PGR brasileira pede à Polícia unificação nas investigações contra ciberataques

Brasília, 13 jun 2019 (Lusa) - A procuradora-geral da República (PGR) brasileira, Raquel Dodge, pediu na quarta-feira à Polícia Federal uma unificação das investigações aos ataques cibernéticos contra membros do Ministério Público (MP) registados desde abril.

No documento, dirigido ao diretor-geral da Polícia Federal brasileira, Maurício Leite Valeixo, a PGR considera necessária a adoção de uma investigação que possa esclarecer, além do modo de atuação, os motivos e eventuais contratantes dos "sistemáticos ataques cibernético contra membros do MP, principalmente aqueles que atuam na operação Lava Jato do Rio de Janeiro e Curitiba".

Raquel Dodge pediu ainda à Polícia Federal a instauração de um inquérito para apurar uma possível ingerência no telemóvel do conselheiro Marcelo Weitzel, membro do Conselho Nacional do Ministério Público, segundo a página na internet da Procuradoria-Geral da República.

O portal de investigação jornalística The Intercept divulgou no domingo conversas privadas entre agentes públicos - incluindo o antigo juiz e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro - que participaram na Lava Jato, a maior operação contra a corrupção do Brasil, que podem indiciar que houve colaboração ilegal e falta de imparcialidade na investigação.

No dia seguinte, o MP declarou que os ataques virtuais contra procuradores da operação Lava Jato têm sido registados desde abril e estão a ser feitos por um 'hacker' que age de forma "agressiva, sorrateira e dissimulada".

Em comunicado, o MP afirmou estarem a decorrer investigações "relativas à ação criminosa de um 'hacker' que praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público Federal, invadindo e clonando telemóveis e contas em aplicações de comunicação instantânea", nomeadamente no Telegram.

"Pelo menos desde abril, os procuradores do grupo de trabalho [da Lava Jato] vêm sendo atacados, portanto, muito antes das notícias de ataques veiculadas na última semana. (...) O modo de agir agressivo, sorrateiro e dissimulado do criminoso é um dos pontos de atenção da investigação. Aproveitando falhas estruturais na rede de operadoras telefónicas móveis, o 'hacker' clonou números de telemóvel de procuradores e, durante a madrugada, simulou ligações aos aparelhos dos membros do MP", descreveu o órgão na sua página da internet.

O MP declarou que o 'hacker' "sequestrou identidades", fazendo-se passar por procuradores e jornalistas, mantendo conversas com outros elementos do MP, com o "propósito rasteiro" de obter a confiança dos seus interlocutores e conseguir mais informações.

Ainda de acordo com o MP, as ligações telefónicas foram executadas durante a noite com o objetivo de identificar a localização da antena mais próxima do telemóvel, viabilizando assim a intrusão no aparelho, além de fazer com que o ataque não fosse descoberto.

O The Intercept é um portal de jornalismo de investigação liderado por Glenn Greenwald, jornalista a quem o ex-analista norte-americano Edward Snowden revelou os programas de espionagem da Agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA, na sigla em inglês).

Este portal iniciou no passado domingo a divulgação de uma série de reportagens sobre a operação Lava Jato, publicando textos com mensagens e conversas privadas entre promotores e juízes brasileiros na aplicação Telegram, que foram denunciadas de forma anónima.

Os diálogos obtidos apontam para irregularidades na Lava Jato, principalmente as mensagens trocadas entre o procurador Deltan Dallagnol e o ex-juiz Sergio Moro, que condenou o antigo chefe de Estado Lula da Silva, atualmente a cumprir pena de prisão.