Câmaras de norte a sul aproximam as televisões dos espectadores

Canais de televisão têm feito aposta crescente num jornalismo cada vez mais próximo dos cidadãos. Equipas de reportagem espalhadas pelo país e a tecnologia tornam isso possível. Direções de informação explicam o processo

Se neste momento, em qualquer local, ocorresse uma explosão, um incêndio ou uma tempestade de granizo, em poucos minutos as imagens estariam na TV. Os repórteres espalhados pelo país permitem responder à urgência de acontecimentos como esses. É o chamado jornalismo de proximidade, que cada vez mais define os canais informativos.

A RTP, por exemplo, tem delegações em Bragança, Vila Real, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Coimbra, Évora e Faro, cada uma delas com equipas de jornalistas e repórteres de imagem. "O objetivo é estarmos perto das pessoas. Quando há um imprevisto, estamos prontos para ir cobri-lo rapidamente", explica Paulo Dentinho, diretor de informação da estação pública, reforçando ainda a importância, por vezes esquecida, dos operadores de câmara. "Eu nunca teria feito aquilo que fiz, enquanto jornalista, se não tivesse um camarada a acompanhar-me nas aventuras em que me metia."

À semelhança da RTP, também a TVI se orgulha de uma "distribuição geográfica equilibrada". "Estamos no Algarve, Porto, Guarda, Coimbra, Vila Real, Madeira, Açores, Évora... Apesar não estarmos em todos os distritos, estamos com rapidez em todos os locais onde se justifica. E quando há um caso mais importante, como a recente queda de granizo, as delegações são reforçadas com meios técnicos e humanos a partir de Lisboa", frisa António Prata, diretor adjunto de informação.

Já a SIC, para além das equipas em Bruxelas (três) e no Brasil (uma), dispõe de 11 delegações em Portugal. "Estamos em cada distrito do continente e nas ilhas", revela Alcides Vieira, diretor-geral adjunto de informação do grupo Impresa. "Já não há centralismo em Lisboa. Com as vias de comunicação que rasgam o país, uma equipa de reportagem depressa se desloca para qualquer lugar. As próprias tecnologias tornam isso possível. Agora, qualquer telemóvel consegue trazer um acontecimento na hora. Isso levou os canais a aproximar-se das pessoas."

A tecnologia, aliás, tem sido o elemento fundamental para o crescimento do jornalismo de proximidade, asseguram os responsáveis das estações portuguesas. "Com uma câmara e um repórter, consegue estar-se em direto em qualquer parte do país. Os nossos correspondentes têm todos uma câmara com um emissor incorporado e a transmissão é como se fosse por telefone. Nas zonas do país onde há 3G, consegue-se enviar imagens com qualidade televisiva, já não são precisos os carros de satélite de há 20 anos", garante Alcides Vieira.

Com isto houve o advento de outro tipo de jornalismo, conhecido como "jornalismo do cidadão". "Acontece, pontualmente, amadores filmarem um acontecimento e enviarem-nos imagens. Ainda nesta semana, com a tempestade de granizo, chegaram à SIC centenas de vídeos enviados por cidadãos. Cabe-nos a nós fazer o tratamento jornalístico desse material", conta o responsável de Carnaxide. E António Prata acrescenta: "Várias vezes se veem noticiários a abrir com imagens amadoras captadas por cidadãos. Como aconteceu agora com os atentados em Bruxelas. Esses meios também reforçam o tal jornalismo de proximidade."

Qual o papel da CMTV?

Para o canal do cabo CMTV, que começou a emitir em março de 2013, nada disto é novo. É uma velha "filosofia", transposta do jornal para a televisão. "Nós fazemos a verdadeira descentralização da vida portuguesa, e é por isso que temos meios de direto em todos os distritos. Temos estúdios em Viseu, no Porto, em Portimão, Braga...", diz Otávio Ribeiro, diretor do canal do grupo Cofina. Para o responsável, o seu órgão de comunicação é exemplar neste tipo de jornalismo. "O facto de os outros canais estarem a mimetizar a CMTV, eu acho, nalguns momentos, lamentável. Se já estivessem a fazer o que estamos a fazer agora, a nossa conceção teria sido outra."

As restantes estações discordam. "A nossa atuação é a nossa atuação. Nas palavras de um antigo treinador de futebol, Paulo Autuori, "nós corremos por fora". É isso, a RTP corre por fora. As referências, para mim, são as televisões de serviço público do Norte da Europa: Inglaterra, França, Alemanha", diz Dentinho.

Também a SIC defende que esta é a sua estratégia editorial "desde sempre". "Era a nossa filosofia quando estávamos sozinhos no cabo e não alterámos quando surgiu a TVI24, a RTP3 ou a CMTV", garante Alcides Vieira. E para a TVI, a resposta é clara: "A CMTV não alterou em nada a nossa forma de trabalhar, porque já éramos líderes na informação há muitos anos. Mesmo a TVI24 nasceu (há quatro anos) para ser um canal de informação, enquanto a CMTV é um canal generalista", frisa António Prata.

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