"As pessoas confundem a minha baixa autoestima com falsa modéstia"

Ricardo Araújo Pereira esteve este sábado no "Alta Definição", da SIC, para refletir sobre o humor, a fama, a religião ou o dinheiro. Desabafou ainda sobre "a pessoa mais importante" da sua vida, a avó

Com um novo livro acabado de chegar às bancas - A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, que reflete sobre o papel do humor no nosso dia-a-dia -, Ricardo Araújo Pereira sentou-se à conversa com Daniel Oliveira no Alta Definição, da SIC, para refletir sobre outros grandes dilemas da vida.

Começou por recordar a avó, Adélia, e o papel "decisivo" que esta desempenhou na sua formação. "A minha avó é a pessoa mais importante da minha vida. Tudo o que eu faço é por causa dela". Querer fazer rir os outros foi, aliás, algo que despertou dentro de si por causa dela. "A sombra da morte estava sempre presente lá em casa. Era uma senhora viúva que tinha de estar sempre séria, circunspecta, e para mim, que era um miúdo, a ideia de fazer rir a pessoa mais importante da minha vida era muito atraente", explicou.

Foi em 2002, o mesmo ano em que a sua avó morreu, que RAP se juntou a José Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis para formar o grupo humorístico Gato Fedorento. Diz que não acredita em talento, que ouvir o público a agradecer-lhe pelo seu trabalho o deixa "comovido", e que o seu percurso ("chamemos-lhe carreira, vá", disse, em jeito de brincadeira) deve muito à sorte.

"As pessoas confundem a minha baixa autoestima, que é real e essencial, com falsa modéstia. Não é falsa, nem é modéstia. Eu acho que o facto de o Gato Fedorento ter aparecido naquela altura foi sorte. Duvido que, se aparecesse hoje, teria sido o que foi", frisa Ricardo. E explica: "Os consumos televisivos mudaram muito. O que vemos hoje na televisão são basicamente notícias, novelas e bola. A única comédia que tem audiências é aquela que fazemos quando há eleições, porque é uma coisa que as pessoas querem ver na hora".

Ateu assumido, Araújo Pereira divagou ainda sobre o sentido da vida. "Não há dia em que eu vá aconchegar as minhas filhas e não me ocorra que aquelas duas crianças, se tudo correr bem, vão envelhecer e depois morrer. E isso causa-me algum transtorno. Para que serve tudo isto?", desabafou.

Casado, dono babado de quatro cães - a Flor, a Ginja, o Demónio e a Dona Custódia -, o humorista de 42 anos, autor da rubrica "Mixórdia de Temáticas" da Rádio Comercial, concluiu ainda que o humor e o riso servem, no fundo, para tornar mais fácil a convivência com a morte. Por isso, deixou uma ideia para o seu epitáfio: "Aqui jaz Ricardo Araújo Pereira. Espero que seja provisório".

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