Venezuela: Antigos trabalhadores da ExxonMobil acusam Nicolás Maduro de não cumprir ordens de Hugo Chávez

Caracas, 20 jun 2019 (Lusa) - Antigos trabalhadores da petrolífera ExxonMobil acusaram hoje o presidente da Venezuela Nicolás Maduro de não cumprir as ordens do falecido chefe de Estado Hugo Chávez ao não pagar uma indemnização a que dizem ter direito.

"Tome (Presidente Nicolás Maduro) as rédeas do país porque se perde a revolução e você será o culpado que a revolução se perca, a revolução bonita que nos deixou (Hugo) Chávez (...) dê-se conta, venha você mesmo aqui ver onde dormimos, onde fazemos as nossas necessidades e o que comemos", disse um dos trabalhadores à Agência Lusa.

Juan Garcés, 78 anos, faz parte de quase uma centena de ex-trabalhadores da petrolífera que se encontram em protesto na Plaza de La Moneda, nas proximidades do palácio presidencial de Miraflores, acompanhando duas dezenas de companheiros que estão há mais de 500 horas em greve de fome.

Falando pelos companheiros, Juan Garcés diz que é "impossível" acreditar no que está a acontecer e insiste que foram eles que ergueram e defenderam "a Faixa Petrolífera do Orinoco" durante a greve petrolífera de 2002. Por isso insiste em chamar a atenção do Presidente Nicolás Maduro.

"Nós (também) o defendemos nos apelos que tem feito aos governadores, autarcas e à Assembleia (Constituinte) e agora diz que vai antecipar (as eleições para) a Assembleia Nacional. Com quem conta você se o povo está a morrer de fome", disse ditigindo-se a Nicolás Maduro.

Juan Garcés insiste ainda que o falecido Hugo Chávez "dizia que o povo não pode estar a passar fome, porque é o pior castigo que se pode dar a um povo" e explica que as pessoas se perguntam como podem comprar um quilograma de farinha de milho que custa 14 mil bolívares (cerca de dois euros), quando o salário mínimo é de 40 mil bolívares (5,68 euros) mensais.

"Estamos a morrer de fome. Como defenderemos esta revolução (...)? Venha falar connosco, pague o nosso dinheiro para que regressemos aos campos, ao trabalho e a produzir as nossas batatas. Eu, por exemplo, nesta altura já tinha uma colheita e preparava outra, não passava fome".

O problema dos ex-trabalhadores da ExxonMobil data de 1997, quando aquela empresa trabalhava na Faixa Petrolífera do Orinoco, em associação com a Petróleos da Venezuela SA (PDVSA), a petrolífera estatal venezuelana.

Segundo Pedro Amado, porta-voz dos manifestantes, a situação afeta 6.000 antigos trabalhadores e a Venezuela recebeu 5.200 milhões de dólares de indemnização da ExxonMobil, quando cessou as operações.

"Pagaram a 3.800 pessoas, mas os trabalhadores que viviam nos campos, na Faixa Petrolífera do Orinoco não receberam. Quando soubemos decidimos iniciar uma luta, porque ainda há 6.000 pessoas sem receber a indemnização", disse.

A situação levou a que 1.185 viajassem, há quase 17 meses, para Caracas, onde ainda se encontram 586 em protesto.

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