muitos motivos para se manter na linha."

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