Venezuela: General da aviação revela-se contra Nicolás Maduro

Caracas, 12 mai 2019 (Lusa) - O general de divisão da Força Aérea Venezuelana, Ramón Rangel, declarou hoje desobediência ao regime do Presidente Nicolás Maduro, e instou os venezuelanos a lutarem contra a "influência castro-comunista" no país.

"Não mais castro-comunismo para a Venezuela, temos que ser livres, soberanos, retomar a nossa soberania. Chegou a hora de nos levantarmos e lutar contra o castro-comunismo", afirma num vídeo divulgado através do Youtube.

Ramon Rángel foi um dos militares que em 1992 participou na frustrada intentona golpista contra o então presidente Carlos Andrés Pérez (falecido, foi Presidente entre 1989 e 1993 e entre 1974 e 1979) liderado pelo falecido líder socialista Hugo Chávez (foi Presidente entre 1999 e 2013).

"É inconcebível que mais de quatro milhões de venezuelanos peçam esmola fora do país (...). Temos que afastar o medo e sair às ruas para protestar, para buscar a união militar e para mudar este sistema político", afirma.

No vídeo, o militar diz atuar segundo a constituição venezuelana e apela às Forças Armadas Bolivarianas da Venezuela para que se "apeguem ao artigo 328" da Constituição, que afirma que os cidadãos "não devem ser servis a uma pessoa ou parcialidade política".

"Não continuemos dizendo leais sempre, traidores nunca, porque estamos sendo traidores à Constituição Nacional", afirma o militar.

Por outro lado, explica que durante vários anos, a pedido de Hugo Chávez, esteve em Havana como encarregado de negócios e insistiu que "o povo cubano está submetido a uma ditadura" desde há mais de sessenta anos.

"Ao estar em Cuba, eu estava a ser servil, não apenas a uma parcialidade política, mas ao castro-comunismo que nos levou (na Venezuela) ao que hoje em dia temos como resultado da união entre Cuba e Venezuela", disse.

A presidente da ONG Organização Controlo Cidadão para a Segurança e Defesa das Forças Armadas, Rocío San Miguel, já reagiu à declaração do general Ramón Rangel contra Nicolás Maduro, afirmando que o militar é conhecedor do relacionamento entre Caracas e Havana.

"O significado do pronunciamento do general de divisão Ramón Rangel é muito importante. Ele conhece a trama de negócios Caracas-Havana. Os segredos do tratamento da doença e morte de Chávez em Cuba e do rumo que está a tomar o chavismo militar na sua rotura com (Nicolás) Maduro", escreveu na sua conta do Twitter.

Desde janeiro último que vários militares se têm manifestado contra o Governo do Presidente Nicolás Maduro e manifestado apoio ao Presidente do parlamento, o opositor Juan Guaidó.

A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de janeiro, quando Juan Guaidó, jurou assumir as funções de presidente interino e prometeu formar um Governo de transição e organizar eleições livres.

Guaidó, de 35 anos, contou de imediato com o apoio de mais de 50 países, incluindo os EUA e a maioria dos países da União Europeia, entre os quais Portugal, que o reconheceram como presidente interino encarregado de organizar eleições livres e transparentes.

Na madrugada de 30 de abril, um grupo de militares manifestou apoio a Juan Guaidó, que pediu à população para sair à rua e exigir uma mudança de regime.

Nicolás Maduro, 56 anos, no poder desde 2013, denunciou a iniciativa do presidente do parlamento como uma tentativa de golpe de Estado liderada pelos Estados Unidos.

À crise política na Venezuela soma-se uma grave crise económica e social, que já levou mais de 2,3 milhões de pessoas a fugirem do país desde 2015, de acordo com dados da ONU.

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