Ary Fontoura: "Eu vejo o trabalho como um hobby, pois amo o que faço"

Com 63 anos de carreira, é um dos atores mais consagrados do Brasil. Tem como desejo trabalhar até que a saúde lhe permita. Os telespectadores podem rever Ary Fontoura na novela 'Chocolate com Pimenta', exibida no canal da Globo

O Ary é um dos atores com maior currículo do Brasil. Com 63 anos de profissão, mais de 40 novelas, 40 peças de teatro, 20 filmes e outros tantos trabalhos no currículo, existe alguma coisa que ainda lhe falte fazer?

Eu vejo o trabalho como um hobby, pois amo o que faço. Desse jeito, não penso no que ainda me falta fazer, porque os trabalhos vão aparecendo e aceito de acordo com a personagem, sem distinguir se é novela, peça ou filme. E vou trabalhar até a saúde me permitir.

Ao longo de todos estes anos de profissão já trabalhou com várias gerações de atores. Apesar da vasta experiência que tem ainda consegue recolher ensinamentos úteis para a sua profissão, vindos dos novos atores?

Sim, com certeza. Essa troca entre atores mais novos e mais antigos é muito saudável. Eles trazem o vigor e o ponto de vista diferente, enquanto nós mostramos a nossa experiência com os anos de profissão. É muito agradável e interessante esse tipo de contacto com atores de outras gerações.

Apesar de já ter feito papéis em todas as áreas da representação, o seu percurso profissional está marcado por grandes papéis cómicos. Embora a opinião se divida quanto à dificuldade de cada uma das áreas, considera que a comédia é o género mais difícil da representação?

O género mais difícil é a comédia, com certeza. A atuação requer mais atenção do que a dramática, porque não há interrupção durante um choro. No entanto, o público reage sempre com risos a um papel cómico. Com essas interrupções, o personagem vai e volta no ator enquanto contracena. Por ser um desafio constante, gosto mais de interpretar personagens de comédia.

Por falar em comédia, o Ary integra o elenco da novela Êta Mundo Bom, a trama do horário das seis da tarde no Brasil [ainda não se estreou em Portugal]. Com esta já é a sétima novela do autor Walcyr Carrasco em que participa. Tem sido uma parceria de sucesso?

É sempre muito agradável e produtivo trabalhar com o Walcyr Carrasco, nessa parceria que vem de anos. Nesta novela, o interessante é o lado da brasilidade, do interior - como chamamos por aqui, o caipira -, e o núcleo em que estou é o mais engraçado da novela. Diferentemente das outras histórias de Êta Mundo Bom, essa família do interior destaca-se pela forma como sempre enfrenta, com muito bom humor, as questões do quotidiano.

Uma das novelas de Walcyr Carrasco que integrou e mais sucesso fez em Portugal foi Chocolate com Pimenta. Teve estreia em 2004 e, desde então, já foi reexibida três vezes por cá, preparando-se agora para a quarta vez no canal Globo, depois de ter sido a mais votada para o efeito pelos telespectadores portugueses. Guarda boas memórias deste projeto?

A minha participação em Chocolate com Pimenta foi curta. Interpretei o Ludovico, dono da fábrica de chocolates de Ventura, que acaba falecendo e deixa a herança para Ana Francisca, personagem vivida pela atriz Mariana Ximenes. No entanto, no decorrer da história, ele sempre aparece com sabedoria para aconselhá-la ao longo da trama. Tenho recordações muito boas desse trabalho, tanto da direção e produção, quanto do elenco, como do contacto que tive com Mariana Ximenes, uma atriz extraordinária.

Em 2012 fez parte do remake de Gabriela no papel de Doutor Pelópidas, novela que também integrou na versão original, que parava Portugal em frente à televisão, com a personagem do coronel Coriolano. Foi nostálgico, para si, 37 anos depois, voltar a fazer parte da trama inspirada no romance de Jorge Amado?

É uma delícia fazer Jorge Amado, ele é um autor que nasceu para ter as obras retratadas na televisão. Além de Gabriela, também participei da novela Tieta, também inspirada em uma obra do autor, e lembro que foi um sucesso em Portugal também. Apesar dessa diferença de 37 anos entre as duas versões de Gabriela, e de ter interpretado papéis diferentes, foi muito gratificante. Ambas as equipas e os elencos foram ótimos e pudemos fazer um trabalho que honrasse a obra de Jorge Amado.

Seguiu-se o Dr. Lutero, em 2013, na novela Amor à Vida, um papel também marcante que foi ganhando o seu espaço através de uma relação amorosa na terceira idade, um tema pouco abordado nas novelas e que causou estranheza e, até, alguma polémica no público brasileiro. Acha que as novelas devem desafiar os preconceitos habituais na sociedade?

A novela é uma cópia da vida real, e ela está aí para ser vivida. Amor à Vida é uma novela que traz muitas questões humanas, entre elas a história de Dr. Lutero, que se apaixona após uma certa idade. É lindo poder discutir essas questões e mostrar que o ser humano tem o direito e a livre escolha para ser feliz.

Qual é a relação que tem com Portugal? Já teve oportunidade de nos visitar alguma vez?
Já visitei Portugal muitas vezes e sempre lembro desse país como uma época importante da minha vida. Todas as vezes que fui, a receção do povo português foi a melhor possível. Inclusive, viajei para cidades como Lisboa, Porto, e outras adjacentes, durante uma temporada de uma peça que fazia. Portugal é a porta da Europa, uma delícia de lugar, e pode ter certeza de que em todas as viagens que faço para a Europa tento reservar alguns dias para passear pelo país.

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